You are here

A prisão de El Chapo Guzmán e as encruzilhadas do México

A prisão do narcotraficante “inimigo nº 1” dos EUA este fim de semana chama a atenção para o clima de violência, corrupção e impunidade no México. Artigo de Eric Nepomuceno, no portal Carta Maior.
El Chapo Guzman foi classificado como o 67º homem mais poderoso do mundo pela revista Forbes. Foto Alejandro Castro/Flickr

As informações são incertas, mas parece que lá pelas sete da manhã do sábado, dia 22 de fevereiro, foi preso, num desses hotéis de gosto duvidoso e que a imprensa mais apressada adora classificar de ‘luxuoso’ em Mazatlán, estado de Sinaloa, no litoral do Pacífico mexicano, Joaquín Guzmán, “El Chapo” Guzmán. Ele é considerado o narcotraficante mais perigoso do mundo e nos últimos muitos anos, de acordo com a lista de inimigos públicos número um de Washington, era o segundo homem mais procurado do planeta. Acima dele, só Bin Laden, que já foi assassinado. Ou seja, era ele, “El Chapo”, o maioral entre os inimigos dos Estados Unidos.



Ainda de acordo com as informações iniciais, um tanto confusas, ele foi localizado graças à cooperação entre os serviços norte-americanos e mexicanos de inteligência. Leia-se: foi localizado graças aos agentes norte-americanos que atuam com liberdade total em território mexicano. E foi dada à Marinha anfitriã a honra e glória suprema de prendê-lo, numa operação de rara eficácia, em que não foi disparado um único tiro.



Para o presidente Enrique Peña Nieto é uma notícia e tanto. Afinal, não é de hoje – nem de ontem – que o narcotráfico é um assunto presente e dominante na vida dos mexicanos, especialmente pela violência que provoca e alimenta. Agora mesmo, no Forum Económico Mundial que reúne em Davos, uma cidadezinha suíça, o glacê do bolo financeiro do planeta, Peña Nieto, que queria falar do seu país como o queridinho dos especuladores e investidores mundiais, sofreu o constrangimento de ter que responder a mais perguntas relacionadas a assassinatos e violência desenfreada que a potencialidades da economia mexicana.



E, quando de violência generalizada e ineficácia de políticas públicas para combatê-la se trata, há que se reconhecer que o México realmente é inovador.



O presidente anterior, Felipe Calderón, que governou o país entre 2006 e 2012, inovou: decidiu declarar guerra aberta aos narcotraficantes. Resultado: em seis anos foram mortas, só nessa vertente da violência desenfreada que encobre o país, umas 96 mil pessoas. As tropas militares (basicamente Exército e Marinha) que participaram das operações foram cooptadas e corrompidas pelos poderosos cartéis do tráfico. A Justiça, que já era bastante corrupta, passou a ser mais corrupta ainda, principalmente no interior. Da polícia, é melhor nem falar. E o comércio da droga continuou de vento em popa.



A estratégia empresarial dos cartéis mexicanos reiterou a sua alta eficácia: 80% do maior mercado consumidor do planeta, os Estados Unidos, continuam nas suas mãos. A logística sofisticada permanece impune, usando a América Central como corredor seguro para a droga que vem da América do Sul. E continua a prevalecer a velha fórmula desse macabro intercâmbio comercial: os norte-americanos põem as narinas, os mexicanos põem os mortos.



De alguns anos para cá – dois, três, timidamente no começo, de maneira bastante mais espalhada a partir de 2013 – a novidade da vez são as chamadas ‘autodefensas’. Assim são chamados grupos de milicianos que tomaram armas para enfrentar criminosos em geral e narcotraficantes em particular. Mais: assumem o controlo de cidades pequenas, impondo-se como lei e ordem. No estado de Michoacán, polo de violência desmedida, as ‘autodefensas’ já controlam pelo menos vinte municípios. Noutro estado, o de Guerrero, cuja cidade mais famosa – e violenta – é a estância balnear de Acapulco, elas também se espalham.



De acordo com os seus membros, essas milícias são a resposta à ineficácia das forças de segurança e ao poderio dos criminosos. Em Michoacán, por exemplo, atuam os Cavaleiros Templários. Por trás desse nome pomposo e com ares místicos abrigam-se narcotraficantes ferozes, que chegaram a controlar boa parte do estado. Os integrantes das ‘autodefensas’ de Michoacán ecoam o que dizem milicias de outras regiões: tanto o Exército como a polícia foram comprados pelos cartéis.



O governo, enquanto isso, diz que pretende organizar e formalizar as ‘autodefensas’, repetindo as ‘guardas rurais’ do começo do século passado.



Há versões desencontradas sobre o que está a acontecer. Em vários estados foi comprovado que boa parte das armas pesadas nas mãos dos milicianos vieram de cartéis rivais aos que estão a ser combatidos pelas ‘autodefensas’, que atuariam, assim, a seu favor. Em Michoacán, pólo principal das atividades das milícias, os Templarios dizem que as ‘autodefensas’ são, na verdade, um braço armado do cartel de Jalisco.



As milícias são integradas por cidadãos comuns e também por personalidades de relevo nas sociedades locais, em geral cidades de menos de cem mil habitantes. O médico, o farmacêutico, o fazendeiro mais poderoso, por exemplo.



São financiadas pelos ricos do lugar. E há indícios concretos de que algumas das multinacionais espalhadas pelo interior do México pagam quotas generosas para que os milicianos combatam os narcotraficantes, que costumam assaltar e sequestrar entre uma carga despachada para os Estados Unidos e outra, esperada da Colômbia ou de onde for.



Em inúmeras ocasiões foram apanhados em flagrante pelotões do Exército dando cobertura armada às ações das ‘autodefensas’. Os narcotraficantes, por sua vez, têm respondido com ações cada vez mais ousadas. Há alguns meses, deixaram meio milhão de habitantes de Michoacán sem luz, ao explodirem torres de transmissão de energia.



Diante disso tudo, o que faz o governo de Peña Nieto? Contempla. Ora diz uma coisa, ora diz outra. E enquanto isso, não faz nada. É como se houvesse uma resignação silenciosa: o Exército está coalhado de corruptos, as policias locais são uma corrupção só, os tribunais não funcionam. Ou seja: é quase como reconhecer a falência do Estado.


Eric Nepomuceno é jornalista, escritor e tradutor. Artigo publicado no portal Carta Maior.

Termos relacionados Internacional
Comentários (2)