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Sé de Lisboa: revisão do projeto é “não só necessária como obrigatória”

Numa visita às ruínas da mesquita na Sé de Lisboa, com a presença dos responsáveis pelo projeto de salvaguarda do património, a deputada Alexandra Vieira considerou ser patente que não existe qualquer impedimento técnico a uma alteração que proteja os vestígios islâmicos da Sé de Lisboa.
Sara Brito (Sindicato dos Arqueólogos), Fernando Rosas, Alexandra Vieira e Isabel Pires com o subdiretor da DGPC, João Carlos Santos.
Sara Brito (Sindicato dos Arqueólogos), Fernando Rosas, Alexandra Vieira e Isabel Pires com o subdiretor da DGPC, João Carlos Santos. Foto esquerda.net.

Numa visita que contou com a presença de vários professores universitários de História e Arqueologia, os técnicos responsáveis pelo projeto de salvaguarda do património através do qual foram descobertos novos vestígios islâmicos na Sé de Lisboa, apresentaram a evolução do projeto e os problemas que encontraram.

Na apresentação do projeto, o sub-diretor da Direção-Geral do Património Cultural, João Carlos Santos, defendeu a intervenção que destrói parte das ruínas encontradas para instalar o sistema de ventilação, e questionou a análise científica que identificou a base do minarete que existe no local, uma análise consensual entre a comunidade científica.

Questionado pelas deputadas bloquistas, Alexandra Vieira e Isabel Pires, e pelo deputado municipal de Lisboa, Ricardo Moreira, o mesmo responsável confirmou ser tecnicamente possível alterar o projeto para salvaguardar os vestígios encontrados, embora defendendo que o projeto deveria avançar.

 

Já esta quinta-feira, numa visita que contou com o historiador Hermenegildo Fernandes, a presidente do ICOMOS Portugal, Soraya Genin, considerava que “a decisão a tomar é simples – mantenham-se as ruínas da mesquita onde estão, repense-se o projecto de arquitectura aproveitando ao máximo o que já foi feito, mas sem medo de o reduzir ao essencial.”

As obras estão paralisadas, aguardando o parecer do Conselho Nacional de Cultura que, segundo declarações do arqueólogo Cláudio Torres, estará maioritariamente a favor da conservação total do monumento, incluindo os vestígios islâmicos.

“A maioria dos presentes na visita da semana passada, se não a totalidade, é pela conservação total. O projeto de arquitetura, como está, não deve ser aplicado ao local porque entretanto foi modificada a própria justificação do projeto. É uma luta, porque há um arquiteto que fez um projeto que foi aprovado. O problema é que na execução do projeto apareceram novos vestígios. É o que acontece na arqueologia, nunca se sabe quando aparecem vestígios. O arquiteto que fez o projeto vai ser obrigado a ceder. É uma questão complexa, por representar um grande investimento financeiro”, considerou Cláudio Torres.

Secção da base do minarete da mesquita, sala de banhos e muralha que seria destruída pelo projeto de salvaguarda da DGPC.

Uma especialista ouvida pelo Esquerda.net considerou também que, “sendo evidente que as ruínas da mesquita não podem sofrer qualquer alteração, o projecto tal como está - com construção de um edifício em betão enterrado no claustro - não pode ser executado”.

A razão é simples. “Esse edifício “cai” sobre as ruínas da mesquita, impedindo a sua visualização total, integral e global. O que há a fazer é fechar a laje que cobre o claustro e deixar sob esta e na cripta arqueológica apenas as estruturas arqueológicas e um circuito de visita o mais leve possível. Só assim será possível um dias todos poderemos "entrar" e circular dentro da mesquita do século XII e contemplá-la na sua total monumentalidade”, considera.

Sala de banho da mesquita da Sé de Lisboa.

Alterações “criminosas” da Sé de Lisboa

Mas as alterações já introduzidas no claustro, sem qualquer parecer, são potencialmente danosas para o património. O afastamento da equipa de arqueólogos das reuniões de obra, que se realizam todas as quartas-feiras desde 2018, estará na fonte do problema, uma vez que os objetivos arquitetónicos se sobrepõem regularmente ao trabalho científico.

Na visita desta sexta-feira, o grupo parlamentar do Bloco de Esquerda registou várias intervenções no claustro da Sé de Lisboa que, segundo a informação recolhida, não constam do projeto de salvaguarda nem de plantas a justificar as alterações, além de não terem base histórica, científica ou museológica que as justifiquem.

É caso disso a perfuração das abóbadas do claustro para introdução de cabos elétricos para candeeiros de iluminação. Ou ainda a criação de uma abertura para o pátio na fachada de uma ala do claustro, literalmente serrando a pedra, sem sequer garantir as mesmas proporções de uma abertura já existente noutra fachada do claustro. Alteradas foram também as goteiras do piso superior, originalmente colocadas por cima das colunas de suporte do claustro, impedindo a queda de água abrupta, e que agora foram colocadas por cima das rosáceas do claustro.

Pedra serrada da fachada do claustro sem autorização ou parecer científico. Abóbadas furadas do claustro da Sé de Lisboa para introdução de cablagem elétrica.
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