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Quem possui as estrelas?

A verdade é que se o dono das estrelas não lhes for útil, as estrelas não são dele. As estrelas são de todos nós. Por Beatriz Farelo
Principezinho, aguarela original de Saint-Exupéry – Foto wikimedia
Principezinho, aguarela original de Saint-Exupéry – Foto wikimedia

"Sou muito sério, eu. Não perco tempo com baboseiras!" disse o homem de negócios ao principezinho.

Penso que todos conhecemos esta história. No entanto, deixem-me relembrar-vos o XIII capítulo - o do quarto planeta, habitado por um homem de negócios, que se encontra tão ocupado a contar as estrelas como incomodado pela presença do principezinho.

"Aquelas coisas pequenas e douradas que fazem sonhar os preguiçosos". Fora de contexto, diríamos que se tratam de moedas, de capital, da mesma forma que diríamos que o Elogio da Loucura, do Erasmo, era mesmo um elogio, e que vinha mesmo da parte da Loucura (talvez se considerarmos que a Razão tem o seu pedaço de Loucura, estaríamos certos).

Este homem de negócios afirma-se como sendo o dono das estrelas, e quando interpelado pelo principezinho sobre Autoridade, interrompe-o, dizendo: "Os reis não são donos de nada. Eles 'reinam' sobre. É muito diferente." Já dizia também o outro, que o Estado se devia abster de interferir nas correntes de comércio... Os reis não são donos das estrelas.

Toda esta situação deixou o principezinho muito confuso. "Como podemos ser donos das estrelas?" pergunta. "A quem pertencem elas?" riposta o homem de negócios. "Sei lá. A ninguém." responde o principezinho. Ao que o homem de negócios se apressa a explicar: "Quando tu encontras um diamante que não pertence a ninguém, ele passa a ser teu. Se encontrares uma ilha que não é de ninguém, ela passa a ser tua. (...) Por isso, eu sou dono das estrelas porque ninguém antes sonhou possuí-las."

Mas o principezinho tinha uma opinião muito diferente da das pessoas crescidas a propósito das coisas que eram importantes. O principezinho era útil para o que possuía. "Eu cá tenho uma flor que rego todos os dias. Tenho três vulcões que varro todas as semanas. É que eu também varro aquele que está extinto. Nunca se sabe. É útil para os meus vulcões e para a minha flor que eu os possua. Mas tu não tens utilidade para as estrelas..."

Para o homem de negócios, isto são "baboseiras". O principezinho refere-se a este como "um cogumelo", inchado de orgulho por ser um homem sério.

A verdade é que se o dono das estrelas não lhes for útil, as estrelas não são dele. As estrelas são de todos nós. Temos que ser astutos para identificar os cogumelos e os principezinhos. E escolher qual deles queremos que nos seja útil.

Texto de Beatriz Farelo, estudante do ensino secundário de 16 anos

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