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Pressionado, Bolsonaro não demite ministro da Saúde

Pressões de Legislativo, da Justiça e de ministros militares reverteram uma decisão cujo cenário já estava montado. Mas o fecho do comércio, das escolas e o distanciamento social que o presidente da República combate permanecem ameaçados, bem como o próprio ministro. Por Luis Leiria.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Foto de Marcello Casal Jr., Agência Brasil
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Foto de Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Bolsonaro tinha montado o cenário para demitir esta segunda-feira o seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Mas ao fim da tarde, quando O Globo já anunciava a demissão, a Folha de S. Paulo, mais cuidadosa, dizia que o presidente encarava a possibilidade de demiti-lo e a Veja adiantava que Bolsonaro desistira desse intuito, foi o próprio Mandetta que apareceu para dizer, em conferência de imprensa no Ministério, que permanecia no cargo. “Teve gente limpando gaveta, pegando as coisas. Até as minhas gavetas”, ironizou o ministro, afirmando que “nós vamos continuar, porque vamos continuar enfrentando o nosso inimigo, que tem nome e sobrenome, o Covid-19", concluindo com a frase grandiloquente: “Temos uma sociedade para lutar e proteger, médico não abandona paciente e não vou abandonar.”

As divergências de Bolsonaro com o seu ministro da Saúde são conhecidas: o presidente opõe-se à política de distanciamento social defendida por Mandetta, e que vem sendo aplicada pela maioria dos governadores dos estados brasileiros, mesmo os que se elegeram a cavalo da onda bolsonarista, como os de S. Paulo e do Rio de Janeiro. Bolsonaro desrespeita sistematicamente as normas de segurança sanitária mínimas, fala habitualmente com agrupamentos de 20 ou 30 pessoas que se amontoam frente ao Palácio da Alvorada para o adular, participa em manifestações, não cumpriu quarentena quando, no regresso da sua viagem aos EUA, 23 integrantes da sua comitiva fizeram teste positivo do novo coronavírus. E, mais grave que tudo, pretende o fim do isolamento, a abertura do comércio, defendendo, sem explicar como o faria, que o isolamento deve ser aplicado apenas aos grupos de risco, isto é, pessoas com doenças crónicas que as debilitam, e pessoas idosas.

Já Mandetta defende as normas da OMS e apoia as iniciativas dos governadores nesse sentido.

Fritura”

O conflito entre ambos explodiu quando o presidente, em pronunciamento pela rádio e TV, na noite de 24 de março, referiu-se à Covid-19 como uma doença quase inócua, “uma gripezinha, ou resfriadinho”, e afirmou que se o Brasil continuar com o “confinamento em massa”, e com o comércio, os estádios e as igrejas fechadas, as consequências serão muito piores.

A partir desse dia, Bolsonaro fez mais alguns ziguezagues, chegando a pronunciar novo discurso em tom mais conciliador, mas manteve as mesmas posições de fundo. E como o ministro se opôs a alterar as regras do dito “confinamento em massa”, o presidente passou a usar a já habitual tática da “fritura lenta”, não perdendo qualquer oportunidade para alfinetar o ministro.

No domingo, 5 de abril, o cenário para a demissão de Mandetta começou a ser montado. Bolsonaro referiu-se, sem citar nomes, a “algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, tem provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona”.

Osmar Terra: Bolsonaro queria-o para o lugar de Mandetta. Foto de José Cruz, agência Brasil
Osmar Terra: Bolsonaro queria-o para o lugar de Mandetta. Foto de José Cruz, agência Brasil

Na segunda-feira, a “hora D” de Mandetta começou a desenhar-se quando Bolsonaro convocou uma reunião com todo o governo para as 17h e almoçou com os quatro ministros que têm gabinete no Palácio do Planalto (o da Presidência), todos militares, levando consigo Osmar Terra, médico e deputado do MDB que já foi ministro do Desenvolvimento de Michel Temer e da Cidadania de Bolsonaro. Terra alinha-se com a política bolsonarista de acabar com o isolamento social. Mandetta chama-o de “Osmar Trevas”. Com razão: sobre o distanciamento social, Terra escreveu nas redes sociais que a quarentena aumenta os casos do coronavírus: “A curva da epidemia nos países que a adotaram mostra isso. Isso porque o contágio se transfere da rua para dentro de casa e fica mais fácil.” A ausência de um pingo de verdade nesta frase é estarrecedora. Tanto é que o próprio Twitter apagou este post e advertiu o autor por violar as regras da rede social.

Ao mesmo tempo, em reunião com integrantes do Ministério Público, o ministro da Saúde admitia não saber até quando permaneceria ministro da Saúde.

As pressões

A crónica da demissão anunciada de Mandetta começou a ser desmontada pelas pressões combinadas do Legislativo, do Judiciário e da opinião pública. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado fizeram saber ao governo que este iria ter muitos problemas caso a demissão se concretizasse. No subtexto das mensagens estava a ameaça de bloquear qualquer Medida Provisória do governo (espécie de decreto que entra imediatamente em vigor, mas que pode ser derrubado pelo Legislativo) e até a insinuação de que até se poderia dar seguimento a um dos vários pedidos de impeachment que já deram entrada na Câmara dos Deputados mas permanecem engavetados pelo seu presidente, Rodrigo Maia.

