You are here

A primeira vez dos novos deputados: Paulino Ascenção "Madeira era quase um regime de partido único"

O deputado Paulino Ascenção descreve ao esquerda.net a situação política da Madeira, como a sua eleição foi vivida na ilha e salienta os momentos mais marcantes que viveu como deputado, desde as eleições. Por Andreia Rodrigues.
Foto de Gregório Cunha/Lusa

Paulino Ascenção é um dos dezanove deputados que fazem parte do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda. O novo parlamentar diz que ainda está a aprender como ser deputado e a ambientar-se a um nova realidade, já que nunca se tinha imaginado a desempenhar tal papel. Quando questionado se alguma vez se tinha imaginado como deputado, responde:" era uma fantasia pueril". A fantasia começou a tomar contornos de realidade "a 4 semanas das eleições. Comecei a aperceber-me pela reacção das pessoas nas ruas e ai comecei a ficar preocupado com tudo o que ia mudar na minha vida".

O madeirense estudou na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra é natural de Porto da Cruz. "Eu sempre gostei da atividade política. Sempre votei no Bloco e antes na UDP ​ou no PSR. Sempre houve ali o bichinho, mas na Madeira é algo complicado fazer-se política. Especialmente se não se for do partido a favor do regime. Pois aquilo era quase um regime de partido único. Há problemas sérios para quem for contra e os camaradas do Bloco sofreram na pele forte e feio. Foram perseguidos pelas autoridades. No início inibiu-me um pouco. Também por causa da minha família, vários dos meus familiares trabalham para a administração pública regional. Houve algumas pessoas que tinham familiares que pertencem à administração regional e que sofreram retaliações, estes eram parentes de alguns políticos da oposição na Madeira. E também achava que não tinha perfil para a política. Mas este ficar de fora tornava-se cada vez mais incómodo, assistir ao rumo que o mundo tomou, cada vez mais injusto, mais desigual e perigoso e ao mesmo tempo ver meus os filhos a crescerem, o desejo de um mundo melhor para eles levou-me a abandonar a zona de conforto, ir à luta a querer fazer qualquer coisa para que as coisas mudem.”

Aquilo era quase um regime de partido único. Há problemas sérios para quem for contra e os camaradas do Bloco sofreram na pele forte e feio. Foram perseguidos pelas autoridades.

É o primeiro madeirense a ser eleito para a Assembleia da República pelo Bloco. "Foi incrível. Foi uma subida enorme em relação às eleições regionais e europeias". As eleições regionais, que deram a vitória a Miguel Albuquerque, do PSD, ocorreram em Março de 2015. Num intervalo de sete meses, na Madeira, o Bloco passou de cinco mil votantes para treze mil. Os valores quase triplicaram. Para Paulino, esta subida meteórica deveu-se a "uma combinação de fatores que permitiu que isso acontecesse. Houve a campanha da Catarina na televisão e foi a isso que as pessoas reagiram. As pessoas viam-na no jornal e na rua e diziam “Grande mulher!” e “Isso é que é!". Isto foi a nível nacional. Já a nível regional houve uma série de fatores que levaram ao crescimento do Bloco de Esquerda na Madeira em relação a partidos com mais história no arquipélago, como é o caso do PSD, PP e mesmo o PCP”.

O madeirense saltou para o palco da política nacional e já é presença em debates. Mas como é saltar da política regional para a nacional? "O salto foi mais de fora da política diretamente para aqui. Só tinha começado a ter atividade política na campanha de 2014; depois nas regionais e agora nesta campanha".

Paulino Ascenção estreou-se na Assembleia com uma pergunta ao governo de Passos Coelho, que teve o governo mais curto da democracia em Portugal. Nesta primeira intervenção, acusou o governo de manter uma relação de intimidade com o presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, com quem terá combinado um plano quem impôs "uma dupla austeridade" aos madeirenses.

Na primeira intervenção, acusou o governo de manter uma relação de intimidade com o presidente do Governo Regional da Madeira, com quem terá combinado um plano quem impôs "uma dupla austeridade" aos madeirenses.

Depois de 36 anos no poder, Alberto João Jardim abandonou a cadeira do poder regional da Madeira. O senhor que se segue é Miguel Albuquerque. Para o deputado Ascenção, mudou o presidente, mas não a forma de fazer política. "Existe uma diferença de estilos, de aparências. O discurso é mais urbano e respeitador, mas, no essencial, não mudou nada. Os poderes instalados são os mesmos, são os beneficiados das ações do PSD madeira. O fenómeno parlamentar neste grupo político só tem paralelo em regimes como da Coreia do Norte, onde existe uma sucessão dinástica. Ao Jaime Ramos pai sucedeu o Jaime Ramos filho".

