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Pinhal de Leiria de novo ao abandono motiva demissão em Observatório

Dois anos após o incêndio que devastou 90% do Pinhal de Leiria, o Observatório que acompanharia a sua recuperação não reúne há meio ano. O engenheiro agrónomo Ricardo Vicente demitiu-se, denunciando a falta de apoio do governo e o abandono da mata.
Floresta ardida. Foto de Paulete Matos.
Foto de Paulete Matos.

Ricardo Vicente, um dos membros do Observatório Pinhal do Rei, criado pelo governo para responder aos incêndios de 2017 que destruíram a maior parte do Pinhal de Leiria, demitiu-se por considerar que este não está a cumprir a sua missão e a mata está de novo ao abandono.

Na carta de demissão, o engenheiro agrónomo reconhece que o Observatório foi criado com os melhores objetivos — acompanhar os trabalhos de planeamento e recuperação da mata e divulgar periodicamente os resultados — mas não está a consegui-los "ao nível da sua coordenação e, também, ao nível do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas" (ICNF), onde considera que "não há vontade política para que esta instituição responda aos seus compromissos".

Ricardo Vicente critica a falta de reuniões do Observatório, que deveria reunir todos os meses: "a última reunião do Observatório foi a 11 Dezembro de 2018. Há meio ano que não reunimos e já estamos em período de risco de incêndio". Nessa altura, o Observatório enviou um parecer técnico ao ICNF, do qual nunca obteve resposta. Manifesta também "indignação" por não ter sido cumprida a "decisão tomada por unanimidade em reunião do Observatório, para envio do nosso parecer a todos aos executivos das Câmaras Municipais e Assembleias Municipais das áreas abrangidas pelas Matas Litorais ardidas". A Assembleia Municipal da Marinha Grande chegou a pedir diretamente o Parecer, que também não foi enviado.

Foi apenas após pressão parlamentar, quando o Bloco de Esquerda fez uma pergunta ao governo sobre o assunto, que o INCF acabou por divulgar o parecer do Observatório e um relatório científico sobre a mata de Leiria. Vicente considera uma "falta de consideração" que o ICNF não tenha notificado os membros do Observatório, e que não tenha dado "qualquer resposta relativamente às sugestões que realizámos". Mas passado um mês e chegado junho, "nem estes acontecimentos parecem ser suficientes para que o Observatório volte a reunir". Sobram críticas ainda ao Ministro e ao Secretário de Estado da Agricultura e Florestas, que "vieram à Marinha Grande um ano após os fogos apresentar o Relatório da Comissão Científica" e "solicitaram-nos a emissão de um Parecer em poucos dias".

Em declarações à TSF, Ricardo Vicente explicou que nem nos 10% da mata que não ardeu "o Estado conseguiu garantir, através do Ministério da Agricultura, uma intervenção decente. Continuam plantas invasoras como os eucaliptos com uma densidade e altura elevada, o que indicia um elevado risco de incêndio". Na zona que ardeu, identifica também "uma progressão das plantas invasoras que estão a ocupar espaço e que dentro de alguns anos estarão prontas a arder num novo ciclo de fogo". Vicente manifestou esperança de que a sua demissão sirva de alerta para o abandono da Mata Nacional de Leiria.

Termos relacionados Incêndios florestais, Ambiente
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