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Relatório alerta para crescimento da extrema-direita na Europa

Em Portugal o papel de charneira é para o Chega, que faz elevar as “narrativas-chave” da extrema-direita “a níveis nunca vistos”. Mas também há negacionistas da Covid e teóricos da conspiração que acreditam que António Costa quer instalar uma ditadura de extrema-esquerda.
Capa do estudo State of Hate.
Capa do estudo State of Hate.

Foi divulgado esta terça-feira o relatório ‘Estado de Ódio: Radicalismo da extrema-direita na Europa’. Encomendado pelas organizações não governamentais HOPE not hate, do Reino Unido, Expo, da Suécia, e Fundação Amadeu Antonio, da Alemanha, detalha em 125 páginas a forma como a extrema-direita cresce no continente e como colabora criando uma “ameaça transnacional e pós-organizacional”.

Para além de análises país a país, o estudo contém um inquérito a 12 mil pessoas de cinco países europeus: Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Polónia e Itália. Este mostra que 25% dos inquiridos revela hostilidade face a muçulmanos, 33% face a imigrantes e mais de 33% a ciganos. Para além disso, a desconfiança profunda face às autoridades aí revelada mostra-se um campo fértil para as teorias da conspiração.

Sobre Portugal, o relatório alerta para a “normalização” do Chega, cujo exemplo é o acordo da direita para o governo regional dos Açores, e defende que não se pode excluir “a possibilidade de radicalização nas formas de protesto da extrema-direita” no contexto da crise social e económica em que vivemos. Estas forças estão a infiltrar-se nos protestos por melhores condições de vida “como é o caso dos pequenos e médios empresários” e têm como objetivo “tirar vantagem da insatisfação, frustração e ressentimento da crise socioeconómica causada pelas medidas para conter a pandemia covid-19”.

A secção portuguesa, da autoria dos jornalistas Ricardo Cabral Fernandes e Filipe Teles, identifica no país vários grupos ligados a esta área política: o Chega de André Ventura é apresentado como populista radical de direita; o Ergue-te, nome que o PNR assumiu recentemente; os grupos “identitários” como o Escudo Identitário e Associação Portugueses Primeiro; os movimentos skinhead neo-nazis como os Hammer Skins; o Movimento Zero, grupo inorgânico de polícias. Para além destes, surgiram mais recentemente grupo como a auto-intitulada Resistência Nacional, o grupo que fez uma parada com máscaras brancas e tochas em frente ao SOS Racismo.

O estudo conclui que "em Portugal, a extrema-direita tem vindo a reorganizar-se, reciclando discurso, formando novas organizações e recrutando elementos junto de determinadas franjas sociais a que normalmente não acediam num passado não muito distante".

Estes movimentos são de âmbitos e dimensões diferentes. Na charneira está o Chega, que eleva as “narrativas-chave” da extrema-direita “a níveis nunca vistos na política” desde o fim da ditadura salazarista.

Mas deste espetro fazem parte também negacionistas da pandemia e vários outros que defendem teorias da conspiração: "Há pelo menos 250 elementos de extrema-direita portugueses bem inseridos nas redes sociais negacionistas, com o centro do movimento na Alemanha e em França, coordenando as suas manifestações em Lisboa que decorrem nos mesmos dias que decorrem outras em Berlim e Paris, geralmente aos fins de semana", cita-se no relatório.

As teorias mais bizarras como a QAnon, surgida nos EUA e que defendia que o país era governado por um “estado profundo” constituído por pedófilos canibais satânicos, sendo Trump o salvador, também existem em Portugal e adaptados à realidade nacional. Defendem aqui que o governo do PS quer “instaurar uma ditadura de extrema-esquerda no país”, que “Bill Gates é o responsável pela pandemia”, que “a rede 5G está relacionada com o coronavírus e as vacinas são falsas e produto de uma conspiração global". Os autores do estudo garantem que "tem havido uma mobilização significativa de extrema-direita nas redes sociais, propagando teorias da conspiração, propaganda e notícias falsas sobre a crise pandémica de covid-19".

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