Rolex, Tiffany, Bulgari e o ‘ouro do sangue’ Yanomami

04 de February 2023 - 13:00

As grandes empresas de joalharia recusam fornecer provas da proveniência do seu ouro. As associações de direitos humanos acusam-nas de usarem ouro do garimpo ilegal em terras indígenas. E o ministro da Justiça brasileiro reconhece a facilidade de fazer passar ouro ilegal por legal. Por Andy Robinson.

PARTILHAR
Garimpo no rio Uraricouera. Foto de Bruno Kelly/Amazônia Real.
Garimpo no rio Uraricouera. Foto de Bruno Kelly/Amazônia Real.

O governo de Jair Bolsonaro é o principal responsável pela crise humanitária nas comunidades indígenas da Amazónia que foi denunciada nesta semana numa série de imagens duras de centenas de crianças desnutridas do Povo Yanomami.

A invasão da imensa reserva Yanomami por milhares de garimpeiros ilegais de ouro e diamantes foi incentivada diretamente pelo governo Bolsonaro, como parte de uma ofensiva contra as áreas indígenas protegidas pela Constituição brasileira e que se estendem por quase um terço da Amazónia.

Os chamados garimpeiros têm desmatado e cometido graves ataques contra os seus habitantes, incluindo violações e assassinatos. O uso de mercúrio para separar o ouro da rocha afetou gravemente a pesca, principal fonte de subsistência de muitos dos 30.000 Yanomami, bem como de centenas de milhares de outros povos indígenas da Amazónia. E tudo isto enquanto o governo fazia vistas grossas.

Mas há outros responsáveis pela crise humanitária dos Yanomami, segundo organizações não-governamentais consultadas no Brasil: o mercado mundial de ouro e as grandes marcas de luxo, empresas como a LVMH ou a Rolex, que faturam bilhões de dólares com a venda de joias e relógios fabricados com ouro de possível origem ilegal.

“Mais da metade do ouro exportado do Brasil tem indícios de ilegalidade”, diz Larissa Rodrigues, investigadora do Instituto Escolhas, de São Paulo. “A maior parte é refinada na Europa, por isso é muito provável que haja sangue indígena nas joias de luxo ali compradas”, conclui.

Apesar das tentativas de limpar a imagem do negócio multibilionário, nenhuma das marcas de consumo ostensivo forneceu evidências convincentes de ter eliminado o chamado “ouro de sangue” das suas cadeias de abastecimento.

Marcas como a Rolex e a Swatch, com sede em Zurique, bem como a Tiffany e a Bulgari, ambas filiais da LVMH, não deram informações sobre a origem do ouro que compram.

“A Rolex e a Swatch recusam-se veementemente a falar sobre as fontes do seu ouro”, explica Mark Pieth, da Universidade de Basileia, no seu livro Gold laundering, the dirty secrets. “A Rolex não fornece informações sobre as suas matérias-primas e, em algumas investigações, não forneceu nenhum contexto sobre a sua cadeia de abastecimento de ouro”, concorda a Amazon Watch.

A Tiffany só fornece dados sobre 16% do ouro que usa. A Bulgari insiste que o seu ouro vem de duas minas que respeitam os requisitos do Conselho de Joelharia Responsável. Mas a ONG Human Rights Watch denunciou falhas graves nas auditorias desse conselho e adverte que não é garantia que não tenham sido cometidas violações de direitos humanos na obtenção do ouro.

As refinarias de ouro na Suíça já utilizam um processo químico para descobrir o país de origem do ouro. Mas isso não é suficiente para saber se é ouro de sangue ou não, adverte Pieth. Embora tenha sido desenvolvida uma estratégia de marketing sob o lema “Joias Sustentáveis”, não foi desenhado um método de identificação do ouro equivalente ao Processo de Kimberley, que foi adotado no mercado de diamantes após o escândalo de financiamento de conflitos na Serra Leoa.

O novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva abriu investigações sobre ministros e funcionários do governo Bolsonaro, acusados de negligência ou mesmo de genocídio. Da mesma forma, “será extinta a presunção de boa-fé quanto às informações sobre a origem do ouro prestadas pelos vendedores”, disse o novo ministro da Justiça, Flávio Dino. “A lei atual permite que o ouro ilegal se transforme magicamente em ouro legal”.

Mas com a procura cada vez maior por ouro e os preços próximos dos máximos históricos, é difícil resistir aos incentivos para cometer crimes. Como acontece no tráfico de drogas, a desigualdade extrema, que leva 30 milhões de brasileiros a uma situação de fome, leva muitos a tornarem-se garimpeiros.

Na outra ponta do abismo, as vendas de joias e relógios da LVMH – cujo fundador Bernard Arnault já ultrapassou Elon Musk e Bill Gates na liga dos mais ricos, com um património líquido de 190 mil millhões de dólares – aumentaram 167% em 2021, de acordo com um relatório da Amazon Watch/Profundo. Graças ao prodigioso poder de compra de uma nova classe de consumidores super-ricos, as vendas de bens de luxo – incluindo joias de ouro – totalizaram 1,4 biliões de euros em 2022, mais do que o PIB de Espanha.

“Podemos estar a caminhar para uma recessão, mas há um grupo de pessoas que não consegue parar de gastar… os ricos”, resume Rana Foroohar no Financial Times. Os gastos com bens de luxo cresceram 20% em 2022, mais do que qualquer outro segmento de mercado. Tudo isto cria uma procura insaciável por ouro, legal ou ilegal.

A impunidade tem sido total até agora. Não apenas na Amazónia, onde Bolsonaro incentivou os garimpeiros a penetrar em áreas protegidas. Também na Europa. Em 2021, a Polícia Federal brasileira denunciou, numa operação chamada Terra Desolata, que uma refinaria da empresa Chimet, em Abruzzo, na Itália, processava grande parte do ouro extraído de uma mina ilegal dentro da reserva indígena Kayapó, em Ourilândia do Norte, no estado amazónico do Pará. Apesar disso, nenhuma medida foi tomada contra a empresa italiana.

Os Kayapó, segundo o cacique Patkore Kayapó, consultado por telefone esta semana, já não podem pescar no Rio Fresco devido à contaminação. Alguns indígenas já circulam com carrinhos de compras, às vezes com tocado de penas e corpos pintados, pelos supermercados de descontos de Ourilândia do Norte, ainda que os preços sejam proibitivos. Mais a norte, em terra Yanomami, a Força Aérea começou a distribuir latas de sardinha para suprir a falta de peixes de rio.

Enquanto isto, no mundo dos ricos, quem mais consome joias são os jovens bilionários das gerações X, Y e até Alpha, segundo a empresa de consultoria Bain & Company. Neste setor, “dominam compras como roupas e joias e as pessoas começam a comprar a partir dos 15 anos”.

Face a este panorama, pode ser lógico sugerir que há outros responsáveis indiretos pela tragédia dos Yanomami: as celebridades da era do "bling-bling" – os trajes ostentatórios – que anunciam joias de luxo enquanto se declaram defensoras da proteção da Amazónia e dos seus habitantes.

Angelina Jolie, Beyoncé e Shakira, por exemplo, todas identificadas com campanhas em defesa dos direitos humanos, já promoveram joias da marca de luxo brasileira HStern, multinacional joalheira com sede no Rio de Janeiro. Segundo fontes da Polícia Federal brasileira citadas em uma investigação da Repórter Brasil, a HStern estaria envolvida no tráfico de ouro extraído ilegalmente do território Yanomami.


Andy Robinson é correspondente do ‘La Vanguardia’. Pertencente ao Conselho Editorial do CTXT. O seu último livro é ‘Oro, petróleo y aguacates: Las nuevas venas abiertas de América Latina’ (Arpa 2020).

Texto publicado originalmente no CTXT. Traduzido para português pelo CEPAT e publicado na página do Instituto Humanitas da Unisinos. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.