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"Ruínas", a peça sobre mulheres vítimas da guerra em África estreia no S. Luiz

"Ruínas", a aclamada peça da autora norte-americana Lynn Nottage, inspirada em histórias reais de refugiadas congolesas violadas durante a guerra, estreia em Lisboa, esta quarta-feira. Estará em cena no S. Luiz até dia 16, seguindo depois para uma versão mais intimista no Teatro do Bairro, também em Lisboa, ainda este mês.

“O musical Ruínas - aclamada peça da norte-americana Lynn Nottage, premiada com o Pulitzer em 2009 - conta-nos as histórias dramáticas de violação e escravatura de seis mulheres congolesas fugidas da guerra, a partir de testemuhos reais, recolhidos pela autora num campo de refugiados no Uganda. (...) Um cenário de tragédia, destruição e ruína, num musical também cheio de esperança e amor, que dignifica a resistência destas mulheres de forma exemplar”, é o resumo da peça disponível no site do São Luiz.

"Ruínas" estará em cena no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, até ao dia 16, seguindo depois para uma versão mais intimista no Teatro do Bairro, também em Lisboa, ainda este mês.

O contexto da peça é a guerra civil na República Democrática do Congo, mas a peça ganha outra atualidade com a dramática vaga de refugiados na Europa, na sua maioria fugidos da guerra e da pobreza.

"Está-se a falar muito de refugiados, fala-se muito disto, de guerra, há aqui um cheiro a guerra no mundo muito próximo. (...) Isto pode dar um rosto. Quando vemos pessoas metidas dentro de um barco de borracha, o que vai fazer é afundar-se. Tem mais hipóteses de afundar do que atravessar o Mediterrâneo. Questionamo-nos quem é que se mete ali dentro com a família. Estes relatos mostram um bocadinho o muro, o que é que está a empurrá-las para o barco", afirmou o encenador António Pires, entrevistado pela Lusa.

"Ruínas" estreou nos Estados Unidos, em 2007, e inspira-se também na célebre e incontornável "Mãe Coragem", de Bertolt Brecht. António Pires leu o texto há uns anos e imediatamente o quis levar à cena.

"Os espectáculos vêm ter connosco. Isto diz-me alguma coisa. Nasci em Angola e, aos oito anos, vim-me embora com os meus pais. Há aqui um lado muito pessoal, uma coisa que me toca, esta coisa dos horrores da guerra, é uma coisa que sempre me acompanhou na vida. Eu sei que isto existe, que é mesmo verdade, que não é lá longe e que nos pode acontecer a qualquer momento", explicou.

O elenco é composto maioritariamente por atores e cantores africanos ou de ascendência africana. Em palco estarão mais de uma dezena de pessoas, entre os quais os cantores Mistah Isaac, Timóteo Tiny (NBC), Adriano Diouf, Elizabeth Pinard e Selma Uamusse, e os atores Zia Soares, Daniel Martinho e Matamba Joaquim. A peça tem música adicional de Filipe Raposo e letras de Kalaf.

"Quase todos estes atores aqui, por serem negros, por terem nascido em África ou porque os pais viveram na pele, tudo isto é-lhes muito próximo de alguma maneira. Nunca falámos disso, porque destas coisas não se fala, nem nos ensaios. Sabemos todos do que estamos a falar", explicou ainda o encenador.

Há um 'statement' sobre a força que as mulheres têm e esse é o lado com que mais me identifico, com a mulher forte, afirmou a cantora-atriz Selma Uamusse.

Uma das personagens centrais da peça - Sophie, uma vítima da guerra que vai cantar para um bordel - é interpretada pela cantora moçambicana Selma Uamusse. "É uma peça que fala sobre mulheres, mulheres negras - nunca fui ver uma peça com quatro mulheres negras enquanto protagonistas", disse a cantora, entrevistada pela Lusa.

"Fala sobre uma coisa que o António [Pires] refere muitas vezes: 'Não tenhas muita pena da personagem' e isso encontro no caráter dos africanos. Passamos por sofrimento, mas não vivemos no sofrimento, há sempre qualquer coisa para ultrapassar. Há um 'statement' sobre a força que as mulheres têm e esse é o lado com que mais me identifico, com a mulher forte", afirmou ainda Selma Uamusse.

Em complemento à peça, nas ruas do Bairro Alto e do Chiado, estarão expostas, a partir de quinta-feira, as fotografias das seis mulheres que inspiraram a peça de Lynn Nottage, captadas por Tony Gerber. Na quinta-feira, no Teatro do Bairro, o fotógrafo participará num debate sobre "Refugiados de guerra".

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