Piménio Ferreira sobre as comunidades ciganas em Portugal

20 de July 2017 - 15:59

O projeto de media independente É Apenas Fumaça conversou com Piménio Ferreira, engenheiro físico e ativista cigano. Por que existe tanta ciganofobia em Portugal e como combatê-la são as questões que norteiam a entrevista disponível em podcast.

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Piménio Ferreira sobre as comunidades ciganas em Portugal. Foto de http://apenasfumaca.pt/.
O ativista também fala dos “mitos” da meritocracia e da democracia racial, da pobreza e da fragilidade da “integração” que é sempre “precária”. Foto de http://apenasfumaca.pt/.

O É Apenas Fumaça é um projeto de media independente, “onde se fala sobre a sociedade com quem quer falar sobre ela”. Esta semana, Maria Almeida e Ricardo Ribeiro entrevistaram Piménio Ferreira, engenheiro físico e ativista cigano – o podcast da entrevista está disponível aqui.

Começando por referir os casos recentes de discriminação racista e perseguição agravada de várias comunidades ciganas, em diferentes localidades do país, perguntam: “Mas porquê? Por que é que existe tanta ciganofobia em Portugal?”

Estas são as questões que norteiam a entrevista ao ativista Piménio Ferreira, cujas respostas são também um guia para conhecer melhor a condição e a heterogeneidade das comunidades ciganas portuguesas, e compreender que estas “não se auto-excluem”, antes estão votadas à “marginalização e à estigmatização”, pela sociedade e pelas instituições do Estado.

“Nenhuma comunidade se auto-exclui”


Piménio Ferreira começa por explicar que a condição de “nómadas”, muito associada às comunidades ciganas, resulta sobretudo das circunstâncias históricas de uma perseguição constante, ao longos dos tempos e nos vários territórios da Europa.

Referindo ainda que, em Portugal, existem registos de comunidades ciganas desde o século XV, o ativista disse que o último levantamento oficial indica que há 37 mil pessoas nas atuais comunidades, embora este número seja muito inferior à realidade. A discrepância dos números deve-se, explicou, ao desinteresse por um conhecimento sério da realidade das famílias ciganas. Além disso, por exemplo, os números da Segurança Social "não são fiáveis" pois, como referiu, esta instituição contabiliza, muitas vezes, apenas as pessoas que estão a receber Rendimento Social de Inserção (RSI), numa determinada localidade.

Na entrevista, Piménio Ferreira também falou sobre a sempre revisitada questão da “integração” e explicou que “nenhuma comunidade se auto-exclui”, pois o efeito é o contrário, ou seja, é o da “marginalização”. “A sociedade portuguesa já é intercultural, inclui pessoas ciganas, afro-descendentes, imigrantes”, disse, acrescentando que “quem se exclui e se coloca à parte é quem recusa esta evidência e se esconde nos seus condomínios privados, nos seu espaços de privilégios, de poder e relevância”.

Quando os jornalistas perguntam: “Então de onde vem esta ideia de que é a comunidade cigana que se auto-exclui?”, Piménio argumenta que tal perceção “vem de uma sociedade que não quer admitir que é culpada da marginalização de todas as comunidades não-brancas”.

Na entrevista com Piménio Ferreira são abordados inúmeros temas ligados à situação das comunidades ciganas portuguesas que, segundo este, têm de ser referidas assim mesmo, no plural, pois o que as caracteriza é a heterogeneidade e “nem podemos sequer falar de uma só comunidade cigana”. A diferença entre estas, acrescentou, resulta também dos próprios graus de marginalização, “que dependem da localização geográfica ou dos processos sociais e históricos” que vêm determinando a vida dessas pessoas e a sua relação com o resto da sociedade.

O ativista também fala dos “mitos” da meritocracia e da democracia racial, da pobreza e da fragilidade da “integração” que é sempre “precária”, do RSI e da “manutenção da pobreza” feita pela Segurança Social, da situação dos bairros sociais, da baixa escolarização, sobretudo das mulheres, dos casamentos, do “machismo que afeta todas as mulheres e, claro, também as mulheres ciganas”, da chamada “lei cigana” e do seu significado, da comunicação social que insiste na estigmatização e na prevalência do negativo, das reportagens e dos comentadores que promovem a ciganofobia, da falta de visibilidade das boas histórias e das pessoas ciganas que têm presença nos movimentos sociais…

A realidade complexa das comunidades ciganas portuguesas preenche esta longa entrevista.