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PSOE: a noite dos mortos-vivos para resgatar o regime de 78

A situação do PSOE não é apenas a crise de um partido, mas a crise da “alternância”, como expressão política da crise do regime de 78, e que se insere numa crise da sua corrente política a nível europeu. Artigo de Isabel Serra e Miguel Urbán.
Reunião do Comité Federal do PSOE que aprovou a viabilização do governo de Mariano Rajoy. Foto PSOE/Flickr

“A noite dos mortos-vivos” é um filme de terror de série B com um argumento bastante simples, os mortos “regressam à vida” e procuram vítimas humanas para se alimentarem. Cada pessoa que conseguem capturar torna-se num novo morto-vivo, com os protagonistas a ficarem encurralados numa quinta, lutando para sobreviver aos seus ataques. Um filme que, apesar de ser muito criticado na sua estreia, se converteu num clássico do género, entre outras coisas por popularizar o personagem do “zombie”. Umas décadas depois, o sociólogo Ulrich Beck usou o termo “zombie” ao referir-se a conceitos cunhados para outros tempos ou circunstâncias e que agora de nada servem se não se adaptam às condições contemporâneas. Dessa forma considerava “instituições zombies” aquelas entidades mortas (por assim dizer, já que não representam os interesses coletivos para que foram criadas) mas ao mesmo tempo vivas. Perguntava-se se a sua ressurreição, ainda que sob uma nova forma ou encarnação, seria viável; ou, caso não fosse, como lhe fazer a sepultura.

Nestas semanas, a situação do PSOE assemelhou-se de certa maneira um remake castiço da “Noite dos mortos-vivos”. Não só pela reaparição de muitos “zombies” que voltaram à “vida” socialista para fazer o trabalho sujo aos barões da abstenção, facilitando o governo de Mariano Rajoy. Mas também pela forma como o próprio conceito de Beck sobre “instituições zombies” se pode aplicar a um partido que, enquanto pilar do regime de 78, já mostrou estar morto mas que ainda continua vivo.

A situação do PSOE não é apenas a crise de um partido, mas a crise da “alternância”, como expressão política da crise do regime de 78, e que se insere numa crise da sua corrente política a nível europeu numa identificação crescente com o “novo europeísmo” da grande coligação. Um “socialismo” que co-governa as instituições europeias e muitos países centrais, refém das políticas austericidas e neoliberais que são a verdadeira sabotagem do processo europeu. Este é o “paradoxo da socialdemocracia”: imolar-se em nome da manutenção de uma ordem que já não se pode manter e que acaba por debilitar o seu projeto político.

Neste sentido, Alexis Tsipras escrevia poucos meses antes de chegar ao poder: “A crise atual da socialdemocracia é equivalente à crise da Europa” (…) “quando uma força política histórica deixa de representar os interesses sociais que representava historicamente, então mais cedo ou mais tarde é substituída pelas forças que verdadeiramente os possam representar. Porque a política, como a natureza, tem horror ao vazio”.

Desta forma, a crise dos partidos socialistas não parece ser um sintoma particular de um país concreto, mas um fenómeno europeu. Um sintoma da transformação que é fruto da revolução conservadora e que alcançou o seu maior feito político com a consumação da Terceira via trabalhista. Dizia Margaret Thatcher que “a sua maior vitória não foram as suas políticas, mas que Tony Blair não lutasse para mudá-las”. Uma mutação da socialdemocracia em “social-liberalismo” com a incorporação a uma elite política neoliberal e que acaba por se converter no que o escritor Tariq Ali chamou de “extremo centro”. Em toda a Europa este processo implicou uma deslocação das áreas eleitorais tradicionais para escolhas políticas que até agora se encontravam nas suas margens.

Afinal, o Comité Federal do passado domingo pareceu-se demasiado a essa quinta dos “mortos-vivos”, onde os “zombies” das portas giratórias conseguiram que na semana de todos os santos os vampiros do Partido Popular revalidem o seu governo. Agora é o tempo de conseguir na rua e nas instituições que o novo governo de Rajoy não se converta numa sequela do filme de terror que foi a sua última legislatura.

