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Segredos do passado

O historiador Justin Marozzi publicou um monumental estudo sobre os “Impérios Islâmicos”. O livro, que evita conclusões simplistas ou apologéticas, limita-se a abrir uma janela sobre os segredos do passado. Texto de Francisco Louçã
Mesquita Qarawiyyin, Fez, imagem recortada para destacar a mesquita, Foto de xiquinhosilva de Cacau (recortada por Robert Prazeres)/wikimedia
Mesquita Qarawiyyin, Fez, imagem recortada para destacar a mesquita, Foto de xiquinhosilva de Cacau (recortada por Robert Prazeres)/wikimedia

O historiador, jornalista e cronista de viagens Justin Marozzi publicou no ano passado um monumental estudo sobre os “Impérios Islâmicos”, percorrendo vários séculos de História em 500 páginas.

O livro, que evita conclusões simplistas ou apologéticas, limita-se a abrir uma janela sobre os segredos do passado, estudando características surpreendentes de cada um dos impérios regionais que, em cada século, dominaram o mundo islâmico. O que demonstra é que, até um momento de rutura, essas sociedades criaram culturas pujantes, que atraíram muita da ciência e da diversidade civilizacional do seu tempo e tiveram as cidades mais tolerantes do Hemisfério Norte.

Os exemplos abundam: Damasco, habitada por uma maioria de cristãos quando, pouco depois da morte de Maomé (632), foi transformada em capital do Islão, manteve uma corte em que o tesoureiro, o médico e a esposa do califa eram cristãos. Bagdade, fundada 130 anos depois, ficou famosa pela sua vida social aberta. Em Fez foi criada em 859, por uma mulher, uma academia de teologia e estudos árabes na mesquita Qarawiyin, sendo a mais antiga escola ainda em funcionamento no mundo. Córdoba seria a maior cidade europeia no tempo dos Reis Católicos (e aí foi inventado o desodorizante e a pasta de dentes, entre outros produtos surpreendentes). Istambul, que foi conquistada pelos otomanos em 1453, respeitou a tolerância religiosa, aceitando a presença do rabi, que chefiava a comunidade judaica, e do patriarca ortodoxo. Quando os judeus portugueses fugiam da Inquisição, Istambul era o porto seguro. Muito tempo depois, em 1858, o sultão otomano descriminalizaria a homossexualidade, um século antes de o Reino Unido o fazer.

Assim, a História nem sempre foi o que se conta. Quando as Cruzadas atravessavam o Mediterrâneo, o maior perigo para a tolerância religiosa e cultural vinha nos barcos. É por isso uma imensa tragédia que muitos destes países tenham sido depois devastados pelo empobrecimento, pela desigualdade, por teocracias ou pela ganância.

Artigo de Francisco Louçã, publicado no jornal “Expresso” a 8 de janeiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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