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Portugal viu encerrar 6500 serviços públicos no século XXI

Um levantamento feito pela agência Lusa junto de entidades locais conclui que as regiões do interior e do Norte do país foram as mais afetadas pela vaga de encerramentos.
Ofélia Marques é obrigada a empurrar a cadeira de rodas da filha ao longo de dez quilómetros numa estrada movimentada, desde que a extensão de saúde encerrou em setembro. Foto rederegional.com

No topo da lista dos serviços públicos encerrados estão as escolas, com 4492 estabelecimentos de ensino a fecharem portas desde o ano 2000. Seguem-se as juntas de freguesia, com o desaparecimento de 1168 devido à reforma do mapa das autarquias incluída no memorando da troika.

O distrito mais afetado pelos encerramentos de serviços públicos foi Viseu, com 707, seguindo-se Santarém (535), Porto (514) Aveiro (492), Viana do Castelo (460), Braga (452), Vila Real (439), Coimbra (435) e Bragança (420).

A seguir às escolas e às juntas de freguesia, as câmaras municipais e administrações regionais de saúde contactadas pela Lusa referem também o encerramento de 249 extensões de saúde, 9 blocos de parto e 104 outros serviços, que vão desde urgências a outras valências desaparecidas nos últimos 14 anos.

Uma das consequências do encerramento das extensões de saúde foi relatada esta semana no portal Rede Regional. É a história de uma mulher de Vaqueiros (Santarém) que se vê obrigada a percorrer 10 quilómetros a pé por entre o trânsito da movimentada Estrada Nacional 3, empurrando a cadeira de rodas da filha de 32 anos que sofre de paralisia cerebral desde a infância. "Não tenho outra hipótese, porque não tenho transporte para a menina. Às vezes, ainda me oferecem boleia, mas a cadeira dela depois não cabe nos carros", disse Ofélia Marques à Rede Regional, relatando o seu calvário desde que em setembro de 2013 foi encerrada a extensão na sua freguesia, obrigando-a a ir às consultas no centro de saúde em Pernes.

Correio, transportes, tribunais: a grande fuga do interior

O processo que levou à privatização de CTT começou pelo encerramento de postos de atendimento, tendo o país perdido 411 estações de correios, sobretudo a partir de 2002. Os acordos estabelecidos com as juntas de freguesia permitiram manter alguns dos serviços que antes eram prestados na estações entretanto encerradas pela administração da empresa.

Se o fim de muitas carreiras de transportes públicos nalgumas regiões do país contribuiu para o maior isolamento do interior, nos últimos anos perderam-se outras ligações importantes, como as que uniam por via férrea Beja à Funcheira ou, no Algarve, o fim de apeadeiros como o de São Marcos da Serra, que deixou 1500 pessoas dependentes das duas carreiras diárias de autocarros ou do transporte particular.

Nesta lista de serviços encerrados contam-se ainda 13 entidades de turismo, 22 centros de segurança social e 20 postos da GNR. Mas ainda não estão lá os 155 serviços públicos que o Governo pretende encerrar nos próximos tempos, como os 20 tribunais e a redução de serviços que afetará outros 27. À falta de números concretos por parte do Governo, também não estão aqui contemplados os futuros encerramentos das repartições de finanças, que o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos estima em 154.
 

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