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A primeira vez dos novos deputados: Joana Mortágua, uma filha de Abril

O esquerda.net entrevistou Joana Mortágua. A jovem deputada descreveu o trabalho que há a desenvolver na área da ciência e educação, a sua visão relativamente ao trabalho parlamentar e falou sobre a influência que o seu pai, Camilo Mortágua, teve na sua atividade política. Por Andreia Rodrigues.
Foto de Carlos Santos/Lusa.

Joana Rodrigues Mortágua é uma das deputadas sensação do novo parlamento. Licenciada em relações internacionais, é na comissão parlamentar para a ciência e educação que se está a destacar. O fim dos exames no quarto e sexto ano de escolaridade ou a possibilidade da adopção de crianças por casais do mesmo sexo são duas das medidas com mais impacto aprovadas pelos deputados da Assembleia da República. Joana Mortágua nasceu no Alvito (Alentejo) a 24 de Junho de 1986 e é uma das novas deputadas eleitas pelo Bloco de Esquerda.

Foi em pleno parlamento, mais em concreto na sala Lisboa, que fomos encontrar a deputada para uma pequena conversa. Joana Mortágua nunca considerou como seu objectivo primordial a chegada ao parlamento mas considera a "casa da democracia" o sítio ideal para aqueles que querem mudar o rumo das coisas estarem. "Quando se está muito envolvido e se quer mudar muita coisa olha-se para o parlamento como um sítio privilegiado para mudar as coisas", contou Joana Mortágua.

Falando na lei da adopção, como reage a deputada ao recente veto por parte do, ainda, presidente da república?

Temos há dez anos um presidente que envergonha o país, que envergonha o progresso e que envergonha a modernidade. É um presidente que serviu única e exclusivamente para proteger a direita. Para proteger uma direita conservadora e para defender uma perspectiva ideológica muito dura.

"É uma vergonha. É uma vergonha e o mais frustrante é que é uma vergonha que não surpreende ninguém. Nós temos há dez anos um presidente que envergonha o país, que envergonha o progresso e que envergonha a modernidade. É um presidente que serviu única e exclusivamente para proteger a direita. Para proteger uma direita conservadora e para defender uma perspectiva ideológica muito dura. Que se vá embora e que feche a porta, mas deixa atrás de si um ataque aos direitos fundamentais", disse a deputada do Bloco de Esquerda.

Joana Mortágua foi eleita para a Assembleia da República nas últimas eleições legislativas do dia 4 de Outubro. A dirigente do Bloco era cabeça-de-lista pelo distrito de Setúbal (Sandra Mestre Cunha foi a segunda deputada do partido eleita pelo distrito). Qual foi a sua reacção quando descobriu que tinha sido eleita?

"Fiquei, obviamente, contente. Quando trabalhas para uma coisa, sentes a responsabilidade de ter sido eleita. Estás a encabeçar uma lista que representa um colectivo. Estar lá significa que foste eleita, internamente no Bloco, pelos teus camaradas, para integrar esta lista. O que é sempre uma grande responsabilidade e uma grande satisfação. A minha grande alegria nessa noite foi a eleição da segunda deputada por Setúbal. Foi um sinal de que íamos ter um bom resultado nas eleições e que o grupo parlamentar ia crescer, o que significa que o Bloco de Esquerda estava a crescer e que as pessoas estavam a começar a acreditar e a aderir às suas ideias", disse a deputada.

A jovem parlamentar está em funções há 3 meses e, quando questionada sobre o balanço dos últimos 90 dias, considera-o bastante positivo. "O balanço é muito positivo. Estou na área da educação e esta nova relação de forças no parlamento tem possibilitado fazer muitas alterações. O governo anterior, com o ministro Nuno Crato, foi bastante destrutivo. Já conseguimos fazer coisas tão simbólicas como acabar com o exame do quarto ano. Esta era uma promessa eleitoral do Bloco, um projecto do Bloco e já é uma realidade. É uma satisfação muito grande", disse Joana Mortágua. Quando se discutia a abolição dos exames no quarto e no sexto ano, a deputada teve uma resposta assaz interessante quando questionada por Nilza de Sena, parlamentar eleita pelo PSD. A suspensão do exame da quarta classe levou Mortágua a lembrar que a actual geração de deputados não fez aquela avaliação. Este exame era feito durante o anterior regime e voltou a constar no calendário dos exames nacionais durante o ministério de Nuno Crato.

Estando a trabalhar para a comissão parlamentar para a ciência e educação e tendo conseguido que os exames acabassem, o que falta fazer no
sector da educação?

