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“A saúde pública aparece sempre nos momentos difíceis, mas depois rapidamente se esquece”

De acordo com o delegado regional de saúde pública de Lisboa e Vale do Tejo, nesta região com 3,5 milhões de habitantes existem somente 84 médicos desta área. António Carlos da Silva defende que é preciso valorizar esta especialidade, o que não passa exclusivamente pela questão monetária.
Foto de Paulete Matos.

Em entrevista ao jornal Público, António Carlos da Silva assinalou que “a saúde pública aparece sempre nos momentos difíceis, mas depois rapidamente se esquece”.

“Esperemos que não assim seja desta vez”, frisou o delegado regional de saúde pública de Lisboa e Vale do Tejo.

De acordo com este responsável, atualmente existem somente 84 médicos de saúde pública nesta região onde vivem 3,5 milhões de pessoas.

António Carlos da Silva alerta que faltam médicos e enfermeiros de saúde pública, que são necessários para “a vacinação, a saúde escolar, a vigilância sanitária, para ver a parte do programa de controlo de infeções, a saúde oral, a sanidade internacional”. Acresce que “temos muitos profissionais de saúde pública acima dos 60 anos”, sendo que “há muita dificuldade em substituir os que estão a chegar à fase de reforma”.

“Tem de haver uma grande aposta” na saúde pública, defendeu.

Questionado sobre a razão pela qual não existem médicos de saúde pública, o delegado regional de Lisboa e Vale do Tejo explicou que “houve um período negro em que a saúde publica não foi premiada [com vagas a concurso] ou por inércia da saúde pública ou por responsabilidade extra à saúde publica”.

"Agora há que repor e depois de repor, tem de se aumentar. Tem de haver da parte dos nossos dirigentes, Ordem dos Médicos, Ordem dos Enfermeiros, uma valorização da especialidade”, continuou.

António Carlos da Silva clarificou ainda que esta valorização “não é só monetária, são também cursos, evoluir em termos técnicos”.

“Há muita coisa na saúde pública para fazer, desde a vigilância epidemiológica à investigação. Tem de ser feito porque o país precisa”, apontou.

Segundo o responsável, é preciso aprender com a covid-19, “tentar aproveitar este conhecimento que a pandemia nos deu, esse espírito de trabalhar em equipa, de articular com outras especialidades – articulamos com a medicina geral e familiar e área hospitalar - e centrar a saúde pública naquilo que ela é, uma especialidade comunitária”.

António Carlos da Silva reconheceu que a pandemia veio agravar a questão da realização das juntas médicas e atribuição de atestados médicos.

“É um problema que existe. Em princípio não vai ficar com a saúde pública. Já se estão a criar novas juntas com médicos dos agrupamentos de centros de saúde e contratados para o fazer. Temos já algumas juntas constituídas. E há coisas que vão ser resolvidas administrativamente e as neoplasias já podem ser resolvidas a nível hospitalar. Essa legislação já foi publicada”, adiantou.

Por fim, o o delegado regional de saúde pública de Lisboa e Vale do Tejo deixou um alerta: “Temos epidemias cíclicas. Tivemos uma em 2009, só que essa foi diferente. Há uma coisa que temos de aprender: mesmo com todas as técnicas que temos no mundo, temos de utilizar as técnicas de prevenção, de promoção da saúde, temos de estar preparados para o pior”.

E “está provado que temos de ter profissionais de saúde pública para isso”, concluiu.

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