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Praga de gafanhotos agrava emergência alimentar na Etiópia

A praga de gafanhotos do deserto que afeta a região do Corno de África dizimou 200 mil hectares de plantações agrícolas na Etiópia. Alterações climáticas também contribuíram para a dimensão do problema.
Praga de gafanhotos afeta gravemente o Corno Africano, em especial na Etiópia. Fotografia por FAO/Sven Torfinn.

Pragas de gafanhotos do deserto (Schistocerca gregaria) não são novidade em África e no Médio Oriente. Contudo, a mais recente praga tem uma particularidade: a de ser a pior praga de gafanhotos nos últimos 25 anos na Etiópia e Somália, e a pior no Quénia nos últimos 75 anos, de acordo com a FAO (Food and Agriculture Organization das Nações Unidas).

Esta nova crise no Corno de África é particularmente grave na Etiópia, com um milhão de pessoas a ficarem em situação de emergência alimentar, segundo os números da FAO e do governo etíope. A destruição de mais de 200 mil hectares por esta praga causou uma perda total superior a 356 mil toneladas de cereais de sorgo, milho e trigo, tendo sido também afetada uma área de pastagem com cerca de 1,3 milhões de hectares. Antes do avanço desta praga, o último relatório do IPC (Classificação da Fase de Segurança Alimentar Integrada) estimou que na Etiópia cerca de 8,5 milhões de pessoas já se encontravam em grave insegurança alimentar, um número que tende a aumentar com o avançar da crise dos gafanhotos e com o Covid-19.

“Enquanto nos esforçamos para controlar os gafanhotos do deserto, é fundamental proteger os meios de subsistência das populações afetadas, especialmente agora que a situação é agravada pela crise da Covid-19”, disse Fatouma Seid, representante da FAO na Etiópia. Esta praga é a mais grave no Corno de África nos últimos 25 anos e provém originalmente do Médio Oriente, tendo também sido identificada no Sul do Irão e Paquistão, segundo a FAO. A crise pode estender-se a mais países desta região, já tinha avisado em fevereiro a ONU. Se não for travada a tempo, uma segunda vaga pode ser até vinte vezes pior, refere a ONU.

A praga avançou em direção ao Este africano, tendo sido identificada na Etiópia, Somália, Eritreia, Djibuti, Sudão e Sudão do Sul, Tanzânia, Quénia e Uganda. Foi ainda detetado um pequeno grupo de gafanhotos no Congo em fevereiro, o que não acontecia há 44 anos neste país. A leste, afetou o Iémen, o Omã, o Irão e o Paquistão.

O surgimento desta praga pode ter consequências devastadoras numa região já por si muito instável, causando danos em grande escala nas culturas agrícolas da região e, consequentemente, afetando a segurança alimentar de países sistematicamente atacados por crises humanitárias, conflitos armados, secas recorrentes, no qual também sofrem gravemente com o aumento do preço dos cereais.

Os enxames de gafanhotos podem voar até 150 quilómetros de distância por dia, o que significa uma grande mobilidade. Os gafanhotos do deserto vivem em média 3 meses e cerca de duas semanas depois de terem nascido uma fêmea consegue depositar aproximadamente 300 ovos. Em adulto, este inseto consome aproximadamente duas gramas em alimento fresco por dia, o equivalente ao seu próprio peso. Um enxame pequeno tem o potencial para comer a mesma quantidade de comida equivalente a cerca de 35 mil pessoas.

Enxame de Gafanhotos: como se formou esta praga e como as alterações climáticas a afetam

Esta espécie de gafanhotos prospera em locais áridos de África e do Médio Oriente, quando ocorrem fortes eventos pluviométricos que provocam a explosão de vegetação nestes habitats. No caso desta praga, em 2018 dois eventos ciclónicos afetaram o sul da península arábica (zona do Iémen e Omã) e criaram vários lagos temporários, o que permitiu a primeira eclosão destes gafanhotos. A braços com uma guerra civil, este florescer passou despercebido no Iémen. Quando estes lagos secaram e a sua vegetação deixou de florescer, estes gafanhotos (cujas populações prosperam a um ritmo veloz) deslocaram-se em enxame na procura de alimento. Em 2019, o controlo desta praga na região a norte (nomeadamente na Arábia Saudita, Egito e Sudão de um lado e a costa iraniana do outro, forçou a deslocação dos gafanhotos em direção ao corno de África. Em outubro passado, esta região sofreu chuvas intensas e pouco comuns para a época, e sofreu em dezembro outro fenómeno ciclónico, desta vez na costa somaliana. Estes eventos criaram as condições ideais para que as populações proliferassem novamente e sem qualquer controlo. Por isso, é possível criar uma ligação entre eventos extremos e raros nesta região e a proliferação desta crise.

A questão que se levanta é como é que estes fenómenos raros climatéricos se desenvolveram tanto em 2018 e em particular em 2019. A resposta encontra-se muito provavelmente ligada ao aumento da temperatura do ar, resultado das alterações climáticas, que interfere fortemente em fenómenos oceanográficos. Numa primeira fase, este aumento da temperatura ativa o metabolismo destes gafanhotos, levando a que comam mais, se tornem maiores e se reproduzam mais, o que por si só pode ser problemático.

Para além deste fenómeno, o aumento generalizado da temperatura do ar origina o aumento da temperatura dos oceanos e o desenvolvimento cada vez mais regular de fenómenos extremos, que por natureza são raros. Para o caso da região da Península Arábica, os eventos que afetaram a região (em especial em 2019) encontram-se relacionados com a fase positiva do Dipolo do Oceano Índico, que também influenciou os fortes incêndios e período de seca intensa na Austrália no final do ano passado e início deste ano, e os eventos de fortes chuvas descritos em África.

Estes fenómenos conjuntos, o aumento do metabolismo dos gafanhotos e o aumento da temperatura das águas encontram-se associados ao aumento da temperatura no ar resultante da atividade humana e consequentes alterações climáticas. Esta perturbação afetou a circulação oceânica, levando a alterações e desenvolvimento de fenómenos extremos, desencadeando assim uma sequência de eventos globais que culminaram nos incendios devastadores na Austrália, a Leste do oceano Índico,  e uma praga com dimensões que não eram vistas há décadas, a Oeste.

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