Porque SARS-CoV-2 causa doença grave nuns, noutros não? Equipa portuguesa mostra mecanismo

04 de August 2021 - 20:38

Uma alteração nos linfócitos T pode ajudar a prognosticar a gravidade da doença e ser “um novo alvo terapêutico” defendem os cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde numa investigação divulgada esta quarta-feira.

PARTILHAR
Análise de coronavírus em laboratório. Foto de Tom Wolf/Flickr.
Análise de coronavírus em laboratório. Foto de Tom Wolf/Flickr.

Uma investigação de cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) descobriu um mecanismo que pode explicar porque é que uma infeção pelo vírus SARS-CoV-2 pode causar uma doença grave num indivíduo ou ligeira noutro.

Este estudo, intitulado SARS-CoV-2 infection drives a glycan switch of peripheral T cells at diagnosis, foi financiado pela iniciativa pública Research 4 Covid e publicado na revista científica The Journal of Immunology. Já tinha, aliás, sido disponibilizado sob a forma de pré-publicação na plataforma medXiv. Centro Hospitalar Universitário do Porto e Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho colaboraram com ele.

De acordo com a investigação, uma alteração nos linfócitos T pode ser a explicação. O i3S, em comunicado lançado esta quarta-feira, esclarece que a investigação concluiu que os linfócitos T circulantes “trocam os seus glicanos [moléculas de açúcar] de forma específica após a infeção com o SARS-CoV-2”. Descobriu-se que essa alteração é “mais pronunciada” nos indivíduos assintomáticos relativamente aos que apresentam sintomas. Conclui-se portanto que “está assim identificada uma resposta imunitária, baseada em formas glicosiladas de linfócitos T, que confere proteção contra o vírus” e defende-se que a mudança no perfil de glicosilação na resposta imunitária depois da infeção “parece ser desencadeada por um fator inflamatório presente no plasma dos indivíduos”.

A investigadora principal do estudo, Salomé Pinho, salienta que esta “glico-assinatura” específica dos linfócios T, mais pronunciada em pacientes assintomáticos, “pode ser detetada no diagnóstico” e transformar-se num “novo biomarcador de prognóstico e de gravidade da covid-19, bem como um novo alvo terapêutico”. A mesma equipa também provou que nos assintomáticos as células mononucleares do sangue têm uma “expressão aumentada de uma proteína específica” que tem capacidade de reconhecimento eficaz do vírus. Os níveis de expressão em monócitos (células inflamatórias que pertencem à primeira linha de defesa) foram correlacionados com “um melhor prognóstico do doente”.

Estas descobertas podem ser aplicadas a outras doenças. Outros dos primeiros autores do estudo, Inês Alves e Manuel Vicente, pensam que o mecanismo “pode estar associado a outro tipo de infeções víricas respiratórias, o que abre novas oportunidades de investigação noutras doenças infecciosas”. Porém, a equipa do i3S mantém a precaução e diz que “ ainda está por desvendar na sua totalidade” qual o papel destes linfócitos e o seu papel para proteger longo prazo contra a reinfecção pelo SARS-CoV-2.