A história do novo deputado começou a escrever-se no dia 4 de Outubro, o dia das eleições. Como novas eleições se aproximam, desta vez são as presidenciais, não podíamos deixar escapar este tema e perguntámos como vê a campanha presidencial e para quando um Presidente da República nascido e criado no arquipélago madeirense? "Esta campanha está muito desfocada no que é essencial, que é o debate político. Existe muito folclore. É o que acontece com o candidato favorito. Quando se entra na discussão política mais pura e dura, tem que se confrontar com as suas contradições e chuta para o lado. Vai despachando a campanha num tom folclórico. Para quando, não sabemos, mas é possível haver um Presidente madeirense. Já houve vários candidatos. Presidentes dos Açores já houve na primeira República, logo o primeiro. A Madeira não tem tido políticos a nível nacional. Alberto João Jardim tinha projeção nacional, notoriedade nacional, mas não era visto como alguém credível para Primeiro Ministro". No início, Jardim era visto como um dos presidenciáveis mas o seu nome perdeu "gás" e não faz parte dos dez nomes que se vão apresentar a votos no dia 24 de janeiro.

Considera que a adaptação à vida de deputado está a correr bem. Que o mais complicado é compatibilizar esta nova função com a vida familiar. A expectativa para este mandato são "as melhores. Este governo tem boas condições. A direita está num beco sem saída. O governo está a implementar um conjunto de medidas que vão ter repercussão daqui a uns tempos. Vai criar uma onda positiva que vai manter-se por bastante tempo. Claro que há riscos. Estes são externos e não são controláveis. A expectativa é alta".

A direita está num beco sem saída. O governo está a implementar um conjunto de medidas que vão ter repercussão daqui a uns tempos. Vai criar uma onda positiva que vai manter-se por bastante tempo. Claro que há riscos. Estes são externos e não são controláveis. 

Para definir o atual momento da política portuguesa, o deputado diz o seguinte: " Esta é dominada pelos interesses e o PS também é permeável a eles. Seria muito bom, à medida que a legislatura avançasse, que o comando das políticas mudasse". Que outros valores mais alto se levantem, outros valores para Portugal. O deputado do Bloco eleito pela Madeira, Paulino Ascenção, votou contra o Orçamento Rectificativo com solução para o Banif. Foi o único madeirense a fazê-lo.

A sua eleição "roubou" um deputado ao CDS-PP, na Madeira. É nas ruas, no meio do povo que Paulino Ascenção começa a sentir o "peso" do seu novo cargo. "Sinto-o lá na Madeira, onde sou conhecido. A reacção tem sido bastante positiva. As pessoas que se dirigem a mim são aquelas que estão contentes com o novo rumo. Vêm dar-me força e agradecer por aquilo que já fizemos e vamos fazer mais, de certeza".

A conversa com o novo deputado aconteceu numa tarde quente e soalheira de Janeiro, na sede do partido, junto ao Martim Moniz. O deputado faz parte das comissões de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa e de Economia, Inovação e Obras Públicas. A medida mais falada da Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa, presidida pela deputada do PSD, Teresa Leal Coelho, foi, até ao momento, a lei da penhora da casa própria. 5.900 famílias perderam a casa numa penhora por dívidas ao fisco. Esta proposta de lei foi apresentada por Paulino Ascenção. "É muito entusiasmante apresentar uma proposta da qual temos a noção que vai beneficiar a vida das pessoas. Ver essas medidas serem aprovadas dá outro gosto".

Sendo um dos representantes da nação, e tendo o poder de apresentar leis, perguntamos ao deputado o que mudaria se pudesse? "Tanta coisa! Garantir saúde; educação, tirar a canga da dívida das costas das pessoas. São tarefas ciclópicas. Mas havemos de chegar lá". São muitas medidas a tomar, mas existe muito tempo para as fazer. Passaram-se três meses desde que foi eleito deputado e o balanço que faz é o seguinte: "É muito positivo. Parte das medidas do programa de governo do PS foram já realizadas. São medidas que estão a sair do papel e a ter um efeito prático na vida das pessoas". Desses três meses de trabalho o momento que destaca é a votação da moção que confirmou a queda do governo. Depois desta votação, vários deputados juntaram-se à manifestação que estava a acontecer, em simultâneo, nas escadarias do parlamento. O deputado relembra que algumas pessoas estavam bastante emocionadas pelo novo tempo que se estava a criar.

Artigos relacionados: 

(...)