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Que Lusa para o século XXI? – Um contributo

A prestação do serviço noticioso e informativo de interesse público que incumbe à Agência Lusa, implica uma visão que integre estratégia, financiamento e liderança. Por Rui Nunes
Edifício da Agência Lusa - Foto de Inácio Rosa/Lusa (arquivo)
Edifício da Agência Lusa - Foto de Inácio Rosa/Lusa (arquivo)

Síntese

A concretização, garantia e qualificação da prestação do serviço noticioso e informativo de interesse público que incumbe à Agência Lusa, entre constrangimentos orçamentais, dependências governamentais e revoluções comunicacionais, implica uma visão que integre estratégia, financiamento e liderança e requer um escrutínio sistemático e uma avaliação rigorosa.

Rui Nunes1

A prestação de um “serviço noticioso e informativo de interesse público” é o que justifica a existência da Agência Lusa, que iniciou a distribuição de material há 30 anos, em 01 de janeiro de 1987. Qualquer abordagem da sua história, do seu presente e do seu futuro tem sempre de

partir do conceito de serviço público e a ele regressar. É por isso que tem um contrato com o Estado, que justifica a indemnização compensatória que recebe e exige tanto uma estratégia esclarecida, quanto o controlo da qualidade do seu produto.

Porém, por vezes, na prática, a teoria é outra. Basta recordar, e comparar com, histórias recentes (vg, Fonseca e Carvalho 2016) ou comunicações a congressos anteriores (vg, Antunes 1982). O almejado nunca está garantido. Os riscos editoriais de um ‘Portugal Invisível’ no país e no estrangeiro, de comunidades ou temáticas maltratadas, de informação omitida / desqualificada / ignorada – ao fim e ao cabo, de um serviço público adulterado, escamoteado e fraudulento – são constantes. Por outro lado, em termos orgânicos, a concretização da razão de ser está rodeada de ameaças tão diversificadas como a captura por interesses pessoais, as falhas informacionais, as dificuldades na aplicação das orientações, a estratégia errada ou ausente da tutela política... ou inclusive uma vontade de acabar com o serviço público!

A radical transformação do setor (ver Cardoso et al. 2016) requer, mais do que nunca, um ‘farol’ de pertinência, relevância e seriedade, perante fenómenos como a deriva para o infotainment, os despedimentos e encerramentos, o crescimento do poder das fontes ou a queda das barreiras à entrada na intermediação informativa e noticiosa.

Em julho de 2013, tivemos a oportunidade, com os camaradas da CT da RTP, de participar numa audição no Parlamento Europeu sobre os ataques ao serviço público de informação, promovida pelo grupo dos Verdes, a convite de Rui Tavares, ainda com o encerramento da televisão grega ERT bem fresco2. Das conclusões, apresentadas pela deputada Isabelle Durant, a principal foi a necessidade de esclarecer que serviço público de informação se quer, isto é, que resulta do jogo de forças político: residual ou prioritário. O resto – financiamento, conteúdos, resposta às mudanças no contexto – decorre daqui, vale dizer, da vontade do acionista principal, que no caso da Lusa é o Estado.

Foi nesta vontade que radicou o corte brutal por parte do governo PSD/CDS do valor da indemnização compensatória no contrato 2013-2015 em 33%, que provocou a) a saída de 10% dos trabalhadores; b) a redução da produção em outro tanto; c) a precarização e redução da rede internacional; d) um funcionamento da estrutura em sobrecarga; e) sacrifícios pessoais vários; f) e a autofagia do capital da empresa. Tal como é nesta vontade, agora do governo PS, que assenta o atual desanuviamento financeiro relativo da Lusa, apesar de uma primeira versão do OE 2017 – por explicar até agora – apontar para o regresso do ‘orçamento Relvas’.

Aqui chegados, aproximámo-nos do essencial: estratégia. Esta tem de ser, deve ser, precisa de ser, mais do que a clássica mudança do diretor de Informação quando muda o governo3, seguida por substituições de chefias e editores – revertidas quando a cor do governo muda –, ou a enunciação oca de slogans que ao primeiro teste mostram a sua inconsequência. A Lusa é demasiado importante para ser estruturada com base em critérios de confiança, reduzida a uma lógica de controleiros e apparatchicks ou analisada apenas pelo prisma dos recursos transferidos (em abstrato, 10 milhões de euros podem ser de mais, como 15 milhões podem ser de menos).

