No carro atingido pelos disparos dos militares estavam o músico assassinado Evaldo Rosa dos Santos, a sua mulher, o filho de sete anos, uma amiga da família e o sogro. Os factos ocorreram no passado domingo por volta das 14h30 na Estrada do Camboatá, em Guadalupe (na Zona Norte), Rio de Janeiro. O músico era conhecido como Manduca e foi o primeiro cavaquinista de um grupo de samba, segundo o Globo.
Na nota emitida pelas Forças Armadas logo após os acontecimentos, o exército brasileiro dizia que os militares teriam deparado com um “assalto em andamento” e que “ao avistarem a patrulha, dois criminosos que estavam a bordo de um veículo atiraram contra os militares, que por sua vez responderam à injusta agressão”.
Para além da contestação imediata das vítimas e dos moradores, o delegado Leonardo Salgado da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro afirmou que "tudo indica" que os militares confundiram o carro com o de supostos assaltantes, desmentindo assim a nota do exército e confirmando os relatos das testemunhas.
Em nota divulgada nesta segunda-feira, o exército altera a nota anterior, revela “inconsistências” dos militares envolvidos e informa que eles foram afastados e que 10 dos 12 militares presentes foram presos.
Veja abaixo o vídeo divulgado por The Intercept
“Quem matou em Guadalupe foi um poder jurídico político mediático hegemónico em nosso país”
O Brasil de Fato ouviu especialistas sobre a ação do exército, que, além de a criticar, apontam que é preciso que seja esclarecido quem deu a ordem para atirar.
Orlando Zaccone, delegado da Polícia Civil, especialista em segurança pública e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense, diz que os 80 tiros num carro de família não deviam ter ocorrido em nenhuma situação e alerta:
“Estamos desviando o foco do real problema. Se só falarmos de punição de militares que mataram inocentes, então estamos justificando que essa ação poderia ter sido realizada se o Exército tivesse constatado que havia criminosos no carro. Quem matou em Guadalupe foi um poder jurídico político mediático hegemónico em nosso país”.
A investigadora Silvia Ramos, coordenadora do Observatório da Intervenção, assinala que numa mudança legislativa durante o Governo de Michel Temer foi determinado que casos que envolvam militares em serviço serão julgados pela Justiça Militar, e não pela justiça comum.
“O agravante é que o caso vai para a Justiça Militar. Sabemos que aqui no Rio de Janeiro esse Tribunal é extremamente corporativo, parcial e tende com muita frequência a defender seus membros e ser injusto com os civis. Vimos isso em agosto, durante a intervenção militar, quando cinco pessoas morreram no Chapadão e três foram torturadas nas dependências do Exército. Há farta documentação sobre isso no Ministério Público, mas a investigação está com a Justiça Militar, que nada fez”, sublinha.
A investigadora critica ainda a atitude de diversos político brasileiros atuais, como o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel e o ministro da Justiça, Sergio Moro, defenderem a atitude de atirar antes de perguntar. “Quando se flexibiliza e se estimula agentes a utilizarem a força de forma excessiva e letal, temos esse tipo de tragédia acontecendo”, realça.