You are here

Science et Vie: jornalistas de ciência em luta pela qualidade e independência da revista

A histórica revista de divulgação científica francesa foi comprada pelo grupo Reworld Media. A nova administração despediu e impôs a publicação de conteúdo a partir de fora sem qualidade científica. Desde então a redação está em luta.
Pormenor da capa do primeiro da revista Science et Vie de abril de 1913.
Pormenor da capa do primeiro da revista Science et Vie de abril de 1913.

Existe desde 1913. Tem uma tiragem mensal de 185 mil exemplares e é considerada uma instituição em França. A revista Science et Vie luta agora pela sua integridade, qualidade e independência. Depois de comprada em julho 2019 pelo grupo Reworld Media, junto com uma cerca de trinta títulos da Mondadori France, a sua natureza mudou e um terço dos jornalistas foram despedidos. Os restantes deixaram até de ter acesso à página de internet da revista onde “content managers”, na realidade estagiários não pagos contratados pelos donos, sem formação jornalística nem científica, publicam artigos, alguns de qualidade, no mínimo, duvidosa.

Os exemplos são vários. Numa carta aberta publicada no Le Monde, em que defendiam que “a informação não tem a vocação de enriquecer acionistas que fizeram uma aposta financeira mas esclarecer cidadãos em democracia”, um grupo de 300 investigadores e académicos refere um artigo sobre a “descoberta de novos corpos” que “colocaria em causa a data da erupção do Vesúvio”, uma informação falsa colocada online a dois de dezembro na página da reputada revista. Noutro artigo também publicado no mesmo jornal refere-se outro conteúdo também falso, onde se ligava a vitamina D do óleo de fígado de bacalhau à prevenção da Covid-19. Como a redação não tem acesso prévio aos artigos publicados no site, apenas depois de ter sido publicado esta conseguiu colocar em causa este “conteúdo”.

O click baiting descarado substituiu a divulgação científica, colocando a reputação da revista em causa. A mesma notícia do Le Monde dava conta de outro artigo sem o mínimo de qualidade ou de informação credível sobre “os filmes de Halloween mais aterrorizadores segundo a ciência”.

Ao Charlie Hebdo um representante dos jornalistas descreve o que se tem passado: “assistimos a plágios, a traduções de comunicados de imprensa, a erros, a artigos publicados sem investigação, a artigos republicados na mesma vários anos depois da sua publicação”.

Na versão em papel as coisas também vão mal. Os novos diretores não estão em exclusividade nas suas funções, não têm formação científica e vêm de revistas com um perfil completamente diferente e não discutem os artigos com os jornalistas. Seguem as diretivas da Reworld Media que são de esvaziar as redações dos títulos comprados, reduzindo custos. Isto apesar da revista ser rentável e de continuarem a encaixar milhões em ajudas públicas à imprensa. Em julho, por exemplo, o grupo recebeu 33 milhões de euros de dinheiro do Estado. O seu presidente, Pascal Chevalier, e o seu diretor-geral, Gautier Normand, explicam, num artigo publicado no Figaro em setembro, o que fazem não como jornalismo. Para eles, o negócio da Reworld é de “moneterização de audiências e de um editor de software de performances de marketing”.

Desde a venda da revista que os jornalistas estão em luta contra esta nova direção. A Reworld tem vindo a despedir jornalistas dos vários jornais que adquiriu e a externalizar a produção de artigos (ou de “conteúdo” na nova linguagem que impôs).

O conflito continua a agravar-se. Em setembro, Hervé Poirier, ex-diretor, despediu-se e a redação entrou em greve depois suspensa para permitir a saída do número seguinte da revista.

No final de novembro, a Sociedade de Jornalistas da Science et Vie votou, com 81,8% de votos favoráveis, uma moção de desconfiança à direção em que punha em pratos limpos que pensam “não poder mais exercer” a sua profissão “corretamente”. Segundo a France Inter, depois de todos os protestos e da situação se manter, três quartos da redação está a ponderar sair.

Corre atualmente uma petição, que conta no momento em que foi redigido este artigo com cerca de 25 mil assinaturas, defendendo que “a informação não é um conteúdo como os outros” e apoiando os jornalistas e a sua independência.

Termos relacionados Internacional
(...)