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A primeira vez dos novos deputados: Jorge Campos, "a política sem Cultura é um perigo"

Jorge Campos foi entrevistado sobre a sua experiência enquanto jornalista, no cinema e, agora, na Assembleia da República. Por Andreia Rodrigues.
Foto de Paulete Matos.

Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Santiago de Compostela, Jorge Campos é professor do Ensino Superior, cineasta, jornalista e programador cultural. Enquanto docente e investigador escreveu em diversas publicações. Como jornalista trabalhou na Imprensa, Rádio e Televisão, designadamente na RTP onde esteve 25 anos. Realizou documentários, quer em ambiente académico, em colaboração com estudantes, quer na RTP e, mais recentemente, em regime de freelancer. Da sua filmografia constam obras sobre figuras da vida e cultura portuguesas como Humberto Delgado, Martins Sarmento, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Nadir Afonso, Teixeira Gomes e Fernando Lanhas. Está a terminar um documentário sobre Mário Cláudio.

Filmou em regiões do globo como a Amazónia, Círculo Polar Árctico, Ilhas Galápagos, Brasil, Equador, Rússia, França, Noruega e Espanha. Trabalhos seus, quer de âmbito académico, quer do cinema e do jornalismo, foram premiados ou distinguidos. Membro de júris de vários festivais nacionais e internacionais fez igualmente parte de bolsas de jurados do Instituto de Cinema e Audiovisual. Programador do ciclo de Fotografia e Cinema Documental Imagens do Real Imaginado (IRI) da ESMAE e membro da equipa do DESOBDOC organizado pelo Bloco de Esquerda esteve à frente da área de Cinema, Audiovisual e Multimédia do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura onde deu corpo a uma programação que ficou conhecida como “Odisseia nas Imagens”.

Jorge Campos é um dos deputados do Bloco de Esquerda nesta nova legislatura. Nasceu no Porto, mas foi criado em Moçambique, na então Lourenço Marques, hoje Maputo. Foi aí que começou a interessar-se pela politica, ainda muito jovem por influência dos pais que mantinham relações de amizade com pessoas ligadas à oposição democrática como os poetas Rui Knopli e José Craveirinha e o pintor Malangatana, entre outros. Concluído o ensino secundário, foi para Joanesburgo, na África do Sul, onde ingressou na Universidade de Witswatersrand, no Curso de Economia.

Como correu essa experiência?

“Bem e mal. A experiência académica foi breve, um fiasco. Mas o campus tinha uma corrente progressista muito activa contra o apartheid, um excelente cine-clube e uma juventude que partilhava dos valores da contra-cultura. Isso foi bom. Foi então que descobri o jazz em incursões nos ghetos, de resto interditos a brancos. Nessa altura a maioria dos negros deixava a cidade branca por volta das 18 horas para regressar a casa nas periferias. Era arriscado. Mas também foi bom.”.

Como é que se fez jornalista?

“Após ter cumprido serviço militar, regressei a Portugal em 1973 e tive a sorte de encontrar trabalho em “O Comércio do Porto”. Era o que eu realmente queria fazer. Mais tarde, depois de concluído o Curso de Comunicação Social comecei a leccionar na Escola Superior de Jornalismo do Porto. O resto veio por acréscimo. Fiz um percurso profissional e académico em simultâneo. Dei aulas na Universidade do Porto, na Católica e no Politécnico. Na viragem do século virei-me inteiramente para o Cinema. A minha tese de doutoramento, aliás, é sobre cinema documental.”

Como é que um jornalista vira político?


“Sempre fiz política. Umas vezes mais às claras, outras vezes, nem tanto. Antes do 25 de Abril as coisas eram complicadas. Faço parte de uma geração muito politizada. Havia a guerra colonial, os direitos cívicos, seguíamos na medida do possível o que se passava no mundo, arranjávamos maneira de furar a censura, conspirávamos, enfim, sentíamos necessidade de afrontar um mundo que nos parecia injusto. No fundo era uma luta pela liberdade e democracia. Depois de Abril, andei pelo MES – O Movimento de Esquerda Socialista – e, depois, durante bastante tempo, militei no PCP. Guardo boas recordações. Agora, sou deputado independente pelo BE.”

Como se sente nessa nova função?


“Muito bem. Entre outras razões porque me bati sempre, desde há muitos anos, por soluções politicas num quadro de convergência das forças de esquerda. Até por isso a situação é tão estimulante. Certamente, difícil, mas sinto-me privilegiado por estar a viver este momento. Sinto que a democracia está a funcionar. A renovar-se. Espero poder dar um contributo positivo para que também na área das minhas competências possamos construir um país melhor.”

