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A Rússia tem um novo movimento socialista

Com quase 20% dos votos, o Partido Comunista foi visto como um dos grandes vencedores das eleições russas após atrair uma nova vaga de ativistas socialistas democráticos que se opõem ao governo de Vladimir Putin. É o caso de Mikail Lobanov, candidato independente em Moscovo, aqui entrevistado por Ilya Budraitskis.
Mikhail Lobanov
Mikhail Lobanov num comício de campanha. Foto cedida por Sofia Kalinina à Jacobin.

As eleições parlamentares realizadas na Rússia a 17-19 de setembro de 2021 trouxeram outra vitória nominal ao partido Rússia Unida do Presidente Vladimir Putin. Mas o resultado mais notável foi o salto na votação do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF), que ficou em segundo lugar com 19% dos votos.

Apesar da habitual fraude a favor dos aliados de Putin, o KPRF conseguiu conquistar um novo eleitorado, especialmente os jovens das grandes cidades que viam no voto do partido a sua única oportunidade de dizer não à ordem existente. Desde os anos 90 que o programa oficial do KPRF tem permanecido enraizado numa mistura de estalinismo, nacionalismo e paternalismo social-democrata. No entanto, nos últimos anos, surgiu uma geração de jovens líderes regionais no seio da KPRF, direcionando o programa mais para um discurso centrado na defesa dos direitos democráticos, da igualdade social e da ecologia.

A este respeito, um dos aspetos mais reveladores da eleição foi a campanha de Mikhail Lobanov, um professor de matemática com trinta e sete anos na Universidade Estatal de Moscovo. Mikhail foi nomeado pelo KPRF, mas posicionou-se como um socialista democrático independente. Derrotou o candidato do Rússia Unida, de Putin, por mais de dez mil votos (uma margem de 12%) mas a contagem foi posteriormente manipulada para lhe negar a eleição para o parlamento.

O voto popular em candidatos como Mikhail Lobanov foi, no entanto, um verdadeiro avanço para a esquerda radical, mostrando o seu potencial para expressar o descontentamento popular mesmo nas difíceis condições políticas da Rússia atual. Por exemplo, ativistas do Movimento Socialista Russo e vários outros grupos radicais de esquerda, tradicionalmente críticos do KPRF, desempenharam um papel importante na sua campanha eleitoral.

Ilya Budraitskis, um ensaísta político de esquerda que vive em Moscovo, conversou com Mikhail Lobanov sobre os resultados eleitorais para o website Jacobin.


Fale-nos um pouco dos seus antecedentes políticos.

Na escola eu gostava de ler livros de história, mesmo que fossem apenas romances históricos, juntamente com livros mais científicos. Na universidade, já como estudante de matemática, passei o meu tempo livre em bibliotecas e livrarias e, à medida que ia lendo romances, decidi que precisava de ler Marx, Lenine e Trotsky. Por exemplo, encontrei A Revolução Traída, de Trotsky, na biblioteca na Universidade Estatal de Moscovo (UM).

Em 2006, participei num seminário de estudantes marxistas, realizado na UM por ativistas do Movimento Socialista Vpered. Durante o ano e meio seguinte, participei em várias ações contra a mercantilização da educação e em defesa dos direitos dos trabalhadores com o Vpered. As reuniões do partido foram realizadas no gabinete da Confederação Russa do Trabalho, e foi assim que conheci os sindicatos independentes russos.

Como é que surgiu um grupo de ativistas na Universidade Estatal de Moscovo?

Estávamos à procura de áreas de mobilização no seio da universidade. Em 2009, a administração quis apertar as regras de acesso aos dormitórios. Iniciámos uma campanha de protesto, recolhemos 1700 assinaturas e acabámos por conseguir que estas novas regras fossem canceladas. Como resultado desta campanha de três semanas, formámos um núcleo de ativistas universitários, cerca de trinta pessoas. Encontrámos soluções para problemas quotidianos, mas era evidente que isto não era suficiente para nos levar a um nível superior de organização.

Começámos então a cooperar com o ramo do Partido Comunista da universidade, que incluía tanto professores como estudantes. Em 2011, a administração decidiu tornar a endurecer os regulamentos do dormitório, e conseguimos organizar uma campanha de protesto realmente poderosa e bem-sucedida. Esta campanha envolveu diretamente centenas de pessoas e o nosso núcleo tornou-se maior. Foi precisamente nessa altura que começaram os protestos em grande escala após as eleições da Duma, que tinham sido manipuladas a favor do partido Rússia Unida, de Putin. Ao nível universitário, isto culminou numa luta entre o nosso próprio Grupo de Iniciativa e o Conselho oficial dos Estudantes da UM, que estava estreitamente associado ao partido no poder.

Também estivemos ativamente envolvidos na observação independente nas eleições parlamentares e, na mesa de voto no edifício principal da UM, infligimos uma pesada derrota ao Rússia Unida, apesar da mobilização de pessoal administrativo.

Participámos igualmente de modo ativo em todas as manifestações de protesto de 2011-12 em Moscovo, e muitos estudantes que participaram nos protestos não estavam preparados para se juntarem a nenhuma força política em particular, juntando-se por isso ao nosso contingente.

