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Recessão global: sinais de recaída

As perspetivas de evolução da economia mundial não permitem fazer prognósticos positivos. Será 2016 o ano da recaída e da recessão global? Por Alejandro Nadal
“Estamos a assistir ao final de um super-ciclo de endividamento e as consequências não serão agradáveis” - Imagem de Petr Kratochvil publicdomainpictures.net
“Estamos a assistir ao final de um super-ciclo de endividamento e as consequências não serão agradáveis” - Imagem de Petr Kratochvil publicdomainpictures.net

A crise financeiro-económica é como um organismo que respira, se move e se transforma diariamente. Com essas mutações, as perspetivas de evolução da economia mundial também mudam constantemente. As que começam a tomar forma para os próximos anos não permitem fazer prognósticos positivos. Será 2016 o ano da recaída e da recessão global?

Há dias o FMI deu a conhecer o seu Relatório sobre a estabilidade financeira mundial. O Fundo identifica três fontes de tensão que pioraram nos últimos seis meses. A primeira consiste num risco macroeconómico de menor crescimento, maior incerteza e o seu efeito negativo sobre as expectativas de investimento. É pena que o FMI não tire a primeira lição sobre isto: o que deveria concluir da sua paixão pelos dogmas neoliberais no terreno da política macroeconómica.

A segunda fonte de tensão provém da queda nos preços das matérias primas durante os últimos quatro anos. Aqui pesam muito as preocupações sobre a economia da China e o seu impacto nos mercados emergentes e nas economias desenvolvidas. Aqueles enfrentam uma combinação desagradável de travão ao crescimento, endurecimento das condições nos mercados financeiros e crescente volatilidade nos fluxos de capital. Estas (por exemplo, a Alemanha) já sofrem reduções significativas nas exportações.

Além dos problemas identificados pelo FMI, colocam-se vários fatores que poderão ser a principal causa de uma nova recessão global. Um deles é o facto de os salários continuarem estagnados nos Estados Unidos e na Europa

A terceira causa de tensões é a falta de credibilidade das políticas macroeconómicas. O ceticismo sobre a eficácia da política monetária está a ser alimentado pelo facto de as posturas chamadas não convencionais (flexibilidade monetária e taxas de juro zero e até negativas) não têm tido um efeito decisivo para tirar o mundo da globalização neoliberal dos efeitos da hecatombe de 2008.

O relatório sobre a estabilidade financeira conclui que as coisas poderiam melhorar se os países avançados resolvessem os principais problemas herdados da crise. Um deles é o da situação dos bancos que enfrentam, entre outras coisas, uma avultada carteira de empréstimos e excesso de capacidade instalada (isto é, há demasiados bancos). Na realidade, esse problema não foi gerado pela crise, mas vem de há muito tempo atrás e é uma causa da crise financeira.

Quanto aos mercados emergentes, o FMI reconhece que foram duramente golpeados pela forte descida nos preços das matérias primas e pelo endividamento que acompanhou os anos de boom. Mas, segundo o FMI, a prudente acumulação de reservas foi o que permitiu que algumas destas economias avançassem. O que o Fundo não diz é que a sua definição de reservas inclui a colocação de fundos de curto prazo (investimentos em carteira) que não são outra coisa que uma forma de endividamento. Por isso, a volatilidade nos fluxos de capital não só mina as possibilidades de recuperação dos mercados emergentes, como gera as condições das crises financeiras crónicas a que assistimos durante a década dos anos 1990.

Além dos problemas identificados pelo Fundo, colocam-se vários fatores que poderão ser a principal causa de uma nova recessão global. Um deles é o facto de os salários continuarem estagnados nos Estados Unidos e na Europa. Isto é acompanhado de uma contração na produção industrial nos Estados Unidos (e um travão nos lucros dos principais ramos da indústria transformadora).

Há que ter em conta que o endividamento é o que continua a explicar boa parte do reduzido crescimento da economia global. Estamos a assistir ao final de um super-ciclo de endividamento e as consequências não serão agradáveis

O outro grande problema tem a ver com o efeito de contágio que provoca a queda nos preços das matérias primas. Esta evolução desfavorável nesses preços tem repercussões importantes no setor financeiro devido a vários mecanismos de transmissão. Muitas das indústrias do setor petrolífero norte-americano da fratura hidráulica (fracking) estão na bancarrota e as suas fontes de financiamento sofrerão um duro golpe. O desplante da Arábia Saudita na reunião de Doha, na semana passada, permite prognosticar uma prolongada época de preços baixos do crude, o que também vai piorar a situação desse setor nos Estados Unidos e agravar o impacto no setor financeiro que já sofre um grau significativo de stress.

Há que ter em conta que o endividamento é o que continua a explicar boa parte do reduzido crescimento da economia global. Hoje os preços dos ativos financeiros e do imobiliário numa economia como a dos Estados Unidos já não podem manter-se em alta devido ao efeito dos rendimentos e da expansão do PIB. O que os manteve a flutuar foi a política monetária flexível, mas agora, que a Reserva Federal começou a aumentar a taxa de juro, os preços desses ativos começam a flutuar em baixa, movidos pelas forças da deflação. Isto é, estamos a assistir ao final de um super-ciclo de endividamento e as consequências não serão agradáveis.

Em síntese, o conjunto de sinais e indicadores aponta para uma nova recessão este ano.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em La Jornada, a 20 de abril de 2016. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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