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"PSD tem exatamente a mesma resposta do PS face à crise"

Após a reunião da Mesa Nacional do Bloco, Catarina Martins afirmou que o discurso do novo líder do PSD revelou "a grande fragilidade da direita neste momento", ao ser incapaz de se distinguir do PS na resposta ao aumento da inflação e perda de poder de compra dos salários e pensões.
Catarina Martins na conferência de imprensa deste domingo. Foto Manuel de Almeida/Lusa

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, realizada este domingo, os jornalistas perguntaram a Catarina Martins o que espera da recém-eleita liderança do PSD, que realizou este fim de semana o seu Congresso no Porto. A coordenadora bloquista não fugiu à regra de nunca comentar as escolhas internas de outro partido, mas afirmou ter ouvido o discurso feito horas antes por Luís Montenegro, que lhe pareceu evidenciar um "grande encontro de ideias entre o que defende o PSD e o que está a fazer o PS e António Costa" sobre o tema que mais preocupa a população portuguesa.

Tanto na política salarial face à inflação, como no controlo do preço dos bens essenciais, "Luís Montenegro não tem uma palavra a dizer porque concorda em absoluto com António Costa em manter os salários em perda face à subida dos preços", afirmou Catarina, apontando que essa "é a grande fragilidade da direita neste momento".

"Face à crise que as pessoas estão a sentir todos os dias na sua vida, a crise da inflação, o PSD tem exatamente a mesma resposta do PS: nem quer subir salários, nem quer controlar preços", prosseguiu a coordenadora do Bloco, concluindo que "quando se apresenta o mesmo programa, é difícil fazer oposição".

Questionada sobre o tema da crise governamental a propósito da escolha do local para construir um novo aeroporto, Catarina respondeu ser tudo aponta que o PS e o Governo continuam a querer fazer um aeroporto no Montijo, o que "é errado do ponto de vista económico e ambiental, mas é o que a Vinci quer". A coordenadora do Bloco diz que "António Costa parece estar à espera do conforto do PSD para avançar com o Montijo, que é a sua posição histórica. Foi o PSD que vendeu a ANA à Vinci, o seu ex-secretario geral José Luís Arnault é hoje o representante dos interesses da Vinci", recordou.

Governo é incapaz de responder à crise nos serviços públicos, à inflação e à pior seca dos últimos anos

No início da sua intervenção, Catarina resumiu os principais temas discutidos na direção bloquista e que constam da resolução política aprovada. Em primeiro lugar, a "incapacidade do Governo de responder às necessidades mais imediatas dos serviços públicos", a começar pelo encerramento de urgências hospitalares a que o país tem assistido e continuará a assistir nos próximos meses.

O Bloco acusa o Governo de não apresentar propostas para resolver o problema, propostas que o Bloco tentou negociar nos últimos Orçamentos e o PS recusou, como dar autonomia dos hospitais para contratar, um regime de exclusividade atrativo para os profissionais se manterem no SNS e o descongelamento de carreiras. "A política do PS está a transformar o SNS num pagador de serviços a privados em vez de ser um prestador de serviços de saúde de qualidade às populações", refere o texto do documento. Catarina Martins lembrou que no ano passado foram gastos 140 milhões para prestadores de serviços só em urgências e que o SNS gasta cada vez mais dinheiro com empresas privadas que fazem a colocação dos tarefeiros. Mas a Saúde não é caso único da incapacidade mostrada pelo executivo, como provam o "caos nos aeroportos", o "ano letivo que vai começar com menos professores para muitos alunos" ou os "atrasos na Justiça", prosseguiu Catarina.

A ausência de resposta à crise da inflação, com o Governo a recusar-se a controlar preços e aumentar os salários ao nível da taxa que está agora "bem acima dos 8%", também é motivo de forte crítica à governação da maioria absoluta do PS. "Calcula-se que as rendas da casa vão aumentar 5% no final do ano", afirmou Catarina, mas "não se conhece uma única medida do Governo para controlar a inflação ou fazer com que os salários possam responder à subida do custo de vida", contrapôs.

Outra das preocupações expressas na resolução política aprovada é o facto de o país atravessar a "seca mais grave dos últimos anos", que já é considerada maior que em 2005, ano em que o Governo decidiu medidas como limitar o abastecimento de água para consumo no Algarve. "Agora o Governo não toma nenhuma decisão sobre a seca", enquanto o Bloco propõe "medidas imediatas para garantir que a água potável vai para onde é necessária": em primeiro lugar, a gestão pública das albufeiras dos perímetros de rega públicos, "para defender os pequenos agricultores da agricultura intensiva que lhes está a tirar toda a água"; e em segundo lugar, tomar medidas no Algarve para garantir que não é cortada a água à generalidade da população, "por exemplo que os campos de golfe sejam regados com águas residuais", propôs a coordenadora bloquista.
 
O aumento da violência contra as mulheres em Portugal foi outro dos temas abordados, numa altura em que já foram 16 mulheres assassinadas este ano. "A igualdade existe na lei mas vivemos num país onde ser mulher é um perigo e as mulheres continuam a ser assassinadas pelo facto de serem mulheres", sublinhou Catarina, exigindo "respostas mais rápidas no terreno às vítimas de violência doméstica".

A cimeira da NATO e a luta pela Paz

No plano internacional, Catarina destacou que o Governo português "não teve uma palavra sobre o que aconteceu em Melilla, em que dezenas de imigrantes foram violentamente espancados e deixados a morrer ao sol pelas tropas de Espanha e Marrocos", tratando-se verdadeiramente de um "massacre" às portas da Europa. Por outro lado, a Cimeira da NATO desta semana ficou marcada pela "decisão terrível" do acordo entre Turquia e Suécia, que Catarina considera ser "dos registos mais cruéis" da cimeira realizada em Madrid. "A ditadura de Erdogan ataca o povo curdo e a Suécia aceitou", renegando décadas de uma política de direitos humanos enaltecida em todo o mundo e que se destacou por acolher este povo atacado e perseguido pelos estados que tentam controlar o seu território. Não só esses refugiados vão ficar sujeitos à ameaça de deportação, como a Suécia ainda promete retomar a venda de armas à Turquia que terá como alvo o povo curdo, apontou Catarina Martins.

Uma das resoluções em debate na Mesa Nacional deste domingo, intitulada "A paz nas mãos dos povos", centra-se nas questões da paz e da segurança na Europa e no mundo e começa por lembrar a posição do Bloco desde a sua fundação em 1999 de rejeição da inclusão da Federação Russa no sistema de segurança coletiva da Europa, em contramão com o que era defendido por boa parte da esquerda europeia na altura. "Na atual agressão imperialista à Ucrânia, Putin repete o padrão de barbárie que já tinha praticado na Chechénia, logo na viragem do século", refere o documento.

A análise à natureza da NATO enquanto "aliança agressiva no centro da estratégia imperialista de Washington", a defesa de um sistema de segurança coletiva mundial que tenha "a sua matriz na Carta das Nações e o seu eixo na Organização das Nações Unidas", a posição de abertura do Bloco "a uma cooperação de defesa europeia inter-estados", dependente "de um distanciamento face à NATO e do abandono de intervencionismos como o inglês, no Iraque, ou o francês, no Médio Oriente e em diversas regiões africanas" são alguns dos pontos desta resolução em que o Bloco reafirma a oposição ao alargamento da NATO e a defesa da saída do país desta aliança militar, com a consciência de que "a tarefa de virar a opinião pública contra a NATO para assegurar essa maioria parece hoje ciclópica e muito inoportuna", tratando-se de "uma longa batalha em que importa evitar o isolamento social".

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