A necessária subida de nível da análise, para a concretização da razão de ser da Agência, implica uma visão que integre estratégia, financiamento e liderança. Tem de se evitar a armadilha da apreciação parcela a parcela. Sem esta integração suceder-se-ão as divergências entre acionistas, a fulanização das relações laborais, as suspeitas de intromissão editorial externa, a navegação à vista, a ambiguidade na relação com os ditos clientes (leia-se: o principal financiador, o Estado, que paga, recorde-se, um serviço noticioso e informativo de interesse público, e os destinatários imediatos do produto, os meios de comunicação).

Trabalhar em agência é um privilégio. O anonimato que é associado a este jornalismo pode ser um custo para os sequiosos de ribalta. Mas é mais do que compensado, em termos pessoais, pela maior estabilidade e segurança relativa, algo que já vem de longe (Valdez 1986, 1982), e, em termos profissionais, pela constatação da sua centralidade no panorama mediático e do conforto propiciado aos outros OCS pela sua atividade.

Trabalhar na Lusa é assim sobretudo uma responsabilidade acrescida. Por isso, sugere-se também a sujeição da Agência a um escrutínio sistemático, pelos seus parceiros relevantes, e a uma avaliação rigorosa, designadamente pelas universidades, para evitar aqueles riscos editoriais e aquelas ameaças orgânicas e cumprir o seu papel. Este cumprimento pode também requerer uma discussão da estrutura acionista e da forma de distribuição da informação produzida.

Já se sabe: quem não sabe para onde vai qualquer caminho lhe serve.

Intervenção de Rui Nunes no II Congresso dos Jornalistas

Referências

Andringa, D., (2014). Funcionários da Verdade – Profissionalismo e Responsabilidade Social dos Jornalistas do Serviço Público de Televisão. Lisboa: Tinta da China.

Antunes, J., (1982). “A Incompetência e a Partidarização na Base da Destruição da Anop”, Liberdade de Expressão. Expressão da Liberdade. 1.o Congresso dos Jornalistas Portugueses. Conclusões. Teses. Documentos. Lisboa: Secretariado da Comissão Executiva do I CJP, pp: 200-209.

Cardoso, G. et al. (2016). Modelos de Negócio e Comunicação Social. Coimbra: Almedina.

Fonseca, W. e Carvalho, M. (2016). Heróis Anónimos. Jornalismo de Agência – História da ANOP e da NP (1975-1986). Lisboa: Perfil Criativo.

Valdez, F. (1986). “Defesa do Sector Público e Liberdade de Informação”, 2.o Congresso dos Jornalistas Portugueses Conclusões. Teses. Documentos. Deontologia. Lisboa: Secretariado da Comissão Executiva do 2.o Congresso dos Jornalistas Portugueses, pp: 325-326.

Valdez, F. (1982). “Sector Público da Comunicação Social e Liberdade de Informação”, Liberdade de Expressão. Expressão da Liberdade. 1.o Congresso dos Jornalistas Portugueses. Conclusões. Teses. Documentos. Lisboa: Secretariado da Comissão Executiva do I CJP, pp: 193-194.


Notas :

1 Carteira profissional n.o 1106. Esta comunicação é feita a título individual, mas reflete em muito a vivência do autor enquanto membro da Comissão de Trabalhadores da Lusa, em dois mandatos nos últimos quatro anos, com a Alexandra Luís, a Fernanda Franco Ramalho, a Helena Fidalgo, o João Edgar de Sousa, o Luís Teixeira, o Mário Caetano e o Pedro Sousa Pereira. O autor também já integrou o Conselho de Redação da Agência e o Conselho Geral do Sindicato. Texto produzido com a informação disponível até 30 de dezembro de 2016.

2 Sobre jornalismo e serviço público de televisão, ver Andringa (2014).

3 Esta prática foi interrompida pela atual administração, que substituiu o diretor de Informação nomeado durante o governo PSD/CDS antes das eleições das quais resultou o atual governo PS, sustentado no Parlamento também pelo Bloco de Esquerda, PCP e Verdes.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista. Membro da Comissão de Trabalhadores da agência Lusa
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