Esta experiência levou, entre outras coisas, a Confederação do Trabalho a levantar a questão da criação do sindicato "Solidariedade Universitária". Assim, começámos a ajudar grupos de estudantes e professores de outras universidades através do sindicato. Estivemos também ativamente envolvidos em campanhas para preservar o parque em torno dos edifícios da UM, que atraía constantemente o interesse dos promotores imobiliários. Através desta ação, entrámos em contacto com conselheiros municipais e residentes locais ativamente empenhados em questões de vizinhança. Realizámos eventos conjuntos, especialmente no distrito de Ramenki. As autoridades universitárias tentaram despedir-me duas vezes por estas atividades, em 2013 e em 2018.

Como decidiu candidatar-se às eleições este ano?

Nos últimos dez a quinze anos, foi construída uma rede muito ampla de contactos, incluindo com o ramo universitário da KPRF. Fui convidado a concorrer nas listas do KPRF em quase todas as eleições locais. Mas recusei porque era um afastamento da minha própria agenda principal do ensino superior - uma vez que este campo está mais ligado às leis federais e ao orçamento aprovado pela Duma Estatal Russa.

Em 2020, ficou claro, pela comunicação com os membros do KPRF na universidade, que eles estavam prontos a oferecer-me a possibilidade de concorrer para a Duma Estatal. Senti que se eu estivesse presente no distrito da UM e mobilizasse as relações e contactos que tinha construído, poderia ganhar. Tive a sensação de que poderia ser despertado entusiasmo suficiente para esta campanha. Mas não tinha uma ideia clara de como fazê-lo e nem de que ações específicas tomar nas eleições, porque era algo diferente do que tínhamos feito antes. Mas como a minha intuição me disse que poderia funcionar, decidi tentar.

Durante alguns meses tivemos discussões e debates sobre os primeiros passos. Há muito poucas pessoas na Esquerda que tenham experiência eleitoral. O KPRF tem essa experiência, mas é muito particular. Não recomenda pedir dinheiro às pessoas para a campanha eleitoral, mas sim contar com o financiamento do partido e ver a possibilidade de encontrar outros patrocinadores. Percebemos que tínhamos de fazer as coisas de forma diferente.

 Mikail Lobanov. Foto cedida por Ivan Afanasyev

Como caracterizaria o círculo eleitoral em que concorreu?

A Rússia está dividida em 225 círculos eleitorais, com uma média de 500 000 eleitores cada. O nosso círculo eleitoral situa-se na parte ocidental de Moscovo. Nas eleições anteriores, foi visto como um círculo bastante contestatário, e o KPRF tinha anteriormente obtido bons resultados. Ao mesmo tempo, porém, os liberais do Yabloko também sempre foram uma verdadeira força neste círculo eleitoral, e desta vez apresentaram um candidato forte.

Existe uma universidade no círculo, por isso, em termos meramente estatísticos, esta zona tem uma maior concentração de licenciados e empregados da UM do que em Moscovo. Há um sentimento de que a "marca UM" neste distrito traz algo de próprio. Eu sou um matemático, não um político, e isso poderia jogar positivamente a meu favor.

Foi em fevereiro, penso eu, que soubemos quem seria o nosso principal rival. Foi anunciado que o Rússia Unida iria apresentar o apresentador de programas de televisão Yevgeny Popov. É um propagandista de televisão que transmite as posições do Kremlin sobre países ocidentais hostis e a terrível Ucrânia, tentando desviar a atenção das pessoas dos problemas internos da Rússia e direcioná-la para o confronto externo e despertando o ódio entre nações. Os seus modos são arrogantes, mas muitas pessoas gostam realmente dele, eu até já as conheci.

Como foi organizada a campanha? Até que ponto dependia do KPRF?

Surpreendentemente, o KPRF não tinha qualquer controlo político apertado - nós próprios escrevemos o nosso programa, sem consultar o partido. O KPRF atribuiu menos de 15% do orçamento total da nossa campanha. Realizaram sessões de formação, reuniões para candidatos, onde lhes explicaram como dirigir uma campanha. Disseram-nos, por exemplo, para não nos envolvermos no crowdfunding, pois as pessoas não nos iriam dar dinheiro de qualquer forma e poderia causar-nos problemas. No entanto, não seguimos este conselho e acabámos por angariar cerca de 6 milhões de rublos (mais de 80.000 dólares) durante a campanha.

Em comparação com o que o Rússia unida ou a oposição liberal gastam, isto não é muito. Foi a motivação política que desempenhou um papel importante na nossa campanha - a maioria dos ativistas defendia posições socialistas, e todos tinham a expectativa de que podíamos realmente vencer o Rússia Unida. Assim, tivemos cerca de duzentos ativistas a participar na nossa campanha, divididos em vários grupos em diferentes partes do círculo eleitoral.

Fale-nos do seu programa eleitoral.