Uma das nossas batalhas, que é das mais imediatas, é o ensino especial. Há lacunas enormes na educação dos alunos com necessidades educativas especiais. Existem meninos excluídos do direito à educação por falta de apoios. Esse foi o paradigma do Nuno Crato. Nós temos alunos com necessidades educativas especiais que não transitam para o secundário porque ai não há recursos para lhes dar os apoios de que eles necessitam.

"Há tanta coisa que é difícil falar apenas numa. Uma das nossas batalhas, que é das mais imediatas, é o ensino especial. Há lacunas enormes na educação dos alunos com necessidades educativas especiais. Esta é uma batalha gigantesca! Existem meninos excluídos do direito à educação por falta de apoios. Esse foi o paradigma do Nuno Crato. Nós temos alunos com necessidades educativas especiais que não transitam para o secundário porque ai não há recursos para lhes dar os apoios de que
eles necessitam. Não podemos continuar a deixar que o ministério atribua subsídios, com os nossos impostos, que beneficiem colégios privados que
funcionam ao lado de escolas públicas. As escolas públicas teriam a perfeita capacidade para acolher esses alunos que estão a ser prejudicados
pelo Estado. O desperdício de recursos públicos como forma de renda aos privados tem de acabar", defende Joana Mortágua.

Já passaram três meses. Faltam mais quatro anos. Quatro anos de muitos sonhos e expectativas. "Existem sempre expectativas. A minha expectativa corresponde à expectativa da maioria do povo português. Que nós tenhamos entrado num caminho sem retorno. Que vamos virar definitivamente a página da austeridade", é o que Joana Mortágua espera para os próximos quatro anos.

Um novo rumo que começou com a moção de censura que levou à queda do governo anterior, governo que implementou um conjunto de medidas de
austeridade. A deputada espera que nunca mais os portugueses tenham que trilhar o tortuoso caminho imposto pelo executivo anterior. "Que este seja
um caminho com esperança de recuperação e desenvolvimento de direitos", sublinha.

A antiga dirigente da associação feminista Acção Jovem para a Justiça e Paz, com sede em Coimbra, começou a envolver-se desde muito nova na luta pelos direitos sociais. A vontade de mudar o mundo fez com que participasse em diferentes movimentos.

Agora, aos 29 anos, é das deputadas mais jovens a ter uma cadeira no hemiciclo. Mas sendo tão jovem, acha que existe alguma espécie de preconceito contra os mais novos?

"Há sempre preconceito em todas as idades. Os jovens sempre tiveram um rótulo. Esta geração é um produto do seu tempo, como todas são. De um
novo tempo em que as formas de chegar aos jovens e a forma de fazer política têm que apelar a uma nova realidade da juventude, onde as novas tecnologias são uma realidade permanente. Já não se pode fazer política como se fazia ou chegar aos jovens da mesma maneira como se fazia há 20 ou 30 anos atrás". Os meios de comunicação social e os social media são dois dos veículos mais rápidos e eficazes para fazer-se circular uma ideia. Exemplos disso são a primavera árabe ou a manifestação do occupy wall street, que foi marcada por uma revista canadiana e teve como modelo as manifestações na praça Tahir, no Egipto.

Mas se a sociedade já não se encontra tão envolvida com a actividade política, como há anos atrás, a deputada acredita que isto aconteceu porque a política perdeu alguma credibilidade. Isto aconteceu devido aos interesses económicos instalados e a alguma corrupção que minou, em alguns aspectos, a credibilidade da democracia. O que levou os jovens a não se sentirem tentados a participar mais activamente na política. "Não desenvolvemos a democracia participativa tanto como gostaríamos, não temos um sistema de ensino desenvolvido para incutir nos jovens um tipo de inquietação. Não penso que seja uma geração conformista. Esta é uma
geração resultado do seu tempo, resultado da democracia que temos. Mas também é verdade que foi a minha geração que protagonizou os maiores movimentos de resistência à austeridade dos últimos tempos".

Não desenvolvemos a democracia participativa tanto como gostaríamos, não temos um sistema de ensino desenvolvido para incutir nos jovens um tipo de inquietação. Não penso que seja uma geração conformista. Esta é uma geração resultado do seu tempo, resultado da democracia que temos. Mas também é verdade que foi a minha geração que protagonizou os maiores movimentos de resistência à austeridade dos últimos tempos.

Esta geração irrequieta que vimos nas ruas de cartazes com palavras de ordem em punho ou nas redes sociais a marcarem marchas de protesto é a mesma a que os jornais apelidaram de "geração à rasca".

