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Pinhal de Leiria com muito por recuperar dois anos depois

A recuperação do Pinhal de Leiria, consumido quase totalmente por um incêndio há dois anos, marca passo e gera divergências. Em comissão parlamentar, o agrónomo Ricardo Vicente e a autarca da Marinha Grande Cidália Ferreira concordaram numa coisa: muito está por fazer.
Floresta ardida. Foto de Paulete Matos.
Foto de Paulete Matos.

Destruído em 90% por um incêndio em 2017, o pinhal de Leiria, também conhecido como Pinhal do Rei, alimenta controvérsias sobre a sua recuperação. Esta quarta-feira houve depoimentos e opiniões díspares sobre o assunto na Comissão de Agricultura e Mar do parlamento, convocada por requerimento do Bloco de Esquerda e do CDS-PP.

Ricardo Vicente, engenheiro agrónomo que se demitiu recentemente do Observatório criado pelo governo para o pinhal, denunciou hoje que muita da madeira ardida continua em pé, o que a desvaloriza e propicia a propagação de pragas florestais. Vicente afirmou aos deputados que permanência de pé desvaloriza estas madeiras, que já deviam ter sido cortadas porque não há impedimentos ao corte: "O facto de não ser cortada e não ser acompanhada torna esta mata num grande risco de propagação de pragas florestais, colocando em risco a parte que não ardeu e as ações de reflorestação dos jovens pinheiros". Do ponto de vista técnico, aclarou, o corte só não deve ser feito na parte mais próxima do mar, onde as madeiras servem para reforço dunar.

Vicente denunciou também a falta de manutenção do pinhal, em especial nos 10% de área que não ardeu, que está repleta de espécies invasoras: "existe um mato de plantas invasoras com cerca de três metros", alertou, que constitui "material lenhoso que aumenta o risco de incêndios". "É inaceitável esses 10% estejam por salvaguardar dois anos depois", frisou.

Questionado sobre a sua demissão há duas semanas do Observatório Pinhal do Rei, Ricardo Vicente reiterou os motivos que já afirmara na carta de demissão: "desconsideração" para com o Observatório do governo e do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), e falta de reuniões regulares, que o esvaziou de utilidade. O Observatório, recordou, elaborou um parecer "muito relevante" a pedido do ministro da Agricultura e Florestas, cujas propostas ficou sem saber se foram acolhidas; e a partir dele o ministério elaborou um relatório final sobre a situação no pinhal sem consultar o Observatório. Só após uma pergunta ao governo interposta pelo Bloco de Esquerda o INCF divulgou estes documentos.

Mais tarde depôs na mesma comissão a coordenadora do Observatório Pinhal do Rei, e também presidente da Câmara Municipal de Marinha Grande, Cidália Ferreira (PS). Salientando que respeita a decisão pessoal de demissão de um dos membros, mas que não a "valoriza um pedido entre mais de 30 membros", justificou a ausência de reuniões do Observatório com as dificuldades de agendas para reunir todos os membros. Enumerou também as ações que a autarquia e o Observatório realizaram após os incêndio, dizendo-se "tranquila, mas não satisfeita porque não se vê" o território do pinhal "da forma que gostaria".

Segundo a agência Lusa, a autarca emocionou-se perante os deputados ao descrever o estado do Pinhal, mesmo reconhecendo que não se poderia reflorestar em quatro anos um espaço com séculos de história: "é uma tristeza enorme não ter estradas abertas, mas é assim pela segurança das pessoas que ali nos visitam. É uma tristeza enorme em atravessar o ex-libris do nosso país e ver como está”.

Termos relacionados Incêndios florestais, Ambiente
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