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A população israelita tem medo… mas apoia a repressão

Os ataques espontâneos com arma branca, faca de cozinha ou chave de fenda criam um efeito de emulação, apesar de se terem convertido em operações suicidas. As orientações do governo criaram um autêntico Far West. Todos disparam sobre tudo. Por Michael Warschawski
Jovens palestinianos após confronto com soldados israelitas em Ramallah, início de outubro de 2015

“Agora é a vossa vez de terem medo”. Dizia-me há dias uma jovem estudante palestiniana da Universidade de Belém, acrescentando: “Se eu fosse corajosa, também atacaria um colono ou um soldado, mas sou demasiado medrosa para estar disposta a morrer”…1

Os ataques espontâneos com arma branca, faca de cozinha ou chave de fenda criam um efeito de emulação, apesar de se terem convertido em operações suicidas: Netanyahu deu ordem de disparar a matar contra quem atacar um israelita. Convocando os cidadãos a saírem armados, e a utilizar as suas armas sem hesitação, Netanyahu quer dar a impressão de que tem uma resposta a este novo tipo de ataques, mas os resultados não estão a seu favor.

Tanto na Cisjordânia, como em Jerusalém ou inclusive no território israelita, os atentados prosseguem e as forças de segurança não podem fazer nada, já que os jovens, mesmo os muito jovens que atacam as pessoas que passam, não são dirigidos por nenhuma organização. O ataque pode vir em qualquer momento e de qualquer parte.

Discursos ameaçadores, atores repressivos

As orientações do governo criaram um autêntico Far West. Todos disparam sobre tudo: já houve polícias que dispararam contra outros polícias, alguns transeuntes israelitas foram feridos por balas perdidas, um imigrante eritreu foi linchado até à morte porque uns transeuntes o tomaram por um árabe…E a lista alonga-se em cada dia.

O medo de que falava esta estudante é tangível: à noite, as ruas estão vazias, os centros comerciais desertos, mesmo em Telavive que está afastada da linha de fogo e até em plena luz do dia as lojas do grande mercado de Mahame Yehouda em Jerusalém não vendem o necessário para subsistirem.

Para dar a impressão de que controla a situação, o Primeiro-Ministro não pára de pronunciar discursos ameaçadores e de prometer uma nova série de medidas repressivas. De momento, não conseguiu mais do que separar Jerusalém Oeste dos bairros palestinianos de Jerusalém Leste por muros e blocos de cimento, o que é bastante irónico para quem fez a campanha eleitoral acusando os seus adversários… de querer dividir Jerusalém! Na realidade, Netanyahu viu-se obrigado a impor um retorno ao statu quo sobre a Esplanada das Mesquitas e a reforçar o papel da Jordânia no lugar, para além até do que foi acordado entre o Rei Hussein e Moshe Dayan em 1967, o célebre “statu quo”.

Entre as medidas repressivas, deve-se mencionar também a ameaça de retirar a autorização de residência a dezenas de milhares de palestinianos de Jerusalém Leste que vivem nos subúrbios da cidade.

Uma minoria mobilizada pela solidariedade

A extrema direita no governo aproveita-se da situação para fazer novas propostas e redigir novos projetos de lei liberticidas, em particular contra a minoria palestiniana e os seus partidos políticos. Uma vez mais a deputada Haneen Zoabi é o alvo. A vice-ministra dos Negócios Estrangeiros Tzipi Hotovely decidiu percorrer o mundo para recordar que não há palestinianos e que Deus deu a Palestina ao povo judeu e só a ele…

As medidas repressivas têm o apoio da grande maioria da população israelita, com a oposição do centro-esquerda (“o Campo sionista”) a exigir mais ainda e a criticar o governo de não ser suficientemente firme. Uma centena de mortos palestinianos num mês, não parece que seja suficiente para Yitzhak Herzog…

Ainda que tenha havido manifestações que apelaram a mais moderação por parte do governo, a maioria do que era, há ainda 15 anos, o “movimento pela paz” prefere gastar a sua energia a celebrar o vigésimo aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin… Isto em vez de se juntar às mobilizações combativas da minoria palestiniana de Israel que, graças à unidade construída durante a última campanha eleitoral, multiplica as ações de solidariedade com os seus irmãos e irmãs da Cisjordânia.

Artigo publicado em Hebdo L’Anticapitaliste - 310 (05/11/2015). Traduzido por Faustino Eguberri para Viento Sur e por Carlos Santos para esquerda.net


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