You are here

Programas de rádio anti-vacinas ouvidos por milhões perdem apresentadores para a covid-19

Nos Estados Unidos, muitas rádios conservadoras apostam na desinformação na tentativa de obter mais audiência. Cinco conhecidos apresentadores anti-vacinas morreram de covid-19 nos últimos dois meses. Mas nem isso trava o fenómeno.
Estúdio de Rádio. Foto de  Dave Kleinschmidt/Flickr.
Estúdio de Rádio. Foto de Dave Kleinschmidt/Flickr.

É uma dimensão muitas vezes negligenciada dos meios de propaganda ultra-conservadores norte-americanos mas que convém ter em conta, dizem os especialistas. As suas rádios têm milhões de ouvintes por todo o país e a mensagem anti-vacinas tem ganho destaque nelas nos últimos tempos.

E nem as histórias de mortes por covid-19 de algumas das suas estrelas diminuem o fenómeno. Segundo o Guardian, pelo menos cinco conhecidos apresentadores de programas de rádio ultra-conservadores anti-vacinas morreram entre agosto e setembro nos Estados Unidos. O jornal britânico conta as histórias de Phil Valentine, do Tennessee, famoso por ter feito uma canção contra a vacinação intitulada “Vaxman”, de Marc Bernier, de Daytona Beach, na Florida, que se apresentava como “Mr Anti-Vax”, de Dick Farrel, também da Florida, de Bob Enyart que fazia campanha contra a vacinação e de Jimmy DeYoung, que sugeria que as vacinas eram uma “forma de controlo governamental sobre as pessoas”. Pelo menos dois deles terão mudado de opinião sobre o tema depois de terem ficado gravemente doentes.

O mesmo jornal ouviu Angelo Carusone, presidente da Media Matters, um observatório da comunicação social dos EUA, que considera estas rádios “uma força motriz” da desinformação anti-vacinas. Para ele, há muita atenção focada na Internet, nomeadamente no Facebook, mas “quando a poeira assentar, penso que o que vamos encontrar é que a verdadeira fonte de muitas das mensagens anti-vacinas mais danosas são os meios de comunicação sociais tradicionais: a rádio e as forças tradicionais de direita como a Fox News”. E se obviamente a estação televisiva concentra sobre si muita atenção, pela sua dispersão as muitas estações de rádio costumam escapar mais facilmente ao escrutínio. E aí, os números são claros: “a Fox chega a um par de milhões de pessoas por dia. A rádio chega a 40, 60 milhões dependendo do dia, talvez ainda mais”.

Para além disto, a diferença no tipo de mensagem também se faz notar. Na Fox News, muitas das personalidades de extrema-direita protegem-se não apelando diretamente a que as pessoas não se vacinem mas levantando dúvidas sobre o processo. A cobertura noticiosa deste canal é também cuidadosa, mas um relatório do Media Matters mostra em 60% dos casos incluem “alegações que colocam em causa ou menorizam a vacinação”.

O analista sublinha ainda a falta de regulamentação do setor das rádios. É preciso muito pouco para obter uma licença e não há grande supervisão. “No mínimo, penso que é um pouco louco que tenhamos permitido que todo o processo de obtenção de uma licença de emissão se tenha tornado um pro-forma, de tal forma que não interesse que os locutores estejam a morrer por causa da sua própria desinformação”.

Termos relacionados Internacional
(...)