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Sahara Ocidental: Entre o desemprego e a precariedade, sobreviver é uma virtude

No Sahara Ocidental, sucedem-se as manifestações de jovens marginalizados no desemprego, por serem saharauis. A repressão aumenta e, agora, os hospitais marroquinos recusam-se a prestar assistência às pessoas feridas em manifestações - dezenas delas tiveram de ser transportadas para a capital da Argélia. Artigo de Né Eme.
Jovens licenciados organizam manifestações

À sombra das muitas falhas no quotidiano da população nativa, daquele que é um dos maiores produtor de fosfatos do Mundo, para além dos grandes bancos de pesca, da agricultura e da areia e num grave atentado à economia e aos direitos humanos , o Sahara Ocidental espoliado por Marrocos, enfrenta um elevado aumento do custo de vida e discriminação laboral.

40 anos depois, Marrocos continua a ocupar ilegalmente o Sahara Ocidental. Uma ocupação que sucede uma descolonização inacabada por parte de Espanha que é o principal responsável pelo sofrimento de todo um povo que luta, teimando em não cair no esquecimento.

O único beneficiado com a exploração e comercialização das riquezas do Sahara Ocidental é Marrocos.

O mesmo Marrocos de quem a ONU diz “não ser potencia administradora do Sahara Ocidental, mas sim uma potencia ocupante” e assim sendo é um ilegal ocupante, porquanto jamais deveria beneficiar de qualquer tipo de regalias.

Relato de Ahmed Salem, apelidado de El Bruto, natural e residente em El Aaiun, capital do Sahara Ocidental, territórios ocupados:

"Assistimos recentemente a diversas manifestações pacíficas de jovens recém-licenciados. Muitos deles terminam os seus cursos há 10 anos e continuam sem emprego. Porque para nós, Saharauis até no ensino saímos prejudicados. Embora muitos dos nossos jovens sejam licenciados, acontece que as suas licenciaturas não abrangem algumas valências essenciais em áreas muito específicas, como é o caso das minas Fosbucraa.

Recentemente, foi anunciado que iriam abrir centenas de vagas e postos de trabalho para os Saharauis nativos. Posteriormente quando os postos de trabalho foram publicados, todos eles exigiam as valências não ministradas aos nossos jovens, o que fez com que esses postos fossem ocupados apenas por colonos marroquinos

Recentemente, foi anunciado que iriam abrir centenas de vagas e postos de trabalho para os Saharauis nativos. Posteriormente quando os postos de trabalho foram publicados, todos eles exigiam as valências não ministradas aos nossos jovens, o que fez com que esses postos fossem ocupados apenas por colonos marroquinos.

A indignação por mais outra falsa promessa, fez com que nos revoltássemos. Os jovens organizaram diversas manifestações pacíficas em várias cidades do Sahara Ocidental, nos territorios ocupados, tais como Tarfaya, Smara, Boujdour, Dakla e em El Aaiun.

Apesar da forma ordeira e pacifica com que se manifestaram, foram todas elas brutalmente dispersas, sendo os jovens violentamente espancados, a maior parte com bastões e paus. Descarregaram sobre todos indiscriminadamente.

Os jovens que ficaram gravemente feridos foram levados para o hospital, os outros com ferimentos de menor gravidade, foram para a esquadra, voltando a ser espancados, saindo em liberdade horas depois.

O pior aconteceu nas cidades de Smara, Boujdour e El Aaiun.

É doloroso, mas temos que admitir que os nossos jovens estão a ser marginalizados

Desde dezembro que as manifestações se vão sucedendo, contudo este mês de janeiro as coisas estão a agravar-se consideravelmente.

No sábado, 16/01/2016, a polícia marroquina interveio fortemente, cerca das 12h após descobrir vários jovens em greve de fome, numa casa na avenida de Meca, em El Aaiun.

Jovens em greve de fome exigem com toda a legitimidade, os postos de trabalho que ocupam os colonos marroquinos uma vez que todos eles são licenciados e profissionais

Esses jovens em greve de fome exigem com toda a legitimidade, os postos de trabalho que ocupam os colonos marroquinos uma vez que todos eles são licenciados e profissionais. Sete destes grevistas foram levados ao hospital por causa da brutalidade com que foram espancados.

Este cenário de violência, por parte das forças de ocupação ilegal agrava-se.

E agrava-se, porque agora os hospitais marroquinos recusam-se a aceitar os ativistas feridos nas manifestações e que necessitam de cuidados urgentes, devido à brutalidade com que são agredidos. Foram dezenas os ativistas que, sem outra alternativa foram transportados para Argel, capital da Argélia onde finalmente puderam ser internados.

Neste momento são 5 os ativistas ainda internados, embora já em fase de recuperação:

- Ahmed Salem

- Mahafuda Bamba Lefkir

- Layla Alili

- Ghaliya Joummani

- Embayrkat

A ativista Mahafuda Bamba Lefkir, chegou a Argel, no dia 13 de janeiro de 2016 procedente de El Aaiun, em trânsito por Casablanca, 40 dias depois de ter sido agredida, de onde resultaram graves traumatismos na perna esquerda.

Assim é o nosso destino, para quem até os tratamentos médicos são proibidos.

No domingo, 17 de janeiro de 2016, a polícia marroquina, impediu a entrada em El Aaiun, de 10 europeus, 9 noruegueses e 1 alemão. Todos eles pertenciam a sindicatos e partidos europeus.”


A ativista Mahafuda Lefkir em recuperação num hospital de Argel

Desde 1975, que Marrocos com a chamada Marcha Verde, ao invadir o Sahara com milhares de colonos marroquinos, dando-lhes boas condições de vida, muito acima da média dos Saharauis, encetava o seu plano de "marroquinização" do Sahara Ocidental, numa tentativa de alterar a sua demografia.

Não foi por acaso que esses mesmos colonos receberam terras e casas, deixadas vagas com a cobarde retirada de Espanha. Tal como não é por acaso que um saco de farinha é cerca de dez vezes mais caro para um Saharaui do que para um colono marroquino.

Desde pequenos, desde os tempos de escola que os Saharauis sentem essa descriminação.

Existe um abismo entre os Saharauis nativos e os colonos.

Ao longo do tempo ambos se apercebem que estão em campos opostos, mas todos sabem que o Sahara é dos Saharauis e que nem que seja o fator tempo... Se encarregará de fazer justiça.

Artigo de Né Eme

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