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Quando os cientistas enfrentam o sistema

Oposição à guerra, à vigilância, às drogas psiquiátricas, aos agrotóxicos. Defesa de uma Ciência para o Povo. O movimento dos anos 1970 poderia inspirar investigadores hoje, quando a tecnologia parece transformar-se num pesadelo. Por Jane Shallice.
Embora muitas campanhas tentem abordar algumas dessas questões, não existe, atualmente, nenhuma organização que desafie o papel geral da ciência e da tecnologia na sociedade.

As consequências sociais da direção para a qual a ciência se move hoje são claras. As novas tecnologias usadas para fortalecer a vigilância de Estado. A interminável investigação e produção de armas. A necessidade de acabar com a energia baseada no carbono. A natureza corporativa da ciência e das universidades. O direito à propriedade intelectual e a captura do conhecimento como propriedade privada para retornos privados. Modificações genéticas, inteligência artificial, algoritmos, a dominância da indústria farmacêutica e o seu impacto na assistência médica. A poluição do meio ambiente e a sua degradação. Acima de tudo, o papel da atividade humana nas alterações climáticas.

Embora muitas campanhas tentem abordar algumas dessas questões, não existe, atualmente, nenhuma organização que desafie o papel geral da ciência e da tecnologia na sociedade. Há cinquenta anos atrás, quando alguns desses problemas estavam a começar a surgir no debate público, mais de mil pessoas, incluindo alguns dos cientistas mais proeminentes, como um prémio Nobel, criaram a Sociedade Britânica para a Responsabilidade Social na Ciência (BSSRS, na sigla em inglês), que transformou questões anteriormente tratadas como neutras e técnicas em pontos fulcrais de controvérsia política e contestação.

É difícil de imaginar, hoje, dada a grande sensibilidade dos governos, mas, ao longo dos anos 1960, as notícias diretas sobre a guerra do Vietname eram constantes. Jornalistas foram incorporados às tropas dos EUA, e escreviam relatórios, que eram transmitidos diariamente (ainda hoje a fotografia da menina nua, a fugir de um ataque de napalm nos lembra o Vietname). Todas as noites, em todas as salas de estar, as pessoas assistiam e ouviam os sons dos helicópteros que enviavam tropas ou munições, ou soltavam nuvens químicas de desfolhantes como o Agente Laranja. Nessa guerra televisionada, o facto de todos puderem assistir aos seus horrores e terem informações sobre o número de vítimas garantiu uma crescente oposição.

Foi em 1966-67 que Jonathan Rosenhead, um jovem matemático britânico, passou um ano na Universidade da Pensilvânia e conheceu cientistas que se opunham à guerra do Vietname. Estavam focados em investigações químicas que eram usadas para desenvolver métodos de guerra químicos e biológicos. No seu regresso à Inglaterra, Jonathan estava determinado a encontrar maneiras de tornar público a clara má utilização da ciência. Em 1968, no meio da fermentação das revoltas estudantis, a Sociedade de Química da Universidade de Essex convidou um palestrante de Porton Down, o Laboratório de Ciência e Tecnologia de Defesa britânico. Como resposta, os estudantes que estavam numa ocupação organizaram uma aula pública de Steven Rose, um neurobiólogo, e Rosenhead. Essa reunião bem-sucedida foi um dos principais impulsionadores para que pudessem organizar um grupo de cientistas de ideias semelhantes. Aí a Sociedade Britânica para a Responsabilidade Social da Ciência (BSSRSO) começou a ser gerada.

Um ano depois, em 1969, a BSSRS foi lançada na Royal Society, talvez a sociedade científica mais antiga no mundo, num encontro com mais de 300 participantes. Maurice Wilkins, prémio Nobel de Medicina, foi nomeado presidente, apoiado por outros célebres cientistas como Hans Krebs, Bertrand Russel e Ernst Braun. Deles, Wilkins e Tom Kibble, um físico teórico que foi um dos descobridores do bosão de Higgs, mantiveram por um longo período o seu envolvimento e compromisso com o BSSRS. Um comité nacional elegeu Steven Rose como presidente, Peter Smith como tesoureiro, e Bob Smith como secretário. Diversos grupos de trabalho foram estabelecidos. Eles organizavam reuniões de comité mensais, um encontro anual e publicavam a revista Science for People (“Ciência para as Pessoas”).