Já o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, fez chegar ao Palácio do Planalto que a demissão do ministro da Saúde seria muito mal recebida não só pelo tribunal, mas por diversos setores da sociedade. Nas semanas precedentes, em várias ocasiões a Justiça bloqueou medidas de Bolsonaro destinadas a minar a política de segurança sanitária do seu próprio ministro, mostrando que a margem de manobra do presidente, nesse assunto, é muito reduzida.

Bolsonaro também terá recebido o parecer negativo dos seus ministros militares, embora haja informações contraditórias. Enquanto a maioria dos órgãos de imprensa afirmam que estes defenderam a manutenção de Mandetta, O Globo informa que eles eram a favor da demissão, mas queriam outro ministro, não Osmar Terra.

No final, ficou o dito por não dito, o dia acabou sem que Bolsonaro falasse, e foi o próprio ministro que anunciou em conferência de imprensa que ficava no governo.

Golpe branco?

O que não significa o fim da crise. Já é mais que conhecida a instabilidade de Jair Bolsonaro. Em meados da semana, uma medida de reorganização de funções no interior do governo, que deu um papel de maior preponderância ao ministro da Casa Civil, general Braga Neto, nas conferências de imprensa sobre a Covid-19, foi interpretada como um golpe de estado “branco” da ala militar que teria retirado os poderes que restavam a Bolsonaro. O presidente permaneceria no cargo, mas sem apitar nada sobre o combate à pandemia. O último episódio mostra que Bolsonaro está muito pouco enquadrado pelos militares. Que mantém o seu comportamento errático e que, a todo o momento, acirrado por um dos filhos, pode dar o dito por não dito. Mais do que tutela dos militares, o que parece haver é uma crise permanente no governo, em ciclos de poucos dias.

Sondagem

Uma sondagem do Instituto DataFolha veio mostrar como é complexa a situação. Por um lado, o DataFolha mostra que 76% dos entrevistados aprovam a atuação do Ministério da Saúde, contra apenas 5% que a reprovam. Dezoito por cento consideram-na regular.

No geral, 51% acham que Bolsonaro mais atrapalha do que ajuda no combate à pandemia, contra 40% que pensam o contrário. Mas a aprovação de Bolsonaro foi para 33%, enquanto a reprovação está em 39%, e 25% consideram-na regular.

Isto significa que Bolsonaro, apesar de manter o seu exército de apoiantes fanáticos na faixa dos 30%, escolheu um mau tema para aplicar a sua política de ódio. A hostilização a Mandetta, um ministro que ele mesmo escolheu, um antes obscuro deputado do DEM pelo estado do Mato Grosso do Sul, foi um tiro no pé.

O isolamento em que caiu Bolsonaro pela sua política de minimizar a importância da pandemia é confirmado pelos sucessivos “panelaços” que se sucedem em ritmo praticamente diário. Na segunda-feira, quando chegou a primeira notícia da demissão, não confirmada depois, do ministro Mandetta, um “panelaço” ocorreu imediatamente em São Paulo.

A mesma sondagem mostra que o outro alvo dos ataques de Bolsonaro, os governadores dos estados que têm aplicado políticas de isolamento, como os de São Paulo ou do Rio de Janeiro e políticas de contenção mais moderadas, recebem um apoio médio de 58%, inferior ao de Mandetta, mas superior ao de Bolsonaro.

Cabe aqui um parêntesis. As medidas de isolamento social decretadas em S. Paulo e no Rio de Janeiro são apresentadas como “confinamento em massa”, mas, para os padrões a que estamos habituados em Portugal – que ainda poderiam ser bem mais restritivos – são tudo menos rigorosas. As fábricas, a construção civil, muitos serviços continuam alheios ao isolamento. De tal maneira que a prefeitura do Rio de Janeiro pediu às empresas que passassem a trabalhar por turnos para evitar as aglomerações que atualmente se produzem nas horas de ponta, como se afinal já houvesse a chamada “normalidade”. Nos ônibus (autocarros) cheios, nas barcas Rio-Niterói a abarrotar é completamente impossível manter a distância recomendada pela OMS. Nem 30 centímetros, quanto mais dois metros! Ao prefeito do Rio de Janeiro, o bispo Crivella da Igreja Universal, só lhe ocorreu a ideia dos turnos. Medidas como aumentar as frotas de ônibus ou barcas ou, o que seria o mais indicado, fechar mais atividades até que só funcionassem as estritamente essenciais, não passaram pela sua cabeça.

Panelaço em S. Paulo: "Acabou Bolsonaro!"
Panelaço em S. Paulo: "Acabou Bolsonaro!"

Dito isto, parece até milagre que a expansão da pandemia não esteja a ser mais rápida. Até à data em que escrevemos este artigo, havia no Brasil 12.056 casos confirmados de contaminação, com a ocorrência de 553 mortos e uma letalidade de 4,6%. (Clique aqui se quiser conhecer os números mais recentes).

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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