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Relato de uma viagem no tempo e no espaço pela Lisboa Operária

Raimundo Santos guiou-nos através de uma viagem no tempo e no espaço pela Lisboa Operária na zona oriental da capital. A iniciativa, inserida no programa “Abril é Agora”, transportou-nos para uma realidade cuja memória muitos continuam a tentar apagar. Artigo publicado em Abril é Agora.
Fotografia: Pedro Vilela/Abril é Agora

Tal como referiu o resistente antifascista, hoje, como antes do 25 de Abril, é notória a “simbiose entre o campo e a parte industrial”. A Fábrica de Pólvora de Chelas, seguida do Convento de Chelas e da Tuna Recreativa Juventude Chelense, foram os primeiros locais a assinalar, ainda a bordo do autocarro que nos transportou durante parte do percurso.

Daí, enveredámos por um verdadeiro “cemitério de fábricas”, no qual figuram edifícios como o da Fábrica de Malhas de Inácio de Magalhães, ou a Fábrica de Fiação e Tecidos de Xabregas. Mas foram-nos dadas também a conhecer importantes vilas operárias. Exemplo disso é a Vila Emília, propriedade do industrial de madeiras Alves Ribeiro e da Tinturaria Portugália. Este espaço tem alguma dimensão, ostentando “edifícios com três pisos e ruas interiores”, e foi construída para “fixar o operariado”. Ou a Vila Flamiano. Com duas alas de casas, esta vila foi construída pela Fábrica de Fiação e Tecidos de Xabregas.

Raimundo Santos explicou-nos que “a atividade recreativa e cultural teve um papel importantíssimo”, e que era nas coletividades que “também se fazia algum trabalho político”. Nesta zona, “no fim do século XIX, princípio do século XX”, os anarco-sindicalistas tiveram um papel preponderante, na medida em que “desenvolviam trabalho sindical mas também cultural muito intenso”, realçou.

O resistente antifascista falou ainda da “importância do caminho de ferro”, referindo que o bairro é atravessado por três linhas de comboio, e que estas, além de serem “usadas como forma de deslocação das populações para trabalhar nas fábricas”, eram também utilizadas na atividade política durante a ditadura, permitindo “ludibriar a polícia” e garantir “deslocações seguras”.

Já no alto do Bairro Madre Deus, iniciámos o trajeto a pé. Mas não antes de nos determos a observar a vista sobre o rio, e de Raimundo Santos apontar como a aristocracia se foi instalando ao longo das suas margens e de como esta área era “muito rentável” do ponto de vista agrícola. Sendo a zona mais larga do Tejo, “muitos dos palacetes tinham cais próprio” para facilitar o escoamento de todos os seus produtos e o seu abastecimento.

Já a descer em direção à zona ribeirinha, uma passagem pela Vila Dias, datada de 1888, e que é evocada no romance Amanhã, de Abel Botelho, retrato da vida e das lutas do operariado na zona de Xabregas no fim do séc. XIX. Seguiram-se a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, que chegou a ter 400 trabalhadores, a Fábrica de Tabacos de Xabregas, onde se realizaram muitas greves e despedimentos em massa no século XIX, e que recorria a mão-de-obra infantil, e a Fábrica de Fiação e Tecidos Oriental, já na Rua de Xabregas.


Fotografia de Alexandre Vaz
 

Nesta parte do percurso pude conversar com José Fonseca de Sousa, nascido e criado no bairro, e com inúmeras histórias por contar.

José tinha oito irmãos, mas como a mortalidade infantil era muito elevada, os mais novos morreram todos. Viviam numa casa com uma cozinha, dois quartos e uma sala. Chegavam a dormir três em cada cama. Com seis anos, começou a trabalhar num sapateiro. Logo aos dez, passou para as tabernas. Numa delas, onde esteve três meses, era suposto pagarem-lhe 300 escudos por mês, mas nunca os viu. Quando a mãe tentava levantar o seu salário, diziam-lhe que tinham de descontar a louça que José partia. Teve de deixar a escola e esteve cinco anos sem estudar. Só quando a Nacional, onde os pais trabalhavam, começou a pagar os livros voltou a estudar à noite.