Contava ser eleito?

Não, não contava. Há muito que colaboro com o Bloco e inclusivamente já tinha estado em listas para eleições anteriores, designadamente para as eleições autárquicas. O Bloco é um espaço inclusivo onde posso expor as minhas opiniões e onde também aprendo muito. Além disso tenho lá muitos amigos e é bem sabido o quanto os afectos são importantes em política. Mas o que aconteceu não deixa de ser uma ironia. Depois de ter estado três anos à espera da minha reforma de professor universitário, eis que ela, finalmente, chegou. Comecei então a reorientar a minha vida para o Cinema. Tive de parar tudo. Só estive reformado três meses porque, entretanto, fui eleito. No lugar que ocupava a eleição era improvável. Mas é claro que uma vez eleito só me restava cumprir com a minha obrigação. Reitero, com gosto: nada arrependido.”

Fez muita coisa como jornalista?

"Fiz de tudo. Dos casos de polícia à crónica, da política ao desporto, da reportagem à entrevista. Comecei na Imprensa, passei pela Rádio e estive muitos anos na RTP. Cobri os mais variados assuntos. Fui delegado sindical, membro de comissões de trabalhadores, fiz parte de vários conselhos de redacção e fui vice-presidente do Sindicato de Jornalistas. Tive o privilégio de poder trabalhar com grandes jornalistas e com grandes nomes da cultura portuguesa, fiquei amigo de muitos, viajei por lugares distantes. Fui distinguido e premiado. Não posso queixar-me. Mas também não posso escamotear que tenho hoje uma ideia muito crítica do estado do jornalismo. Em muitos casos é simplesmente lamentável.”

Em 2003 colocou um ponto final no seu vínculo com a RTP. O seu último trabalho foi uma série documental, em sete episódios, sobre a indústria portuguesa.
 Tendo trabalhado tantos anos em televisão, como é que a vê no futuro?

"Não sei se daqui a dez ou quinze anos ainda teremos televisão tal como a conhecemos. Estou em crer que não. Vamos assistir a uma evolução vertiginosa e a televisão vai ser – aliás, já é – acessível em múltiplas plataformas e com uma vertente de interactividade porventura ainda insuspeitada. A produção de noticiais e de conteúdos será muito diferente. As redes estarão cada vez mais presentes. A entropia, também. Precisaremos de aprender a aprender continuadamente. Recusando a mercantilização. Valorizando ética e cidadania. É essa a função do ensino.” 


E o Cinema?

"Apesar de ser jornalista, o meu interesse principal foi sempre o cinema. Houve uma altura em que senti urgência em mudar de vida. A oportunidade surgiu e passei a leccionar exclusivamente unidades curriculares de Cinema. O cinema é uma prodigiosa ferramenta de relacionamento com o mundo"

Como está o cinema português?

"Temos que ter consciência do país que somos. O cinema português tem muita dificuldade em encontrar espaços para a sua difusão. A maioria das salas tem em cartaz filmes americanos. São raros os filmes europeus. E há filmes portugueses que nem chegam a estrear. Ainda assim, todos os anos se revelam novos talentos e há sempre filmes que não nos deixam ficar mal nos festivais internacionais. Pelo contrário. Também é assinalável o reencontro de um público interessado com o cinema de arte e ensaio. Por exemplo, no Porto, o António Costa tem feito um belo trabalho no Teatro do Campo Alegre. É apenas um exemplo. Há mais.”

Que tenciona fazer no Parlamento?

“Ser útil. Fiquei na Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, da qual sou um dos vice-presidentes. Estamos com uma série de matérias em mãos. Por exemplo, temos um projecto de lei que defende o alargamento de canais em sinal aberto na TDT. É uma questão que se arrasta há muito tempo. Se for aprovada, esta lei vai beneficiar 20% da população portuguesa que ainda não tem televisão em sinal aberto em boas condições. E vai alavancar mais produção portuguesa. 
Portugal é o país da Europa que menos canais tem na TDT. Gostava também de contribuir para ver asseguradas as condições de funcionamento das instituições do Estado ligadas à cultura. Do Cinema às Bibliotecas e Arquivos, do Teatro ao Património, Museus e Monumentos, enfim em todas as áreas. E gostava de contribuir para um estatuto do artista que tarda e cuja necessidade é premente. Depois de quatro anos de claustrofobia cultural há tanta coisa por fazer..."

A Cultura é assim tão importante?

"É o cimento identitário da democracia, habita o coração da política. A política sem Cultura é um perigo."

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