Joana Mortágua é irmã gémea da também dirigente bloquista, Mariana Mortágua. Joana e Mariana Mortágua são filhas de Camilo Mortágua, histórico activista revolucionário e membro fundador da LUAR. Mortágua foi um dos homens que esteve no grupo de Henrique Galvão que tomou o paquete Santa Maria. Durante o golpe, o navio ostentava na popa uma faixa com a inscrição “Santa Liberdade”, pintada à mão. Do mar para a Figueira da Foz, Camilo Mortágua e Palma Inácio tomaram de assalto a filial do Banco de Portugal na cidade. A operação rendeu cerca de 30 mil contos, uma fortuna para a época.

Será que o activismo do seu pai a influenciou de alguma forma na defesa das causas sociais?

"O meu pai não contava muitas histórias. Não sei o que me influenciou mais, se foi o activismo dele ou se foi a perspectiva que foi passando em casa, de que devemos ser inconformistas em relação a um conjunto de coisas que não estão bem na sociedade. Não podemos ver qualquer tipo de normalidade em coisas que estão mal, em coisas injustas como a pobreza ou o desemprego. Sempre me incentivou para perceber o que está errado", a deputada ainda relembrou que em casa sempre se falou sobre o que estava certo ou errado na sociedade.

Tendo um pai que marcou a luta contra a ditadura, será que se discute política à mesa de jantar ou esse é assunto proibido?

"É claro que se discute. Eu com o meu pai e com a minha mãe sempre discutimos política em casa. O facto de nunca nos terem escondido nada, mesmo sendo crianças, fez-me tomar consciência das coisas como são", relembrou Joana Mortágua.

Mas para explicarmos o presente, temos que recuar um pouco no passado. O gosto pela actividade política começou desde cedo. A sua ligação ao Bloco de Esquerda iniciou-se aos dezoito anos. "Desenvolvi todo o tipo de activismos desde muito nova, desde os meus 13, 14 anos. Tudo começou no ensino básico".

Foi durante esse período da sua vida que o bichinho da política nasceu e se desenvolveu. "Quanto mais te apercebes de um conjunto de injustiças, de um conjunto de dificuldades na sociedade, mais instrumentos queres ter". Esses instrumentos tornam-se mais poderosos quando se está próximo dos grandes centros de decisão, de um governo capaz de mudar leis. "Esse salto do activismo social para o activismo político/partidário, esse salto de consciência aconteceu porque mudar o mundo implica ter esses instrumentos de trabalho para poder despertar consciências". Quando falamos num despertar de consciências, passamos a olhar para a política de uma forma diferente.

Temos um governo do Partido Socialista apoiado à sua esquerda. Temos toda a determinação para que este governo cumpra aquilo com que se comprometeu e isso é nem mais uma medida de austeridade. E sabemos, isso está provado no orçamento, que no outro lado temos uma Comissão Europeia que não quer ver surgir nem uma ponta de alternativa num território que eles controlam. Querem que a austeridade seja uma realidade permanente na Europa. 

As últimas duas eleições (legislativas e presidenciais) demonstraram uma grande subida do partido. Mas qual é explicação para estes bons resultados? Para a deputada ainda vai ser preciso muito tempo para reunir os dados necessários para explicar a "onda" de apoio cada vez maior em volta do Bloco. "O Bloco está a conseguir adaptar a sua estratégia política a uma linguagem muito simples que as pessoas percebem mas sempre com a ideia de resistência presente", disse a deputada. " O povo tem um conjunto de direitos que são muito importantes e o Bloco conseguiu passar essa ideia mas com uma linguagem muito simples. As pessoas percebem e estabelecem relações de confiança com o nosso discurso, connosco e sabem que nós estamos lá para os defender", acrescentou.

Pela primeira vez na jovem democracia portuguesa existe um governo apoiado pela esquerda. A deputada vê este momento político com esperança. "Esperança mas com consciência absoluta das dificuldades. Nós temos um governo do Partido Socialista apoiado à sua esquerda. Temos toda a determinação para que este governo cumpra aquilo com que se comprometeu e isso é nem mais uma medida de austeridade. Apesar de toda a nossa convicção no cumprimento do acordo que permite ao Partido Socialista governar em minoria, no acordo diz que não pode haver nem mais uma medida de austeridade. E nós sabemos, isso está provado no orçamento, que no outro lado temos uma Comissão Europeia que não quer ver surgir nem uma ponta de alternativa num território que eles controlam. Querem que a austeridade seja uma realidade permanente na Europa. Para isso é preciso ter força, não só no parlamento mas também nas ruas, para conseguirmos contrariar esta chantagem europeia e conseguirmos avançar, conseguirmos que esta esperança se transforme numa realidade".

O sonho está, cada vez mais, a tornar-se numa consistente realidade.

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