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Sahara: 40 anos depois de uma negra Marcha Verde!

Porque nenhum Saharaui queria e nem quer ser marroquino, a melhor forma de tentar “marroquinizar” o Sahara foi invadi-lo, mesmo que ilegalmente. Assim pensou Hassan II, e fazendo-se eco dos seus pensamentos, 350.000 civis marroquinos começaram uma Marcha que atravessou as fronteiras do Sahara e tal como o sangue Saharaui derramado se entranhou pelas areias do deserto. Por Né Eme.
Há 40 anos, o rei de Marrocos Hassan II anunciou a organização de uma "marcha verde", a Negra Marcha do Terror, onde 350.000 civis marroquinos e 20.000 soldados caminharam até ao Sahara ocidental e ocuparam-no

Sem nenhum tipo de laço nem vínculo jurídico sobre o Sahara Ocidental, o rei de Marrocos continua a festejar ano após ano a sua ocupação ilegal de uma terra com dono, conseguida através de um pacto obscuro com Espanha, à revelia da ONU e das sua decisões. A Espanha de hoje, continua a ser tão traiçoeira e cúmplice de Marrocos contra os Saharauis como a Espanha Franquista de há 40 anos atrás.

Em 16 de outubro de 1975, o Tribunal Internacional de Justiça de Haia emitiu o seu parecer consultivo, a pedido da Assembleia Geral da ONU:

“O Sahara Ocidental era na época da colonização por Espanha um território sem dono (terra nullius)? O Tribunal decidiu, por unanimidade, negativamente.”

Quais eram os vínculos jurídicos de tal território, com o Reino de Marrocos e da Mauritânia? Uma vez mais, o Tribunal decidiu, por unanimidade, negativamente. Não existe quaisquer tipo de vínculos entre os territórios do Sahara Ocidental com Marrocos e a Mauritânia.1

 

Mas Hassan II não podia perder. Orquestrou o seu plano e rapidamente o executou:

Em 16 de Outubro de 1975, Hassan II anunciou a organização de uma "marcha" que começou a 26 desse mesmo mês, onde 350.000 civis marroquinos e 20.000 soldados caminharam até ao Sahara ocidental, entrando pela fronteira a noroeste, ocupando-o.

E aqui residia parte da manobra de Hassan II. Esse plano diabólico e maquiavélico serviu de “tampão” para o genocídio que acontecia a nordeste.

Enquanto o exército espanhol saía os soldados marroquinos ocupavam o Sahara, matando os Saharauis. Homens, mulheres e crianças, ninguém foi poupado.

Alguns conseguiram fugir, outros foram torturados, mortos e enterrados em fossas comuns.

Muito embora a ONU tenha condenado esta atitude e até aos dias de hoje a Espanha continue a ser a potência colonizadora do Sahara Ocidental, e Marrocos o ilegal invasor, certo é que os Saharauis, continuam a ser cruelmente penalizados.

Os trágicos acontecimentos que se seguiram resultaram numa história que jamais cairá no esquecimento:


No final de Novembro de 1975, várias cidades das principais cidades Saharauis estavam já controladas pelo invasor marroquino e os seus habitantes alvos de roubos, incêndio de casas, prisões em massa, tortura, desaparecimentos e assassinatos.

Uma jovem Saharaui, Mariam Mohamed Salem, testemunha ocular, relatou: "Enquanto passavam os tanques, os soldados marroquinos, muitos deles drogados com haxixe, cometiam assassinatos em massa; muitas mães Saharauis e os seus filhos foram mortas só por não dizerem: Viva o rei Hassan II de Marrocos! (...) Forçavam todas as casas e queriam obrigar os Saharauis a colocar a bandeira marroquina e a fotografia do Rei, caso não o fizessem toda a família seria presa (...) Na prisão as mulheres eram deixadas à mercê dos soldados marroquinos, acostumado a uma vida de drogas e prostitutas. A violação foi regra generalizada (...) Eu estive presa quatro dias por suspeita de ser membro da Frente Polisario, juntamente com outras trinta meninas estudantes. Muitos dos presos ou detidos nunca mais voltaram.”