Jorge Riechman escrevia há uns anos um poema que dizia: Schröeder e Blair apresentam um manifesto para a modernização da esquerda; Modernizar a esquerda quer dizer transformá-la em direita. Um dia antes do último Comité Federal do PSOE, Guillermo Fernandéz Vara, o “barão” da Extremadura, reclamava: uma esquerda moderada, de mudança, reformista e transformadora (…) dos que estão dispostos a construir o país a partir do diálogo e não das barricadas. São palavras que fazem muito lembrar esse afã de Blair por “modernizar” a esquerda deixando de ser de esquerda, e sobretudo deixando de defender os interesses materiais da sua base social em nome de uma eufemística “responsabilidade de estado”.

Desta forma, como escreviam recentemente Jaime Pastor e Brais Fernández, é fundamental compreender o que se passa com o PSOE, não só pela sua composição sociológica ou os seus símbolos, mas pelo tipo de acontecimentos que o determinam: o 15M, o surgimento do Podemos e os municipalismos provocaram o fecho do PSOE como veículo das reivindicações populares. Acontecimentos vivos que em certa medida agudizam a sua “zombificação”.

Nesse sentido, o surgimento do Podemos e das suas diferentes confluências no Estado espanhol é mais um passo no sintomático distanciamento político e simbólico-cultural das pessoas em relação às elites políticas e económicas, um distanciamento que já tinha sido mostrado com a potência enorme do 15M e os mecanismos de apoio mútuo e sindicalismo social como a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas ou as Marés. E, todavia, seria prematuro anunciar o ocaso definitivo dos partidos do “extremo centro” no cenário espanhol. Desde logo, ainda que o Podemos não tenha conseguido por pouco superar eleitoralmente o PSOE nas últimas legislativas, o clima de instabilidade política, bem como a incapacidade de formar governo desde dezembro passado, ou o facto de ter de se repetir as eleições pela primeira vez na história recente, não se podia compreender fora do clima atual das “polarizações” que passaram da rua para o parlamento e mesmo para o interior do próprio Partido Socialista. Ainda assim, a capacidade de recomposição das elites (e dos seus aparelhos de partido) continua a revelar-se alta, e o bloco social alternativo é ainda débil e inconsistente, por mais que as mobilizações na rua e a emergência eleitoral de novas formas políticas sejam o fermento de novas hegemonias.

Afinal, o Comité Federal do passado domingo pareceu-se demasiado a essa quinta dos “mortos-vivos”, onde os “zombies” das portas giratórias conseguiram que na semana de todos os santos os vampiros do Partido Popular revalidem o seu governo. Agora é o tempo de conseguir na rua e nas instituições que o novo governo de Rajoy não se converta numa sequela do filme de terror que foi a sua última legislatura. De delimitar os campos políticos que o 15M tão bem desenhou nas praças quando assinalou a “alternância” do extremo centro, contestando intuitivamente as “instituições zombies” do regime de 78.

Neste momento de “polarizações”, é determinante compreender que a hegemonia no tabuleiro político não se disputa no centro mas nos seus extremos, no confronto antagónico entre a elite e o povo, entendida no seu mais estrito sentido de antagonismo de classes. Um confronto que é também uma janela de oportunidade não só para travar a sangria da perda de direitos, como um momento historico-político para ganhar mais direitos e inventar novas formas de democracia através da dinâmica de novas expressões políticas. Um momento inadiável para a recriação democrática, a redefinição das lógicas da representação e para a subversão de todas as regras do sistema social que nos trouxe a este enorme desastre.


Isabel Serra é deputada do Podemos na Assembleia de Madrid. Miguel Urbán é eurodeputado do Podemos. Artigo publicado no blogue Tomar Partido, do Publico.es. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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