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Reestruturações há muitas

A reestruturação da dívida não é irrealista, mas antes prática comum no setor empresarial. Daí que só a ideologia e o cinismo político expliquem por que é que os Estados são os únicos a quem esta hipótese é vedada. Postado por Vicente Ferreira em Ladrões de Bicicletas
Sem surpresa, os bancos preferem recuperar parte dos empréstimos que concederam do que ficar de mãos a abanar
Sem surpresa, os bancos preferem recuperar parte dos empréstimos que concederam do que ficar de mãos a abanar

A reestruturação da dívida pública é um tabu no debate político português: se, à esquerda, esta tem sido defendida face à incapacidade do país em cumprir as obrigações e respeitar as metas europeias, ao centro e à direita a questão é liminarmente rejeitada, ora com base na narrativa moralista de que "a dívida é para ser paga", ora acusando de irrealistas e irresponsáveis os que acham que se pode pedir aos credores para aceitarem perdas no montante que esperam receber. Embora convincente, esta ideia não deixa de ser falsa.

Um artigo de Diogo Cavaleiro e Isabel Vicente no Expresso regista os principais processos de reestruturação de dívida a grandes empresas em 2019. A conclusão dos autores é evidente: "nunca, como agora, se falou tanto de perdões." O artigo refere que os bancos são forçados a medir as consequências da não-reestruturação - isto é, a insolvência desordenada das empresas - e da perda da totalidade do crédito concedido inicialmente, o que explica que aceitem cortes significativos. Os autores sublinham que "não se trata de pequenos perdões, são perdões de milhões para que os bancos possam recuperar entre 20% a 30% das dívidas."

Vale a pena olhar para alguns casos de reestruturação no ano passado. Empresas como a Malo Clinic (clínica dentária), a Varandas de Sousa SA (líder da produção nacional de cogumelos, pertencente ao grupo Sousacamp), a SIVA (de João Pereira Coutinho), o Grupo Sporting ou a Global Media (um gigante da comunicação social, que detém títulos do DN, JN e TSF) tiveram direito a perdões de dívida generosos. Os mecanismos são variados e os motivos também. Nuns casos, os bancos concedem perdões de dívida ou descontos importantes na venda de carteiras de forma a limpar as imparidades do balanço e reduzir o valor do crédito malparado; noutros, optam pela alteração dos prazos de pagamento para tentar garantir que a empresa consegue cumprir. Alguns casos são pouco claros: o perdão à Malo Clinic foi justificado pelos bancos com a necessidade de manter os postos de trabalho, mas a nova gestão da empresa fechou clínicas no país e já reconheceu que "serão necessários ajustamentos". Mas a verdade é que, em todos os casos, a necessidade do setor bancário limpar os balanços ou recuperar parte do dinheiro falou mais alto.

Como se vê, a reestruturação da dívida não é irrealista, mas antes prática comum no setor empresarial. Sem surpresa, os bancos preferem recuperar parte dos empréstimos que concederam do que ficar de mãos a abanar. Daí que só a ideologia e o cinismo político expliquem por que é que os Estados são os únicos a quem esta hipótese é vedada.

Postado por Vicente Ferreira em Ladrões de Bicicletas

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Economista
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