O que há uns anos eram caixotes cheios de peixe, na região costeira do Senegal em Saint Louis, agora não passa de baldes vazios e peixes contaminados pela poluição, segundo uma reportagem da Euronews.
Uma peixeira alertou: “O peixe está podre! Os barcos estrangeiros estão a poluir o nosso mar, olhem para isto! Vamos embora tal como viemos, sem nada”.
As reclamações dos pescadores senegaleses são referentes à falta de peixe nas suas costas e apontam o dedo aos “barcos estrangeiros”, que “dificultam a pesca, poluem o mar, e apanham tudo o que costumávamos pescar”, denuncia Kala, capitão de uma das embarcações de pesca artesanal.
Moustapha Dieng, pescador reformado e dirigente sindical, teceu duras críticas às práticas ilegais de muitos navios chineses e ao acordo de pesca entre a União Europeia (UE) e o Senegal, que possibilita os navios europeus de pescar atum e pescada para além da zona das 6 milhas náuticas reservada à pesca tradicional.
Segundo o sindicalista, os barcos de pescada utilizam técnicas de arrasto, proibidas na Europa. Portanto, “são estes acordos que levam todo o peixe e criam uma concorrência desleal para a pesca tradicional”, apontou.
Amina, uma tradicional processadora de peixe, emigrou para a região de Saint Louis, com a família, para procurar uma vida melhor, mas “para além de hoje, em dois meses não conseguimos processar nenhum peixe. Estamos cansados”, acrescentando que “se dependesse de nós, íamos procurar ajuda contra estes barcos. Para que eles sejam travados, e possamos voltar a ter peixe. Já não há peixe. Até enviámos os nossos filhos em barcos para a Europa. Alguns foram para Espanha, uns conseguiram, outros não”.
A embaixadora na UE em Dakar, Irène Mingasson, assume que conhece as preocupações da comunidade pesqueira de Saint Louis, mas insiste que o acordo de pesca apoia a sustentabilidade.
A embaixadora afirma que “este acordo baseia-se na existência de um excedente de recursos; se este não existir, o acordo de pesca não poderá ser implementado. O segundo ponto é que a pescada e o atum não são espécies pescadas por pescadores artesanais senegaleses”.
No entanto, as respostas não satisfazem os pescadores de Saint Louis: “Quando se vende o peixe, não resta quase nada. Não há lucro! E não temos outro emprego, desde que nascemos que só conhecemos o mar, dependemos dele. Ninguém vai ficar aqui, vamos todos para Espanha!”