Em entrevista ao Público, a eurodeputada do Bloco opôs-se à proposta de criação de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia por entender que esta pode "abrir a porta a uma escalada militar que passa do militar convencional ao nuclear".
"Nesta altura, já devíamos perceber todos que as ameaças de Putin são para ser levadas a sério", prosseguiu Marisa Matias, reconhecendo que compreende a posição do presidente ucraniano Zelensky, que está sob bombardeamento, "mas a comunidade internacional não ajudará em nada se não tentar todas as alternativas possíveis para que este conflito não descambe na ameaça nuclear".
Para a eurodeputada bloquista, este é o momento para apoiar os esforços desenvolvidos pelo presidente francês, que "tem estado a apostar na via certa em relação a este conflito, a via de negociação, e não tem abandonado essa tarefa".
"Enquanto as vias do diálogo não forem totalmente cortadas deve-se insistir e não tirar logo tudo da mesa e ainda por cima ativando o que seria o caminho directo para Putin ter a desculpa que está à espera para ativar o botão nuclear. Quem analisa este conflito percebe que o risco é o nuclear, não menos do que isso", conclui Marisa.
Questionada sobre as posições que o Bloco tem assumido nos debates sobre a situação na Rússia e na Ucrânia, Marisa Matias lembrou que logo desde a fundação do partido em 1999 "dizíamos que o regime de Putin era uma espécie de máfia", tendo o Bloco condenado as intervenções militares russas na Síria, Chechénia ou a anexação da Crimeia.
"UE não pode ser um prolongamento dos interesses da NATO"
Quanto ao papel da União Europeia, numa altura em que os líderes políticos falam do reforço das despesas militares, Marisa defende que a UE não tem nada a ganhar em ser "um prolongamento dos interesses que já estão representados na NATO" e que as sanções agora aplicadas ao regime de Putin, que "já defendíamos há anos", são uma forma de "enfraquecer regimes totalitários", bem como o apoio direto aos ucranianos, seja em financiamento ou em armas para se defenderem da agressão russa. A eurodeputada acrescentou que "não temos défice de investimento em Defesa na União Europeia" e que a militarização da União Europeia e o exército europeu "não estão incluídos como objetivos nos tratados".
Ouvida pelo Jornal de Notícias sobre o mesmo tema, Marisa Matias defende que "o caminho estratégico da UE deve ser alternativo aos objetivos da NATO", que "nunca foi um aliado da paz ou da eliminação de conflitos". E que a atual situação volta a expor as fragilidades da UE. Por exemplo, na falta de mecanismos para ter autonomia energética ou para gerir infraestruturas para todo o tipo de relações comerciais e tecnológicas. Perante a crise iminente no abastecimento de cereais, há quem proponha que a UE siga o exemplo do que fez com as vacinas da covid-19 e crie uma central de abastecimento, aponta Marisa.