O nosso slogan principal era: "O futuro é para todos, não apenas para alguns". Na Rússia há um grupo de pessoas que se apropriaram de todos os recursos políticos e económicos e que estão a construir o futuro só para si próprios. Queremos uma redistribuição dos rendimentos e do poder político em favor de todos. Em torno desta tese central, construímos exigências detalhadas relativamente aos problemas do distrito e do país. Pontos importantes incluíram a luta contra o desenvolvimento comercial descontrolado em Moscovo; a reciclagem obrigatória de resíduos; a proteção contra o encerramento de escolas e hospitais; e, claro, os direitos laborais e a necessidade de sindicatos fortes.

Dirigimo-nos ao eleitorado com esta agenda, e pelos vistos construímos uma boa imagem de um candidato e da sua equipa: lidávamos com vários problemas com entusiasmo, procurávamos convencer toda a gente, reunir recursos, organizarmo-nos. Isto repercutiu-se nas pessoas. A experiência de um candidato universitário, um matemático com experiência de campanha pública, falando sobre sindicatos, defendendo espaços verdes.

As pessoas gostaram, mas também tiveram um dilema: na Rússia muitos vêem a votação como uma oportunidade para mostrar às autoridades o seu protesto. Para eles, é importante que um candidato da oposição possa vencer, independentemente da sua opinião. Uma vez que no meu círculo eleitoral a campanha de um candidato liberal tinha vastos recursos, muitas pessoas limitaram-se a observar até ao último momento e só no final decidiram quem deveriam apoiar.

Qual foi o resultado?

Vencemos o candidato do Rússia Unida por mais de um terço dos votos. Fez uma campanha muito cara, os seus cartazes estavam por todo o lado, foi apoiado pela administração local. Mas, apesar disso, derrotamo-lo com facilidade. No entanto, a situação foi completamente invertida na manhã seguinte com os resultados da votação eletrónica.

Quantos votos obteve nas mesas de voto e quantos na votação eletrónica?

Obtive 46 mil votos na votação nas urnas, 20 mil na votação eletrónica. O propagandista de TV Yevgeny Popov obteve cerca de 34 a 35 mil na votação em urna e 45 a 46 mil na votação eletrónica. Mas não acreditamos nos resultados do voto eletrónico: eles foram manipulados no interesse das autoridades.

Foi apoiado pelo "Voto Inteligente", um voto tático anti-Putin proposto por apoiantes de Alexei Navalny. O que pensa desta estratégia em geral? E o que pensa do próprio Alexei Navalny?

É uma estratégia que funciona nas principais cidades russas. A estratégia resume-se a votar no candidato da oposição que tem a melhor hipótese de derrotar o Rússia Unida. Os eleitores da oposição são convidados a votar nesse candidato, independentemente da sua opinião. Alexei Navalny e eu temos grandes diferenças ideológicas, claro, porque eu estou na esquerda radical. Alexei Navalny costumava estar à direita, mas nos últimos anos mudou a sua orientação, o que é de saudar, pois tem grande influência mediática.

O facto de os seus apoiantes terem começado a levantar questões sociais como o salário mínimo e a elogiar os sindicatos tem tido um efeito positivo. Mas ainda temos posições diferentes. Além disso, a comitiva de Navalny é mais de direita do que o próprio Navalny. Vê-se isto no facto de ter ido parar à prisão. Mas o importante é que ele foi preso pelas suas atividades políticas. Obviamente que me oponho a isso e acredito que ele deve ser libertado. Penso que é necessária uma discussão honesta com ele e um debate sobre as suas posições ideológicas.

Quais são os seus planos políticos após as eleições? Pessoalmente e, na sua opinião, qual deveria ser a estratégia da esquerda russa, dos seus ativistas?

Estamos atualmente a pensar em como manter a equipa que construímos, porque era muito grande. Será mais difícil a partir de agora, mas vemos que existe procura de novas atividades. Aqueles que participaram na campanha passaram por momentos altos: foi uma vitória, e todos a vêem como uma vitória. Conseguimos fazer o que parecia possível apenas em teoria, o que significa que podemos fazer muito. Estávamos a contar com os verdadeiros recursos da Duma, queríamos fazer campanha e manter o coletivo com base na Duma do Estado. Mas não resultou, devido à fraude eleitoral.

Tenciona participar novamente?

Há membros da equipa que gostariam de tentar concorrer eles próprios nas eleições locais. Sou mais cauteloso porque poderia ser um desperdício de energia. Precisamos de pensar como nos podemos consolidar, caso ganhássemos as eleições municipais em vários círculos. Estou mais interessado em saber como podemos canalizar a nossa energia para o desenvolvimento do movimento sindical e da auto-organização nas universidades. As eleições também podem ser uma boa ideia, mas não me parece que devamos fazer apenas isso. Afinal, também vi as últimas eleições principalmente como uma oportunidade para falar com as pessoas sobre as ideias em que acredito.


Mikhail Lobanov é um ativista independente de esquerda, que concorreu numa lista do Partido Comunista da Federação Russa (KPRF) nas eleições gerais de Setembro de 2021. Ilya Budraitskis é um ensaísta político de esquerda que vive em Moscovo. Artigo publicado no website Jacobin, 2 de outubro de 2021. Tradução de Paulo Ferreira para o Esquerda.net

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