A sua mãe era de Cinfães do Douro, não foi à escola e não sabia ler e nem escrever. Como o avô materno de José era encarregado na Nacional, a sua mãe empregou-se lá. Aliás, assim aconteceu com praticamente toda a família.

Na Nacional, a mãe de José cosia as sacas para pôr o trigo, aproveitando este material para fazer sapatos para os filhos. Comprava solas de trança e com a serapilheira das sacas cosia e fazia alpercatas. Já o pai de José, a quem o mesmo levava comida, dado que não existia cantina, era ensacador. Um dia, a mãe de José apanhou oito dias de castigo sem vencimento por ter piolhos. As condições higiénicas eram muito más e a família passava muitas dificuldades. Na altura não havia sábados de folga, só se descansava ao domingo, e não existiam subsídios de férias ou Natal. José lembra que a sua mãe chegava a empenhar as calças do marido durante a semana e ao sábado à tarde ia levantá-las para o marido poder usá-las ao domingo.

Sobre as primeiras atividades subversivas, José recorda que o pai “inscrevia nas paredes mensagens contra o regime utilizando moldes de cortiça”. Quando lhe perguntei se o seu pai estava associado a algum partido respondeu que não, mas a “malta era toda do contra”.

José, que passou depois pela Sociedade Lisbonense de Papelarias e esteve 30 anos na Metalúrgica Luso-Italiana, como contabilista, também seguiu as pegadas do progenitor e cedo começou a participar em reuniões restritas na Sociedade Musical 3 d'Agosto de 1885 ou a comparecer a sessões de esclarecimento do MDP-CDE.

Acabou por pertencer à Sociedade Musical 3 d'Agosto de 1885 durante trinta e tal anos. Começou a frequentar os bailes, onde conheceu a mulher. E foi lá que casou. A partir de 1965 / 66 começou a trabalhar lá, e, em 1969, assumiu a presidência da coletividade. Tal como Raimundo Santos, lembra a importância do convívio e das atividades desenvolvidas neste tipo de espaços. Falou-me sobre o jornal de parede sobre atividades nos países de leste e os recortes do Jornal do Fundão que lá afixavam. E como tinham teatro, ténis de mesa, basquetebol, jogos florais e afins.

As peças de teatro que lá eram exibidas tinham de passar primeiro pela censura. Recorda-se que várias cenas da “Ceia dos Cardeais” foram censuradas, mas José e os colegas enfrentaram o regime e mantiveram tudo igual. “A repressão era de tal ordem que até uma iniciativa de mini-basquete era considerada uma ação subversiva e tinha de ser organizada com todo o secretismo”, explicou.

Quando lhe perguntei qual era a profissão da sua esposa, respondeu-me que o que ganhavam não era suficiente para pagar uma ama, e, como não existiam creches, ela ficou em casa a cuidar dos filhos.

Entretanto, fomos passando pela Vila Maria Luísa, na Calçada D. Gastão, onde funcionou a Escola Primária n.º 20, pelo Centro Escolar Republicano Elias Garcia e pela Manutenção Militar, um grande complexo industrial com cerca de 80.000 metros quadrados que chegou a empregar quase três mil pessoas. Aqui dentro concentrava-se a fábrica de moagem, pão, massas, bolachas, torrefação e moagem de café, conservas, refinaria de açúcar, matadouro e salsicharia, leite e fabrico de manteiga, tratamento de vinhos, etc. Tinha ligação direta ao Cais. No que concerne à área social, existia creche, escola primária, sala de cinema, barbeiro e consultas médicas.

