You are here

Restruturação do Banif foi "ficção coletiva" em que todos fingiram acreditar

No rescaldo dos primeiros dias da comissão de inquérito ao Banif, Mariana Mortágua acusou os intervenientes no processo – administração, governo, Bruxelas, Banco de Portugal – de terem participado numa “ficção coletiva” para arrastar um problema que acabou com os contribuintes a pagar para capitalizarem um gigante da banca europeia.
Mariana Mortágua participa na Comissão de Inquérito ao Banif.

Para a deputada bloquista, que participou esta quinta-feira num debate na RTP, não restam grandes dúvidas que o plano de recapitalização e restruturação do Banif, que se arrastou nos últimos anos com troca de correspondência entre Bruxelas, Banco de Portugal, governo do PSD/CDS e a liderança do Banif, era inviável desde o início.

O que foi pedido ao Banif, banco “que estava em sérias dificuldades” foi que reduzisse “de forma brutal” a sua atividade, encerrando agências em todo o país, e vendendo milhares de milhões de euros em ativos numa altura em que um mercado não era favorável. Ao mesmo tempo, o banco tinha ainda de recolher 450 milhões junto de acionistas privados e remunerar o Estado em 10% pela ajuda pública, que devia devolver por completo em cinco anos, resumiu Mariana Mortágua.

A primeira conclusão da deputada do Bloco sobre os planos para restruturar o banco é que Banif, Banco de Portugal, Bruxelas e o governo português entraram numa “ficção coletiva em que interessava a toda a gente fingir que era possível levar isto para a frente”.

“Se o anterior governo acreditava que o plano era viável e o Banif estava a cumpri-lo, devia ter entrado em confronto junto das instituições europeias em defesa do Banif. Se sabia que o plano não era viável, devia ter acionado a cláusula que lhe permitia tomar controlo do banco, e aí o banco era público e deixava de haver pressões de Bruxelas”, prosseguiu Mariana Mortágua, lembrando que o adiamento do problema teve um custo para o banco, cuja situação “era melhor em 2012 do que era em 2014”.

“O Banif custou-nos tanto porque esse dinheiro serviu para capitalizar o Santander. O Santander registou nas suas contas a valorização automática que teve com a diferença entre aquilo que o Banif valia e o que pagou”, acrescentou Mariana Mortágua, criticando a operação de venda imposta por Bruxelas e aceite pelo atual governo.

"O que será o Santander, senão um banco demasiado grande para falir?”

Em alternativa, a deputada do Bloco – que vai divulgar num blogue o andamento dos trabalhos da comissão – insistiu que a melhor solução seria a integração do Banif na esfera pública, uma vez que “a resolução era inevitável, não o fazer era arrastar um banco zombie”. “Nós precisamos destas resoluções, de limpar os bancos. O que não podemos fazer é pagar e vender os bancos aos gigantes europeus, porque um dia também eles terão de ser salvos, não tenhamos dúvidas sobre isso”, defendeu

Para Mariana Mortágua, a política europeia de concentração da banca, que ficou evidente no caso da entrega do Banif ao Santander, é perigosa para os contribuintes. “Um dos ensinamentos da crise financeira foi o de que não podemos ter bancos que são demasiado grandes para falir. O que será o Santander, senão um banco demasiado grande para falir?”, questionou.

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Política
(...)