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Sé de Lisboa: Destruir a mesquita “seria um crime patrimonial impensável”

O historiador Hermenegildo Fernandes considera, num artigo de opinião publicado no jornal Público, que os vestígios islâmicos encontrados na Sé de Lisboa são essenciais para a “nossa memória coletiva”.
Sé de Lisboa via Flickr de Kotomi Creations.

Relembrando a genealogia do trabalho arqueológico sobre a cidade de Lisboa, o historiador e professor universitário Hermenegildo Fernandes critica, no jornal Público, a hipótese de “destruição” dos vestígios islâmicos na Sé de Lisboa, uma decisão que equipara aos crimes do Estado Islâmico com a destruição do templo de Palmira. 

A importância cultural do complexo da mesquita é, para o historiador, inegável. “Por debaixo da quadra meridional do claustro e quase ao mesmo nível da rua e da imensa obra do aterro medieval que sustenta a esplanada onde foi construído o claustro, dormia uma parte importante do complexo da mesquita aljama, com oito compartimentos identificados, o arranque das escadas de acesso à almenara (minarete) quadrangular, como todos os do Islão ocidental, e uns banhos (hamam), em associação à mesquita, onde permanecem intactos os bancos de alvenaria que serviam os fiéis”, descreve.

“Na verdade”, continua por dizer, “falta apenas o oratório e o pátio das abluções, sobre os quais foi construída, como sabemos, a sé cristã, para completar todos os elementos clássicos que, desde a construção da aljama de Damasco, compõem uma mesquita. Se descontarmos a pequena mas emblemática mesquita de Mértola, nenhum outro conjunto em Portugal tem esta importância. Para os arqueólogos e historiadores, é certo, e ainda e sobretudo, para a restituição da nossa memória colectiva”.

Revela, por isso, a sua surpresa perante ”a notícia de que a DGPC validava a destruição [...] de uma parte importante do que a intervenção arqueológica que precedia o projecto de musealização tinha descoberto”.

Para o professor, “a suposição esperançosa era, claro, que o projecto acautelaria as pré-existências e teria por centro aquilo que queria musealizar, isto é, os vestígios arqueológicos de várias épocas; enfim, que o assunto do museu fosse a História e não ele próprio”.

O Bloco de Esquerda apresentou, há duas semanas, um requerimento onde exige a presença da Ministra da Cultura e do Diretor-Geral do Património Cultural no parlamentar para prestar declarações em audição pública da Comissão de Cultura.

No requerimento, a deputada Alexandra Vieira considera que a decisão de destruição da mesquita “é um atentado inadmissível ao património cultural que, no entender consensual da comunidade científica, viola a Lei de Bases do Património Cultural bem como as Convenções internacionais de que Portugal é signatário, nomeadamente a Convenção de Malta para a conservação do património arqueológico”.

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