O objetivo era encontrar formas de organizar cientistas para que reconhecessem a sua responsabilidade coletiva e pessoal pela ciência na qual estavam a trabalhar. Queriam que as consequências do trabalho dos cientistas fossem expostas e amplamente debatidas, de maneira a criar um público informado e ativo.

No primeiro período, houve uma série de ações que refletiam o espírito da época. No início de 1971, alguns membros participaram numa conferência de matemática/física patrocinada pela NATO no Bedford College. Até a sessão final, um terço desses participantes assinou uma declaração em repúdio ao financiamento militar da ciência através de organizações como a NATO. No ano seguinte, Felix Pirani, um físico do Kings College com um histórico radical (“Ele gostaria que nas universidades os estudantes recebessem os seus diplomas ao entrar, e não precisassem de se preocupar com os exames”) organizou a sua intervenção na reunião anual do British Association for the Advancement of Science (“Associação Britânica para o Avanço da Ciência”, em tradução livre) em Newcastle, que era frequentada pelo establishment da ciência. No momento em que o presidente Lord Todd discursava, foi cercado por uma manifestação de oposição na forma de teatro de rua, o que claramente o irritou. A publicidade desse evento aumentou a adesão para 1000 membros. No auge, foram 1500.

Estabelecendo o BSSRS

Num momento, no final dos anos 1960, quando o pensamento crítico foi desencadeado através da educação superior em boa parte da Europa e Estados Unidos, desafiando ideologias e práticas educacionais, a BSSRS aliou-se com as reivindicações por democracia mais ampla em instituições educacionais e espaços de trabalho, especialmente aquelas que reivindicavam representação estudantil. Questionou as hierarquias em instituições médicas e outras instituições de aprendizagem. Exigiu a responsabilização social em indústrias e instituições de investigação, expôs e foi contra o uso de universidades para investigação militar. Um exemplo disso foi o departamento de Michigan, nos EUA,  que foi usado para planear padrões de bombardeamento no Vietname.

A BSSRS apoiou a abolição das armas nucleares. Opôs-se ao desenvolvimento e uso de armas químicas e biológicas, minas terrestres e bombas de fragmentação. Preocupava-se com o uso excessivo de pesticidas e o impacto  da “Revolução Verde”. Nesse momento, durante a luta política e militar na Irlanda do Norte, a BSSRS priorizou a oposição ao uso de gás lacrimogéneo, ao uso de balas de borracha e de plástico (especialmente desenvolvidas para esse conflito) e questionou as técnicas de interrogatório usadas pelos militares. Levantou questões sobre as técnicas de vigilância, encerrou circuitos de câmaras de televisão e o uso de drogas psiquiátricas.

Os membros do BSSRS desenvolveram uma posição radical em relação à política de energia, opondo-se particularmente às tecnologias nucleares. Escreveram papers analisando as relações sociais da produção de conhecimento, tecnologias e manufaturas, como por exemplo a gestão científica (taylorismo e fordismo). A Sociedade estabeleceu a base para campanhas de longo prazo em torno dos riscos profissionais.

Uma figura chave no âmbito do estudo dos riscos profissionais foi Charlie Clutterbrook, um zoólogo que estudou o impacto de herbicidas em animais rasteiros. O BSSRS estava à procura de um “homem para a poluição” quando, em 1974, Jonathan Hosenhead encontrou um investidor imobiliário rico com o desejo de financiar, por um curto período, uma pessoa para “fazer alguma coisa pelo meio ambiente”. Esse benfeitor era David Hart, que vivia em Nothing Hill, em Londres, e era rico o suficiente para ter um helicóptero e uma propriedade em Devon (mais tarde, Hart ficaria conhecido por apoiar Margareth Thatcher e, sobretudo, por financiar o sindicato separatista dos mineiros). Charlie foi designado para ajudar os esforços da comunidade para responder a preocupações locais, e trabalhou com Alan Dalton, uma fonte de grande experiência e apoio para aqueles envolvidos em todas as campanhas contra a utilização do amianto. Essas campanhas foram levadas adiante por trabalhadores que acreditavam que, apesar de todo o dinheiro despejado pela indústria do amianto para limpar a imagem do seu produto, tratava-se de um material de construção que poderia levar à morte. Uma campanha posterior, de grande porte, tinha como alvo a poluição causada pelas operações da British Petroleum na baía de Baglan, no Port Talbot, na qual relatou-se a produção de PVC, material que mais tarde descobriu-se ser cancerígeno. Um filme da World in Action foi feito sobre o assunto. Muito desse trabalho foi desenvolvido em colaboração com sindicalistas e ativistas locais. O seu legado encontra-se, hoje, nos avanços críticos em torno da saúde e segurança no trabalho.

