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Rubem Fonseca (1925-2020), a Grande Arte da escrita

Escritor brasileiro notabilizou-se por uma obra alicerçada num domínio fino e subtil da língua portuguesa e na maestria com que a utilizava sem enfeites inúteis, sem rodeios adormecedores e com uma ironia fina e cortante. Por Luis Leiria.
Rubem Fonseca. Foto de divulgação.
Rubem Fonseca. Foto de divulgação.

José Rubem Fonseca faleceu na quarta-feira à tarde, no Rio de Janeiro, aos 94 anos, vítima de enfarte. Era um dos grandes nomes da literatura brasileira na segunda metade do século XX. Deixa uma vasta obra literária, entre romances e principalmente coletâneas de contos que revolucionaram em vários aspetos a literatura do Brasil. País que ostenta o triste troféu da concentração de rendimentos (a segunda maior do mundo, apenas perdendo para o Catar), o Brasil viu nas últimas décadas crescer a violência urbana em ritmo galopante. Rubem Fonseca estreou-se como um cronista dessa violência, no livro “Feliz Ano Novo” (1975), chocando pela linguagem direta e brutal no conto que deu o título ao livro e que relata um assalto a uma festa de fim de ano de “bacanas” (ricaços) em S. Conrado, bairro luxuoso da zona Sul do Rio de Janeiro. A ultraviolência do relato teve o efeito de uma pedrada no charco: o livro teve sucesso instantâneo, mas a sua circulação foi proibida pela ditadura militar que governava o país na época.

Fonseca construiu uma obra alicerçada num domínio fino e subtil da língua portuguesa e na maestria com que a utilizava sem enfeites inúteis, sem rodeios adormecedores e com uma ironia fina e cortante. O outro alicerce foi a dissecação impiedosa da classe média brasileira, particularmente carioca, protagonista da maior parte das suas histórias policiais.

Renovação

A literatura policial era erradamente considerada uma espécie de subliteratura de má qualidade e leitura fácil. Hoje em dia, depois de autores como Manuel Vázquez Montalbán, Andrea Camilleri ou Leonardo Padura, essa avaliação injusta dificilmente se sustenta. Rubem Fonseca inscreve-se sem dúvida neste movimento de renovação do policial. Romances como “A Grande Arte” (1983) ou “Bufo & Spallanzani” (1985) são obras da Grande Literatura, e o advogado-detetive Mandrake entra no Olimpo dos grandes personagens, onde estão também Pepe Carvalho (Montalbán), o comissário Montalbano (Camilleri) ou Mário Conde (Padura).

Apesar da maioria da sua obra ser de fundo policial – o próprio Fonseca foi, por alguns anos, delegado de polícia, antes de se dedicar full time à escrita – o autor não hesitou em se aventurar noutras direções, como o romance histórico, o que teve como resultado uma das suas melhores obras: “Agosto” (1990).

Mas é nos contos que Rubem Fonseca exibe o seu máximo talento, e eles são tantos que seria empobrecedor – ou entediante – citar os mais destacados. Em todos eles se exibe a noção do relato que agarra o leitor desde as primeiras páginas e o conduz, sem lhe dar tempo para recobrar o fôlego, até o final quase sempre surpreendente.

Relação especial com Portugal

Descendente de emigrantes portugueses de Trás-os-Montes, Fonseca tinha uma relação especial com Portugal. O personagem Mandrake, por exemplo, é um grande consumidor do vinho Periquita, mencionado em praticamente todas as suas histórias. Mas, durante décadas, Portugal praticamente ignorou o escritor brasileiro. E isto apesar de Rubem Fonseca ter sido galardoado com o Prémio Camões em 2003. “A Grande Arte” só foi publicado por cá na década de 2010, quando a Sextante começou a editar sistematicamente a sua obra. “Bufo & Spallanzani” venceu o prémio Literário Casino da Póvoa em 2012, 27 anos depois da sua publicação no Brasil.

O escritor foi, na maior parte da sua vida, uma pessoa totalmente reservada. Não dava entrevistas e não se deixava fotografar. Argumentava que a exposição pública o impediria de circular à vontade e no anonimato, como o personagem do seu conto “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”. Só mudaria essa postura aos 80 anos, e curiosamente uma das primeiras vezes que o fez foi nas Correntes de Escrita, na Póvoa do Varzim, num discurso de agradecimento ao prémio recebido em que citou Camões e deu vivas à língua portuguesa. Foi a primeira vez que se pôde ver a sua fisionomia, já que antes só estava disponível uma única foto de arquivo.

Rubem Fonseca manteve uma produção literária até muito tarde, apesar de as suas últimas obras terem perdido, compreensivelmente, algum fulgor. Ainda assim, na coletânea de contos “Ela e Outras Mulheres” (2006) ainda surgiu um personagem brilhante, o Seminarista, que ganharia três anos depois um livro próprio, com esse título. Trata-se de um matador de aluguer, que recebe os pedidos de execução do “despachante”, codinome do seu contratador, enviando desta pra melhor as vítimas com uma bala na testa, não vão elas estar protegidas por colete à prova de balas. O seminarista ganhou esse nome por ter frequentado o seminário, e por isso mesmo adorar fazer citações bíblicas em latim. E, apesar da profissão mercenária, tem uma moral muito própria, capaz de surpreender frequentemente o leitor. Sinal de que Rubem Fonseca se manteve até ao final fiel a uma das suas máximas: “O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis.”

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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