Confrontados com esta barbárie, dezenas de milhares de Saharauis levaram o pouco que tinham para fugir para os campos criados no interior do território. O duro caminho e as duras condições, custaram a vida a centenas de pessoas, a maioria idosos e crianças, devido às más condições, temperaturas, falta de água, falta de alimentos, doença e exaustão. Em dezembro de 1975, de acordo com várias fontes, cerca de 20.000 pessoas tentavam sobreviver nos acampamentos no interior do território, sem assistência médica, sem remédios e com severa escassez de água, abrigo e comida. Em fevereiro de 1976, eram já 50.000 refugiados que viviam nos acampamentos. Os alimentos e a água tiveram de ser severamente racionados."2


O meu pai, vendo a situação de caos e instabilidade criada (…) decidiu, juntamente com os meus irmãos mais velhos iniciar a saída das mulheres e dos idosos. A minha mãe, com um bebé de 6 meses e uma menina de 2 anos, atravessou o deserto com a sua sogra de 83 anos e as cunhadas. Naquele momento, tanto o meu pai, como os irmãos e todos os homens que se consideravam Saharauis perceberam que a sua terra tinha sido vendida por Espanha, apesar de no dia anterior, o dia 2 de novembro de 1975, Juan Carlos, ter estado em El Aaiun para acalmar os ânimos e ter dito “Vim saudar-vos, e viver com vocês umas horas, conheço o vosso espírito, disciplina e eficácia. Desculpem, não poder ficar mais tempo aqui com estas grandes unidades, mas queria dar pessoalmente a garantia de que se fará tudo o que for necessário para que o nosso exército mantenha intacto o seu prestígio e honra.

Espanha vai cumprir os seus compromissos e manter a paz, um dom precioso que devemos preservar. Não se deve pôr em causa qualquer vida humana quando se oferecem soluções desinteressadas e justas e se procura ansiosamente a cooperação e compreensão entre os povos. Gostaríamos também de proteger os direitos legítimos do povo civil Saharaui, já que é a nossa missão no mundo e a nossa história que assim o exigem. "

Mas eles já sabiam que a Espanha não iria mover um dedo pelos Saharauis já que uma semana antes as cidades de El-Farsia, Houza e Echderia tinham sido invadidas pelo exército marroquino (…) o que Marrocos chamava a Marcha Verde ou da paz, os Saharauis imediatamente começaram a chamar de Marcha Negra, ou do Terror.

O meu pai e os meus tios, uniram-se ao Exército de Libertação Nacional Saharaui e foram para a frente de batalha, não sem antes se assegurarem que as respetivas mulheres, filhos e a mãe, tinham conseguido escapar ao cerco de El Aaiún. (…) as mulheres na sua fuga, tiveram que suportar o duro inverno do deserto, com pouca comida, e chegaram mesmo a montar acampamentos improvisados nas zonas libertadas pelo exército Saharaui, mas foram bombardeados com napalm e fósforo branco. A minha mãe e muitas outras jovens Saharauis dedicaram-se a ajudar os feridos, mesmo não tendo quaisquer conhecimentos de primeiros socorros ou enfermagem, contudo o instinto natural é ajudar os seus vizinhos em tudo o que podem. “Jamais tinha visto tanto sangue em toda a minha vida, e com o tempo habituei-me a ver as minhas amigas, vizinhas e os seus filhos a morrer nos meus braços” (…)3


Este ano, cumprindo a “tradição” o rei de Marrocos voltou a El Aaiun e celebrou a Marcha Verde. E enquanto ele celebrava com os colonos marroquinos, a ilegal ocupação dos territórios do Sahara Ocidental, milhares de Saharauis choravam a perda dos seus familiares na Negra Marcha do Terror que há 40 anos atrás ditou a tragédia em que se tornariam as suas vidas, quer nos territórios ocupados, quer nos acampamentos. Só eles poderiam descrever os seus sentimentos face à traição espanhola, à incapacidade da ONU na resolução deste conflito e ao assassino invasor marroquino.

Recolhi o testemunho do jovem Saharaui Sidi Ahmed Lyadasi: “A ONU tem consciência do sentimento geral e da nossa impaciência, sobretudo dos mais jovens, e por isso sempre menciona nos seus relatórios e resoluções o nosso direito à auto-determinação. Não me canso de repetir que deve acelerar este processo para evitar o retorno à violência. Esperamos que a ONU avance, caso contrário os Saharaui especialmente os mais jovens devem preparar-se para pegar nas armas novamente. Estamos já cansados desta situação”

Apelo aos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas para avançarem e progredirem na questão dos acordos feitos em 1991, que trouxeram a solução do conflito do Sahara Ocidental e garantiram um caminho claro de descolonização do povo Saharaui. É imperativo para garantir os direitos inalienáveis do povo Saharaui à autodeterminação. A única questão que permanece em aberto é quando?" Testemunho do Presidente Adalauk.org4

Se para Marrocos o dia 6 de Novembro é um dia de festa, qual a legitimidade de pertencer aos estados membros do Conselho dos Direitos Humanos?

Artigo de Né Eme


3 Fonte: Este testemunho foi recolhido de uma nota publicada em 7 de julho de 2014 Sidi Moh. Talebbuia https://www.facebook.com/notes/sidi-moh-talebbuia/biograf%C3%ADa-de-un-saharaui-cualquiera-extracto-la-marcha-verdenegra-/10152585998069532

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