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Quem é o líder dos protestos na Venezuela?

No princípio desta semana, um dos opositores da direita venezuelana, Leopoldo López, entregou-se à polícia, sendo acusado de incitar os confrontos na Venezuela, que provocaram já seis mortos. Em entrevista à Democracy Now, George Ciccariello-Maher, professor de ciência política nos EUA, fala da situação na Venezuela, analisa o papel dos EUA nos acontecimentos e responde à pergunta: Quem é Leopoldo López?
Leopoldo López - foto wikimedia

Democracy Now:O que está a acontecer na Venezuela hoje?

George Ciccariello-Maher:Está a acontecer um grande evento, que será uma tarefa crucial para o governo de Maduro. É nossa obrigação que analisemos a situação dentro doseu contexto histórico, para entendermos quem está a agir. Se acompanhamos o Twitter, observamos que há uma tendência: neste momento “pós-occupy” e sucessor à Primavera Árabe, cadavez que vemos protestos nas ruas, começamos a retuitá-los e a sentir uma simpatia pela causa, mesmo sem saber qual é o contexto dela. Uma vez que analisamos o contexto venezuelano, o que vemos é mais uma tentativa, dentro de uma longa história de tentativas, de depor um governo democraticamente eleito, desta vez aproveitando-sede uma mobilização estudantil contra a insegurança e as dificuldades económicas.

DN:George Ciccariello, quem é Leopoldo Lopez? O Washington Post descreve-ocomo um homem de 42 anos, de esquerda, que estudou em Harvard. O que você sabe da sua história?

GC-M:Dizê-lo de esquerda seria forçar a barra. Leopoldo Lopez representa o que há de mais à direita no espectro político venezuelano. Ele foi educado nos Estados Unidos desde o ensino médio até a sua graduação na Harvard Kennedy, descende do primeiro presidente venezuelano e dizem que até mesmo do próprio Simon Bolívar. Por outras palavras, ele é o representante desta classe política tradicional que deixou o poder após a Revolução Bolivariana. Em termos dasua história política, o seu partido, o Primera Justicia, foi formado por uma intersecção entre corrupção e intervenção norte-americana, corrupção por sua mãe, ao arrecadar fundo fraudulentos de uma companhia de petróleo venezuelana para este novo partido, e pelo outro lado fundos do NED, do USAID, e de instituições do governo norte-americano. Assim que Chávez chegou ao poder, os partidos políticos tradicionais entraram em colapso, e tanto a oposição interna quanto o governo dos EUA precisavam criar algum outro veículo para fazer oposição ao governo Chávez, e este partido de Leopoldo Lopez é um destes veículos. Neste momento, até mesmo olíderanterior do partido, Henrique Caprilles, que foi o candidato às eleições presidenciais, percebeu que a linha de fazerações nas ruas na tentativa de depor um governo democrático simplesmente não vai funcionar. No entanto, Leopoldo Lopez e outros líderes, como Maria Corina Machado e Antonio Ledesma, continuam a tentar depor o governo.

DN:O presidente Maduro expulsou três diplomatas norte-americanos, alegando que eles estavam envolvidos no apoio à oposição. Você poderia nos falar sobre isso?

GC-M:O governo Obama continua a financiar esta oposição, até mesmo mais abertamente do que Bush fazia: Obama requisitou fundos para estes grupos opositores, mesmo que eles estivessem envolvidos em atividades antidemocráticas no passado e apesar do facto de López e outros estarem envolvidos no golpe de 2002 e terem participado de ações violentas na época. Dizer que López hoje é um representante da democracia só pode ser uma piada. Há uma questão interessante aqui, a de que o governo venezuelano, se ouvimos as palavras da esposa de Leopoldo López em declarações recentes, agiu para proteger a vida de López, que estava sob ameaças. A maneira pela qual López foi preso foi muito generosa, muito mais do que López foi no passado, quando liderou uma caça às bruxas contra os ministros chavistas que foram espancados em público no caminho da prisão. López pôde até mesmo falar com um megafone no dia em que foi preso. Podemos perguntar: por que o governo de Maduro está a ser tão gentil com ele? Na verdade, preferem que ele seja o líder da oposição porque ele simplesmente não seria eleito, pois representa a nata das elites venezuelanas.

DN:O que vemos na grande comunicação é uma Venezuela fora de controle, com altos índices de violência, escassez de comida e inflação altíssima. Qual é a sua avaliação da situação do país hoje?

GC-M:Para dizer claramente, a escassez de comida tem sido sim um problema, e a segurança pública é um problema gigantesco na Venezuela. Ambos são problemas profundos que têm a ver com falhas do governo para tratá-los, mas também tem relação com a ação de vários outros atores. No caso da criminalidade, a infiltração de máfias tem sido muito grande nos últimos anos, e no caso da escassez, o papel de capitalistas que açambarcam bens de consumo e a especulação da moeda tem sido uma força destrutiva que nos lembra muito o Chile de Allende, onde se tentou destruir a economia como uma preparação para o golpe. Mas, na verdade, estes dois fatores que os estudantes tem protestado contra não explicam o porquê destes protestos estarem a emergir, pois os índices de criminalidade estão a baixar e a escassez de comida não está nem de longe tão ruim quanto estava há um ano. O que explica o que está a ocorrer agora é que, depois das eleições de dezembro, este foi o momento em que a direita disse “já chega, estamos cansados de eleições, vamos às ruas tentar derrubar este governo”, mas neste meio tempo, os movimentos revolucionários venezuelanos, as organizações populares, que são no fim das contas a base deste governo, que nunca teve apenas como base Chávez ou Maduro enquanto indivíduos, mas sim milhões e milhões de venezuelanos que estão a construir uma democracia mais profunda e mais direta, a construir movimentos sociais, organizações, conselhos de trabalhadores, conselhos estudantis, conselhos de camponeses, estas pessoas estão a continuar a luta, estão a defender o governo Maduro, e estes protestos que estão ocorrer principalmente nas regiões mais ricas de Caracas, a Beverly Hills de Caracas, não as fará desistir desta tarefa.

DN:E o papel dos EUA?

Os EUA continuam a financiar a oposição. Acho que no futuro, como costuma acontecer, nós teremos acesso às informações do grau de envolvimento dos EUA no financiamento à oposição venezuelana. Na realidade, esses protestos são um cálculo errado por parte da oposição, não parece que os EUA tenham dito à oposição para tomarem este caminho, pois ele não parece ser muito estratégico. Sabemos que esta é uma oposição em contacto direto com a embaixada norte-americana, que recebe fundos do governo dos EUA, mas este é o movimento de uma oposição venezuelana autónoma que vai, como parece, novamente desmoronar-se.

Entrevista completa no site do DemocracyNow. Tradução de Roberto Brilhante para Carta Maior

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