Questões de saúde e segurança tornaram-se um ímpeto importante para a criação, pelos trabalhadores da Lucas Aerospace, de um plano para a “produção socialmente útil”. As suas reservas relativas às questões de saúde e segurança tanto no que concerne aos produtos militares que desenvolviam quanto às condições em que trabalhavam levaram-nos a aprender que a tecnologia não é neutra. Como engenheiros e designers altamente qualificados, rapidamente identificaram os valores que norteavam o desenvolvimento de novas tecnologias, incluindo a nova informação tecnológica que representava uma potencial ameaça aos seus postos de trabalho. Optaram por proteger os seus empregos não defendendo os seus projetos com mísseis, mas organizando através da empresa os “comités combinados” de delegados sindicais, nos quais faziam a campanha de oferecer as suas habilidades para propostas úteis à sociedade. No processo, trabalharam em causas comuns com muitos membros da BSSRS, e com Dave Elliott, do departamento de tecnologia da Open University. A Lucas Workers Alternative tornou-se num farol para a ideia de que a o trajeto do desenvolvimento tecnológico pode ser alterado. Havia alternativas voltadas à sociedade.

Em 1975-76 foi criado um grupo dedicado à agricultura na BSSRS, com foco na produção alimentar, tornando-se um marco importante para jovens cientistas preocupados com a indústria moderna de alimentos. No ano seguinte, Tim Lang conheceu Clutterbuck e juntou-se à BSSRS. Num artigo sobre a campanha de alimentos nos anos 1980 e 90 (que foi publicamente divulgado em 1997), explicou a importância do BSSRS, por unir “uma ampla variedade de disciplinas para discutir uma perspetiva que não era nem a corporativista nem a orientada de cima para baixo, nem para o livre mercado, mas para a saúde pública, o trabalhador, o povo”. Mais tarde, Tim Lang liderou a Comissão de Londres para a Comida, que foi estabelecida na gestão de Ken Livingstone do Conselho da Grande Londres. A importância do trabalho da BSSRS nessa área foi arrebatadora, por ter diretamente apoiado e alimentado as campanhas em resposta às patentes e dominação corporativas.

Como foco central, a BSSRS destinava-se a apoiar trabalhadores da ciência, sindicalistas e ativistas. Os seus vários grupos de trabalho produziram uma infinidade de panfletos e papers. Em 1975, um grupo de Mulheres na Ciência foi criado com Dot Griffiths, Anne Cook, Leslie Walker, Esther Saraga, Suzie Orbach, Hilary Rose e outras, autónomas à BSSRS mas que produziam conteúdos para a publicação Science for People. Outros grupos trabalharam intensamente no âmbito da utilização da ciência para a sociedade, a ciência e a arte, os fatores sociais na saúde e nas doenças, a eliminação de resíduos nucleares e a sociobiologia.

Em resposta ao estudo Os Limites do Crescimento, de 1972, a BSSRS argumentou que este não dizia nada sobre a distribuição desigual do consumo, nem a relação essencial entre a acumulação de capital, a competição e o crescimento. Também fez um comentário crítico às propostas de Rothschild para financiamento de investigação universitária, em 1971, que defendiam uma relação cliente-consumidor entre a ciência e o Estado.

Numa campanha importante e bem sucedida com sindicalistas, membros da BSSRS ajudaram a desenvolver um ensino de ciências antirracista, trabalhando com professores membros do sindicato que se opunham ao uso de testes de QI nas escolas. Parte do seu trabalho foi também apoiar movimentos negros e Bernard Coard, cujo panfleto “Como o sistema escolar torna as crianças negras educacionalmente secundárias” foi um argumento crucial contra o uso do QI para determinar a alocação de escolas especiais.

