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Poesia de Fernando Assis Pacheco editada num só volume

“A musa irregular – edição aumentada” é o nome do livro que vai, pela primeira vez, juntar toda a poesia de Fernando Assis Pacheco num único volume. Um autor que um dia escreveu que “é preciso que um dia a gente acorde para coisas que não sejam fúnebres.”

Com posfácio de Manuel Gusmão e edição da Tinta-da-China, o título desta coletânea repete o nome do livro de uma outra antologia publicada em 1991 por Assis Pacheco. A este, soma-se o livro de 2003 Respiração Assistida e uma série de outros poemas, alguns dispersos noutras fontes, outros que são inéditos. Estará disponível a partir de 15 de fevereiro.

Jornalista no Diário de Lisboa, República, O Jornal e Visão, entre outros, Assis Pacheco ficou famoso por ter participado no concurso televisivo Cornélia. Enquanto escritor, não se considerava como poeta, deixou-nos uma obra vasta como, por exemplo, Cuidar dos Vivos, Variações em Sousa, Walt, Os Trabalhos e Paixões de Benito Prada, Câu Kiên: Um Resumo, Memórias do Contencioso e Outros Poemas.

Foram também publicadas algumas das suas crónicas: as que escreveu para o jornal Record em 1972, Memórias de um Craque, e as que dizia na RDP entre 1977 e 1978, Tenho Cinco Minutos pra Contar uma História.

No próximo sábado, dia 2 de fevereiro, a RTP Memória transmitirá à meia-noite o documentário Saudade Burra feito em 2012 pelo seu biógrafo, Nuno Costa Santos.

Assis Pacheco dizia de si ser “um pasmado sem cura. Tudo me espanta, gramo a vida, quero morrer mais lá para o Verão”. Ainda sobre este tema, num poema pertencente ao livro Variações em Sousa, acrescentou a seguinte reflexão-história:

 

Ora uma vez um mocho diz o meu filho

que sabe todas as histórias do mundo

 

uma vez um mocho

o macaquinho pergunta-lhe

o que é quando se morre?

pois nada diz o mocho

morre-se praí

 

o macaquinho insiste

mocho e quando tu morreres?

morro nada diz o mocho

hás-de morrer tu primeiro

 

mas veio uma zorra e comeu o mocho

que foi para um buraco muito fundo

ninguém cantava nesse buraco

só os morcegos e mesmo esses

só se a gente lhes batesse

com uma vassoura da cozinha

 

o macaquinho come bananas

escapa-se ao jacaré do Amazonas

que lhe quer dar uma dentada

salta nas árvores

uma daquelas era onde estava o mocho

 

coitado do mocho

não viu a zorra ao pé da carvalheira

morre-se praí

morre-se num instantemente de nada

 

morre-se a morte mocha

sem a gente dizer ai

Num instantemente de nada, Assis Pacheco morreu a 30 de novembro de 1995. À porta de uma livraria. A edição da sua poesia completa e o documentário sobre a sua vida renovam o apelo a uma poesia a que a morte mocha não retirou sentido.

Noutro poema, escreveu:

 

Mas é preciso que um dia a gente acorde

para coisas que não sejam fúnebres.

Para grandes e miúdos entusiasmos,

para lutar (se houver de ser) nos cornos do boi.

É preciso que um dia a gente se acenda.

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