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Shere Hite (1942-2020)

Morreu uma das grandes, uma feminista que dedicou a sua vida à desocultação de velhos tabus. Por Francisco Louçã.
Shere Hite – Foto https://twitter.com/sherehite
Shere Hite – Foto https://twitter.com/sherehite

Há uma semana escrevi sobre Niki de Saint Phalle, uma transgressora artista franco-americana que, como poucas, interpelou a gente do seu tempo. Shere Hite, cuja morte foi noticiada no passado dia 9 de setembro, era mais nova, mas as duas mulheres tiveram em comum a desocultação da sexualidade feminina quando isso era tabu. Devemos-lhes muito.

No auge da segunda vaga do feminismo, “O Relatório Hite — Um Profundo Estudo sobre Sexualidade Feminina”, publicado em 1976 nos EUA (1979 em Portugal), chocou o mundo. Hite conseguiu que cerca de 3500 mulheres falassem sobre a sua sexualidade nos vários estádios da vida, incluindo relações heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. A metodologia usada pela autora, baseada na escuta ativa, potenciou a voz dessas mulheres. E as conclusões foram sísmicas: apesar da “revolução sexual” dos anos 60, para muitas mulheres só tinha aumentado a frequência de relações e não o prazer, o que revelava como a sexualidade feminina continuava entendida como subordinada. Mais de 70% das mulheres entrevistadas afirmaram não atingirem o orgasmo através da penetração vaginal, referindo a necessidade de estímulo clitoriano. Assim, essas entrevistas revelaram o desajuste entre as conceções freudianas sobre o orgasmo, que então pontuavam, e as experiências e desejos daquelas mulheres. Se Freud tivesse razão, 70% das mulheres seriam frígidas, já que era assim que classificava aquelas que não atingiam o orgasmo por via da penetração vaginal. As conclusões de Shere Hite explicavam por que razão tantas mulheres fingiam orgasmos, ao mesmo tempo que revelavam que eles frequentemente desconheciam os corpos delas e os seus desejos (será hoje tão difícil escrever sobre esta realidade como há 40 anos?).

Dizia Hite sobre “O Relatório”: “O grande objetivo do estudo e da produção do relatório era abordar o silêncio, abrir a cortina sobre o tabu do orgasmo feminino, do clítoris, do prazer da mulher, explorar a desigualdade de género naquilo que acredito que é a sua raiz mais forte. […] Queria tornar claro que a definição de sexo era sexista há muito tempo e que descrever o orgasmo unicamente como resultado do coito era incorreto e deixava muitas mulheres a sentir-se em falta de alguma forma” (“DN”, 17 de outubro de 2019). A reação conservadora não se fez esperar. Acusada de misandria e de pretender destruir as famílias, foi ameaçada de morte, pelo que teve que se mudar para a Europa, renunciando à cidadania norte-americana em 1995. “Não me sentia livre para levar a cabo a minha investigação no país em que nasci”, dizia em 2003 à revista britânica “New Statesman”.

Shere Hite publicou outras obras igualmente importantes, todas polémicas. Em 1981 foi a vez do “Hite Report on Male Sexuality”, nunca editado em Portugal, no qual usou uma metodologia semelhante ao “Relatório” anterior, desafiando mais de sete mil homens a falarem livremente sobre os seus desejos e fantasias sexuais. Em 1987 foi a vez do espantoso “Women and Love: A Cultural Revolution in Progress”, no qual se debruçou sobre os abusos sofridos pelas mulheres em contexto conjugal, revelando desejos de se libertarem de casamentos que consideravam insatisfatórios e revelando a extraconjugalidade como forma de resposta a essa insatisfação. Em 2000 foi a vez de “Sexo & Negócios”, editado em Portugal em 2003, resultado de anos de investigação sobre as mulheres no mercado de trabalho, da desigualdade salarial ao assédio.

Morreu uma das grandes, uma feminista que dedicou a sua vida à desocultação de velhos tabus.

Artigo de Francisco Louçã, publicado no jornal Expresso a 19 de setembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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