Ao longo desse período, com o governo britânico engajado na supressão de ações republicanas na Irlanda do Norte, a BSSRS produziu um panfleto, a “Nova tecnologia da repressão”, e, a esse respeito, Carol Ackroyd, Karen Margolis, Jonathan Rosenhead e Tim Shallice publicaram, em 1977, a “Tecnologia de controlo político”, uma análise inovadora sobre a vigilância de Estado e os métodos de controlo que estavam a ser usados nas operações do exército contra a população civil. Tim Shallice argumenta que, em 1984, George Orwell estabeleceu na consciência popular a ideia de que o Estado poderia investigar e controlar a população. A contribuição particular da BSSRS foi analisar o formato em que a tecnologia estava a ser desenvolvida. Hoje, um membro da Royal Society e instituições como o departamento de Estudos de Paz de Bradford consideram que o trabalho foi o pioneiro no campo.

A investigação científica do pós-guerra foi financiada mediante fontes de financiamento público (com, é claro, algum dinheiro de investigação industrial) e havia um nível de autonomia dentro das universidades, o que significou espaço e recursos para que mentes académicas críticas determinassem o propósito e a direção do seu trabalho, sem a pressão de interesses privados ou definições estreitas sobre o que poderia ser desenvolvido. Para muitas pessoas a trabalhar no mundo académico, existia um ethos de serviço público básico, com a vontade de trabalhar em conjunto e aproveitar as contribuições de uma camada de intelectuais independentes e investigadores ativistas de movimentos sociais. Também nesse período, algumas autoridades locais, especialmente com a eleição de um Conselho da Grande Londres de esquerda, que encomendavam e apoiavam algumas das iniciativas.

No entanto, com a eleição de Margareth Thatcher e a vitória do neoliberalismo, houve uma grande mudança a favor da privatização, terceirização, mercantilização e liberalização, e a ênfase mudou para os parques científicos e empresas em todos os aspetos de investigação básica. As corporações, especialmente empresas de medicamentos e biotecnologia, passaram a determinar cada vez mais as prioridades de investigação.

Declínio e queda

Ao longo dos anos 1970, surgiram distinções nítidas entre aqueles que queriam que a BSSRS fosse uma agência para a introdução e informação idónea sobre questões científicas para um público mais amplo; e aqueles que queriam ficar claramente aliados a movimentos revolucionários e da classe trabalhadora. Para ultrapassar esse impasse, ficou acordado que a BSSRS deveria priorizar a disseminação de conhecimento científico e conselhos àqueles com menos acesso a tais informações. Faria comentários sobre questões políticas, mantendo as discussões ideológicas internas, e continuaria a tentar recrutar cientistas.

Como em todas as organizações, existiam diferenças políticas, pessoas que deixavam e formavam novos grupos, como Robert Young, que criou a Revista de Ciência Radical. No final dos anos 1980, houve uma grande clivagem entre membros e ex-membros do BSSRS, e demonstrou-se muito difícil manter a energia e o projeto que o iniciou. Muitos dos seus membros iniciais tornaram-se famosos nos seus campos, e achavam impossível contribuir com o seu tempo para a sociedade. Embora continuassem a apoiar o projeto, muitos sentiram que tinham gasto muito tempo a escrever panfletos que ninguém leria. A Sociedade foi encerrada no início dos anos 1990, após uma votação na última reunião anual.

A importância da BSSRS ainda permanece. Muitas das questões nas quais se focou são fulcrais atualmente, e o seu legado é encontrado em campanhas individuais tais como a Perigos no trabalho, campanhas em torno dos mísseis Trident, armas nucleares e drones, ou em torno de questões relativas à alimentação. Ainda hoje, não há nenhuma organização com o foco no papel geral dos cientistas e a sua relação com a sociedade e questões sociais. Com o ímpeto e velocidade da mudança tecnológica a enquadrr muitos de nossos pensamentos e respostas, há reivindicações pela responsabilização pública diante do aumento do controlo centralizado e dos mecanismos particulares de controlo estatal — levantados consideravelmente pela Guerra ao Terror e “interesses de segurança”.

E por que é que tantas pessoas que lutam por esses temas não são cientistas? Onde estão os cientistas politicamente críticos? O exemplo de Wilkins e outros deveria iluminar o caminho para intelectuais de todo tipo examinarem criticamente o seu papel.


Tradução: Gabriela Leite.
Publicado em Outras Palavras.

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