Referendo da Crimeia separa famílias

20 de March 2014 - 2:01

As tensões persistem, apesar do apoio esmagador pela união com a Rússia. A população tártara, que representa 13% dos habitantes da península, boicotou o referendo e sente-se ameaçada. Por Pavol Stracansky, da IPS.

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Alteração do nome do parlamento da Crimeia. Foto de @shaunwalker7

Kiev, Ucrânia – A Crimeia prepara-se para se integrar à Rússia, após um referendo que a maior parte da comunidade internacional considera totalmente ilegal, enquanto muitas famílias da península devem separar-se devido à agitação política e outras pensam abandonar a região. O referendo, realizado no dia 16, mostrou que uma esmagadora maioria da população da Crimeia quer voltar a ser parte da Rússia.

Segundo dados oficiais, 97% dos eleitores apoiaram unir-se à Rússia, com um comparecimento às urnas de 82% dos habilitados a votar. A Crimeia é até agora uma república do sul da Ucrânia. Muita gente comemorou nas ruas em cidades como Sebastopol e Simferopol, esta última capital regional, quando foram conhecidos os resultados, mas a decisão já começou a atingir muitas famílias locais.

“Há conflitos nas famílias daqui. Algumas têm avós com raízes familiares russas e que apoiam a Rússia firmemente. Depois há os seus netos, que se sentem ucranianos e que no referendo votaram contra a integração à Rússia”, disse à IPS a professora Valery Dorozhkhin, de 39 anos, da Universidade de Simferopol.

Historicamente, grandes partes do sul e leste da Ucrânia têm vínculos culturais estreitos com a Rússia. Mas estes são particularmente profundos na Crimeia. Essa península foi anexada pelo império russo no final do século 18, mas os russos não foram maioria na região até depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Isso aconteceu em grande parte depois que o ditador soviético Josef Estaline enviou mais de 200 mil tártaros para campos de trabalho na Ásia central, sob a falsa acusação de terem colaborado com os nazistas. Quase 40 mil deles morreram durante a viagem.

Pertencentes ao povo turco muçulmano que viveu na região durante séculos, foram substituídos por russos na península e só regressaram à região quando a União Soviética começou a desintegrar-se. Agora representam cerca de 14% da população da Crimeia e, pela sua história, muitos desconfiam da Rússia. Em 1954, o então líder soviético Nikita Kruschev converteu a Crimeia em parte da Ucrânia. Atualmente, 60% da população da península é de origem russa e tem o russo como língua materna.

Como parte da União Soviética, as eventuais tensões étnicas foram mantidas contidas. Porém, desde que a Ucrânia ficou independente, em 1991, começaram as reclamações separatistas por parte de grupos da comunidade russa da Crimeia, com altos e baixos no seu apoio. Os levantes políticos registados na Ucrânia nos últimos meses acabaram exacerbando essas tensões étnicas. Muitos ativistas pelos direitos humanos e observadores independentes destacam que a rápida campanha pelo referendo foi marcada por factos de violência e repressão contra comunidades não russas e contra quem apoiava o novo governo ucraniano em Kiev.

Entretanto, não é só uma linha ideológica que divide os ucranianos nativos dos de origem russa. Também existe uma notória divisão política entre os mais jovens e os mais velhos. Os jovens foram maioria entre os milhares de manifestantes que apoiaram que a Crimeia continuasse a ser parte da Ucrânia. Os mais jovens só conheceram uma Crimeia integrada à Ucrânia e sentem-se confusos, e em alguns casos também temerosos sobre como serão as suas vidas sob um regime diferente.

“Neste momento, os mais jovens têm um momento especialmente difícil na Crimeia. Eles veem a si mesmos como ucranianos, sentem-se ucranianos”, pontuou Dorozhkhin à IPS. Essa preocupação sobre o futuro imediato já levou alguns a pensarem em abandonar a Crimeia. Há registo de casos de famílias que decidiram abandonar a região, enquanto outros estão preocupados com os seus empregos. Alguns ucranianos residentes na Crimeia asseguraram que perderam os seus empregos ao serem vistos como favoráveis às autoridades em Kiev.

Valdimir Vasylenko, de 37 anos, trabalha numa organização não governamental em Sebastopol. O seu estado de ânimo resume o de todos aqueles preocupados com o futuro. Quase às lágrimas, explicou à IPS que teme que a atitude negativa das autoridades russas com as entidades da sociedade civil coloque em risco o seu trabalho. Também disse que está preocupado por não ter ideia de como será, em geral, a vida sob o regime russo.

“Pergunto-me se devo ir embora. Às vezes penso que sim, mas a minha mãe e a minha avó não irão, porque não querem. Tenho que pensar nelas também. Simplesmente não sei o que fazer. O pior é que ninguém sabe o que acontecerá em seguida”, ponderou Vasylenko.

Na Crimeia, as tensões persistem, apesar do apoio esmagador pela união com a Rússia. A população tártara, que representa 13% dos habitantes da península, boicotou o referendo. As comunidades tártaras têm cada vez mais medo: muitos integrantes desconfiam da Rússia devido ao que aconteceu aos seus ancestrais sob o regime de Estaline.

Os tártaros denunciam que as suas comunidades têm cada vez mais medo de ataques de grupos de autodefesas pró-russos, que deambulam pelas ruas à noite. Segundo eles, às vezes, pela manhã, encontram cruzes brancas pintadas nas portas das suas casas. Em resposta, formaram os seus próprios esquadrões de autodefesa, que controlam áreas com populações tártaras, enquanto outros fazem a segurança nas mesquitas.

Já os que apoiam a reintegração à Rússia preveem um futuro brilhante para a Crimeia. Aleksandr Pavluk, de 54 anos, vive em Simferopol e trabalha numa das indústrias estratégicas da Crimeia, o turismo. “Aqui todos estão bem depois do referendo. Estamos muito felizes e a população sonha ser parte da Rússia”, contou à IPS. “Todos esperamos um grande verão, quando aguardamos a chegada de muitos turistas, tanto da Rússia quanto da Ucrânia”, acrescentou.

Envolverde/IPS

19/3/2014