Logo a seguir à companhia Industrial de Portugal e Colónias “A Nacional”, mais um espaço bem conhecido de José: o Pátio da Quintinha. Foi aqui, aliás, que tanto José como Raimundo nasceram.


Fotografia de Pedro Vilela. 

Nesta vila operária, a esmagadora maioria da população não tinha instalação elétrica, saneamento básico ou água. Existia uma pia cá fora onde se despejavam as necessidades. Era num poço que se abasteciam de água para as lavagens. Os pátios estavam cheios de selhas para as pessoas lavarem a roupa. A água para beber e cozinhar era comprada numa taberna: pagava-se um tostão por uma lata grande. O telefone da “mercearia do Carrancho” era usado por “toda a gente”. Para as brincadeiras, a corda de roupa substituía a rede do voleibol e um respiradouro destapado servia de cesto para o basquete. Qualquer apetrecho se transformava em bola para o futebol.

Raimundo evocou um momento que o marcou quando aqui vivia. Estava no 1º ciclo, e a mocidade portuguesa era uma disciplina obrigatória. Três faltas implicavam um chumbo certo. Num dos sábados em que saía de casa “fardado de piolho verde”, um estivador que ali estava a beber cerveja, o Joaquim Louçã, reprimiu-o em público, alto e a bom som, por andar naquela figura: “Não tens vergonha, vestido de bufo, e com o S de Salazar!”. Raimundo arrancou logo o S do cinto e de nada serviu explicarem-lhe que o S era de Serviço e Sacrifício. A atitude daquele estivador “marcou-o pela coragem”.


Fotografia de Pedro Vilela

Continuámos o percurso e Raimundo foi deixando escapar como começou a trabalhar aos 12 / 13 anos, a escolher pregos e parafusos, num estabelecimento de construção de barcos. A vida foi de entrega. Ao trabalho e à luta. E o primeiro estava associado ao segundo: “Nós tomámos uma decisão, que foi ‘vamos todos regressar às origens’. Portanto, quem estava a estudar deixou de estudar, quem estava num escritório ou numa seguradora saiu de lá e fomos todos para as fábricas”.

Numa das paragens, Raimundo Santos contou-nos outro momento marcante da sua vida, enquanto resistente antifascista e militante do MRPP. Em 1973, decidiram pintar aquela que era considerada “a parede mais difícil de Lisboa”, também conhecida como a “parede do feijão”. O espaço estava localizado entre a Avenida que vai do Batista Russo para Moscavide e a Avenida de Berlim. Acabaram por ser alvo de uma emboscada por parte da polícia. O seu amigo Fernando Soares Pinto foi atingido a tiro e preso e Raimundo teve de fugir. Pulou sobre as barracas que ficavam junto ao muro do Cemitério dos Olivais e escondeu-se entre as campas. Depois atravessou várias quintas até Chelas e pediu proteção a um tio, no Beco das Taipas.

Já durante o almoço, na Sociedade Musical 3 d'Agosto de 1885, Raimundo explicou-nos como encontravam formas habilidosas “fazer passar a mensagem” de resistência ao regime fascista. Utilizavam “cuspocolantes”, feitos de papel craft, onde carimbavam frases de apelo à resistência. Enchiam com eles todo o tipo de superfícies. Também fez uma demonstração com stencil de como imprimiam propaganda.

Após a refeição, o trajeto foi percorrido de autocarro. José lembrou os milhares de pessoas que se concentravam no “Bairro do Chinês”, de barracas auto-construídas, por onde passámos. As famílias eram oriundas essencialmente da Beira Baixa e Beira Litoral. Viviam sem quaisquer condições, num espaço de terra batida com um rego no meio onde se faziam os despejos.

De regresso ao ponto de partida, ficou a nítida sensação de como há muito a percorrer nesta Lisboa esquecida, e de como visitas como estas são cada vez mais necessárias e nos transportam para uma realidade cuja memória muitos continuam a tentar apagar.

Artigo de Mariana Carneiro publicado no Abril é Agora
 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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