Precária há 15 anos

23 de February 2017 - 10:33

Há 15 anos que me contratam com o falso intuito de trabalho temporário, de cobrir necessidades pontuais.
E há 15 anos que me vejo a desempenhar tarefas de responsabilidade duradoura e vínculos laborais que são tudo menos pontuais.
 Por Joana Leite

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"Somos nós que temos respondido com coragem às necessidades emergentes de um país costurado por laços precários de trabalho escondidos sob o falso pretexto do recibo verde"
"Somos nós que temos respondido com coragem às necessidades emergentes de um país costurado por laços precários de trabalho escondidos sob o falso pretexto do recibo verde"

Sou arqueóloga, sou formadora, sou investigadora. Sempre trabalhei e há 15 anos que passo recibos verdes (em alguns dos casos trabalhando em simultâneo para duas entidades): 11 anos numa escola profissional, 7 anos como prestadora de serviços de arqueologia numa câmara municipal, sensivelmente 2 anos como investigadora de uma faculdade pública e 2 anos como formadora de uma instituição que devia zelar, mais do que nenhuma outra, pela justiça dos seus laços laborais.

Todas estas experiências profissionais estiveram sujeitas a um horário de trabalho, a uma hierarquia (trabalho subordinado) e ao usufruto das instalações/ recursos/ equipamentos das próprias entidades, pelo que o desempenho das minhas funções foi tudo menos "independente”.

Apesar de rodar nesta geringonça há quase duas décadas não me conformo e continuo perplexa com este sistema que nos tenta vencer pelo cansaço. É inacreditável a forma como este país nos trata. É inadmissível que assistamos a tudo em silêncio e se ouça apenas o eco mudo de um trabalho de milhares de trabalhadores que têm sido a força ativa de um país sem qualquer estabilidade laboral e altamente penalizados pela carga fiscal a que têm sido sujeitos.

Nós também alimentamos reformas, trabalhamos incansavelmente em vários projetos em simultâneo.
Somos nós que nunca deixamos de ser criativos e nos reinventamos. Não podemos adoecer, nem ficar desempregados porque trabalhamos à hora e os subsídios são raros, minguados e tardam.

Somos nós que temos respondido com coragem às necessidades emergentes de um país costurado por laços precários de trabalho escondidos sob o falso pretexto do recibo verde.

Como é que Portugal assiste com a desfaçatez de uma ignorância incomensurável a quem tanto tem contribuído?

Por Joana Leite, arqueóloga, formadora e investigadora