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Porque é que os modeladores climáticos mereceram o Nobel da Física

O Prémio Nobel da Física deste ano foi dividido entre Syukuro Manabe, Klaus Hasselmann e Giorgio Parisi. Enquanto Parisi é um físico teórico, os outros dois são modeladores climáticos cujo trabalho lançou as bases da nossa compreensão de como o dióxido de carbono iria configurar o clima. Artigo de Pushp Raj Tiwari.
Imagem NASA.

Este prémio não podia ser mais oportuno, pois o recente relatório do IPCC, baseado em modelos climáticos de ponta, afirma inequivocamente que os seres humanos já estão a influenciar muitos fenómenos climáticos e meteorológicos extremos em todas as regiões do globo.

Um modelo climático é um programa de computador concebido para simular o clima da Terra, a fim de compreender e prever o seu comportamento. Os modelos climáticos são em grande medida baseados num conjunto de equações matemáticas que descrevem as leis físicas que regem o comportamento da atmosfera e do oceano, e as suas interações com outras partes do sistema climático da Terra, tais como a superfície terrestre ou as camadas de gelo. (Pense em como o derretimento das camadas de gelo significa que menos energia do sol é refletida de volta para o espaço, causando assim mais aquecimento e mais derretimento e assim por diante).


Manabe e Wetherald previram com precisão o quanto o mundo iria aquecer quando a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera aumentasse. Johan Jarnestad / Royal Swedish Academy of Sciences / Manabe & Wetherald (1967), Journal of the Atmospheric Sciences

 

Na década de 1960, Manabe fez algumas das primeiras experiências de modelização climática para compreender como o dióxido de carbono poderia causar um efeito de estufa. Num importante artigo de 1967, ele, juntamente com o seu colega Richard Wetherald, mostrou como o aumento dos níveis de dióxido de carbono levaria a um aumento das temperaturas à superfície da Terra.

Os autores trataram a atmosfera terrestre como uma simples coluna unidimensional, e mostraram que se os níveis de dióxido de carbono duplicassem, as temperaturas globais aumentariam cerca de 2,3℃ - uma descoberta que é extraordinariamente semelhante às respostas dadas cinco décadas mais tarde por modelos informáticos de alta potência utilizados em relatórios do IPCC. Não admira que um inquérito realizado a cientistas o tenha considerado o estudo mais influente de todos os tempos sobre as alterações climáticas.

A investigação realizada por Hasselmann na década de 1980 mostrou como, apesar da variabilidade do tempo a curto prazo, os modelos climáticos podiam ser utilizados para prever tendências para as futuras décadas. Nos anos 1980 sabíamos pouco sobre estas tendências a longo prazo, mas agora, graças ao trabalho de Hasselmann e Manabe, podemos, por exemplo, afirmar que os anos 2030 irão provavelmente envolver mais ondas de calor, inundações e outros fenómenos climáticos extremos.

 O trabalho de Klaus Hasselmann ajudou a identificar que proporção do aquecimento global foi e não foi causada por atividades humanas. Johan Jarnestad / Academia Real das Ciências da Suécia.

 

Sendo eu próprio um modelador climático, sei que o trabalho deles tem contribuído para enormes benefícios para a humanidade, uma vez que fornece a base física sólida para o nosso conhecimento do clima da Terra. Já não podemos dizer que não sabíamos - os modelos climáticos são inequívocos e provaram repetidamente ser correctos.

A Terra está a aquecer (sim)? A causa é o aumento das quantidades de gases com efeito de estufa na atmosfera (sim)? Isto pode ser explicado apenas por factores naturais (não)? As emissões da humanidade são a razão do aumento da temperatura (sim)? Todas estas questões e mais algumas foram respondidas por estes modelos climáticos de vanguarda.

Estes modelos têm ajudado imenso à medida que os cientistas procuram compreender as alterações climáticas e antecipar os seus riscos. Forneceram a base para prever os impactos, orientar as decisões de adaptação e estabelecer objetivos de mitigação. Os últimos desenvolvimentos incluem cada vez mais detalhes do nosso sistema terrestre, fornecendo informações precisas para permitir uma tomada de decisão robusta face à rápida ampliação das alterações climáticas.


Pushp Raj Tiwari é investigador do Centro de Investigação de Física Atmosférica e Climática da Universidade de Hertfordshire, em Inglaterra. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

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