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"Portugal tem que ser o lugar da diversidade e do respeito"

Com a metáfora de uma seleção nacional que é mais forte porque “tem todas as cores”, Marisa dedicou a sua intervenção no comício virtual de Almada à imigração e deixou uma promessa: “sempre que alguém vos disser 'vai para a tua terra', eu repetirei: bem vindo, esta é a tua terra”.
Marisa Matias. Foto de Ana Mendes.
Marisa Matias. Foto de Ana Mendes.

No comício virtual desta terça-feira, em Almada, Marisa Matias trouxe o futebol para a campanha. A candidata presidencial veio a jogo não propriamente para denunciar como “muitos poderes têm tentado usar o futebol como um instrumento político” ou como “houve muito quem quisesse utilizar o jogo mais popular em Portugal como uma rampa de lançamento de carreiras”. O que queria era usar o exemplo da seleção portuguesa de futebol e o que ela “diz sobre nós”.

O tema escolhido para esta noite de campanha era a imigração. E os insultos de André Ventura, que disse “volta para o teu país” a uma deputada nascida em Bissau "e que é uma portuguesa eleita deputada”, representam o mesmo que “o que o racismo diz a tantos imigrantes”: “a linguagem da agressão e do ódio”.

Para a candidata às eleições deste domingo, a seleção de futebol, como as equipas de vários outros desportos, “é a prova de que a nossa terra é de toda a gente” em que “não se escolhe um jogador por ser cigano ou não, ou por ser branco, ou negro, mas por ser um bom médio ou um bom avançado ou um bom guarda-redes”. É também assim “a prova da boçalidade do discurso da extrema-direita sobre a pureza racial: nós gostamos da seleção porque tem todas as cores e sabemos que assim é mais forte”.

A partir desta constatação, lembrou Ricardo Quaresma, cigano, que “quando marcou golos os racistas calaram-se caladinhos”, mas também Eusébio e Coluna, que “ninguém se lembrou de lhes dizer que deviam voltar para a sua terra e os racistas ficaram calados perante aqueles dois homens e perante outros como eles”. Ou ainda Éder: “Não me lembro de os racistas se terem atrevido a insultá-lo”, insistiu. E rematou: “Os racistas detestam esta seleção de futebol com todas as cores. E vivem neste drama: dizem que querem correr com os imigrantes para a sua terra ou falam dos bairros onde muitos deles vivem como covis de “bandidos”. Mas não se atrevem a dizer a metade da seleção de futebol que deve “ir para a sua terra” e ser expulsa de Portugal”.

Do outro lado da questão, Marisa Matias não podia esquecer que “a migração é a nossa história”. Milhões de “portugueses e portuguesas que fugiram da miséria ou da guerra e que foram fazer a vida” para vários países e também eles “ouviram o “vai para a tua terra” e continuaram a labutar”.

No final da sua intervenção a candidata deixou um “um agradecimento e uma promessa”. O primeiro dirigiu-o aos imigrantes que vivem e trabalham no nosso país: “Devemos-lhes imenso”, pelo seu esforço, uma vez que “contribuíram com 884 milhões de euros líquidos para a Segurança Social, pagaram quase dez vezes mais do que aquilo que receberam em subsídio de desemprego ou proteção social” e pelo que “os seus filhos nos ensinam nas nossas escolas, onde todas as crianças e jovens se juntam”.

No Portugal que tem de ser “lugar da diversidade e do respeito”, Marisa Matias terminou com a promessa: “sempre que alguém vos disser “vai para a tua terra”, eu repetirei: bem vindo, esta é a tua terra”.

Colocar a defesa dos trabalhadores em destaque

Daniel Bernardino, ativista e trabalhador no Parque Industrial AutoEuropa, tinha antes desta intervenção trazido outro tema em destaque na campanha de Marisa Matias, a defesa dos trabalhadores.

 

O sindicalista diz que apoia esta candidatura pela sua ênfase na luta pelas alterações das leis laborais da troika, contra a precariedade e os baixos salários. E dedicou parte importante do seu discurso aos “momentos muito difíceis para quem vive do seu trabalho” que atravessamos.

Marisa Matias está sempre ao lado dos cuidadores”

Através de um vídeo de apoio transmitido neste comício, Rosália Ferreira, cuidadora informal, explicou que não pode estar presente também porque “ser cuidadora é não ter tempo” e “cuidar é prioridade”, enfrentando-se “desafios enormes todos os dias”.

Mas não quis deixar de demonstrar o seu apoio a uma candidata que não esquece os que sofrem” e que “está sempre do lado dos cuidadores”, uma luta que, como Marisa Matias disse, “é uma das causas mais bonitas que conheceu”.

"Memória é uma arma de construção do presente e de semeadura do futuro"

Fernando Rosas recordou-nos que nestas eleições há um facto inédito: a primeira vez que a extrema-direita apresenta um candidato. Por isso, dedicou-se a apresentar os “principais traços dessa candidatura” que “trouxe à ribalta um bufão que faz do insulto o seu único argumento”, numa “campanha de ódio contra mulheres e imigrantes, contra a dignidade do trabalho” que também “escarnece da dor dos doentes, da angústia das famílias, do sacrifício dos trabalhadores da primeira linha” da saúde, violando diariamente as regras sanitárias.

O fundador do Bloco não poupou palavras, caracterizando a campanha da extrema-direita como a da “demagogia e da mentira torrencial”, que “explora o medo” e os “instintos primários do desespero e abandono”. E dedicou-se a mostrar as contradições de um candidato que se escandaliza com a situação sanitária mas defende a entrega da saúde a privados, que fala muito de corrupção mas trabalhou num “consultora especializada em dar cobertura à fuga ao Fisco e a depósitos em offshores”, que “insulta imigrantes que buscam refúgio no nosso pais mas foi consultor na empresa que ganhava dinheiro com os vistos gold atribuídos a imigrantes ricos, que fala da escola “mas esconde que defende a liquidação da escola pública”. Para Fernando Rosas, esse candidato é assim o “pregoeiro das pretensões da oligarquia neoliberal” e traça um perfil “ainda que grotesco da forma de autoritarismo que essa oligarquia prepara”.

O historiador disse ainda que a candidatura do “fascismo engravatado” “desafia Abril” e que, contra ela, “a memória é uma arma de construção do presente e de semeadura do futuro”. E, para terminar, questionou “como podem os democratas fazer face a esta nova face de obscurantismo?” Por um lado, Rosas pensa que o “delírio histriónico é como os balões: esvazia-se perante a realidade” e “esgota-se a si mesmo”, como aconteceu ao trumpismo. Por outro, “esperar passivamente” não é “boa solução”. A questão é começar a “responder já. E aí, a candidatura da Marisa Matias é parte dessa resposta. A candidatura “da força tranquila”, da “defesa de quem trabalha”, de “dar voz aos que habitualmente não a têm”, concluiu.

 

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