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Petróleo dispara após ataques na Arábia Saudita, reservas mobilizadas

Preço do petróleo disparou na reabertura dos mercados após ataque que cortou a produção petrolífera saudita para metade. Em Portugal, ENSE afirma que o país dispõe de reservas para colmatar carências. Mas preços nas bombas devem subir dentro de semanas.
Imagem do governo americano que identifica danos na refinaria de Abqaiq, um dos alvos de ataque de sábado. Foto: Governo dos EUA/DigitalGlobe/EPA/Lusa.
Imagem do governo americano que identifica danos na refinaria de Abqaiq, um dos alvos de ataque de sábado. Foto: Governo dos EUA/DigitalGlobe/EPA/Lusa.

O corte para metade da produção petrolífera da Arábia Saudita, na sequência de um ataque aéreo com drones a duas refinarias no sábado, desencadeou esta segunda-feira uma alta de preços nos mercados petrolíferos e já levou Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE), a declarar que o país está pronto a mobilizar as suas reservas estratégicas de petróleo caso haja necessidade. Mas dentro de algumas semanas, os efeitos devem sentir-se em preços mais caros nos postos de combustível nacionais.

Na manhã desta segunda-feira, com a reabertura dos mercados financeiros após o fim de semana, a notícia do ataque às refinarias sauditas de Abqaiq e Khurai fez disparar os preços de petróleo. Ao abrir a manhã, o preço do barril de Brent, um dos índices de referência no comércio mundial de petróleo, disparou 19% para 72 dólares, o maior aumento num só dia desde 1991, quando os EUA iniciaram a primeira guerra do Golfo contra o Iraque de Saddam Hussein. Nas horas seguintes a escalada atenuou-se, mas ao fim de manhã o barril de Brent ainda estava 10% mais caro que no final da semana passada.

A escalada dos preços do petróleo reflete as perturbações que o corte temporário para metade da produção saudita provoca no abastecimento mundial, que ainda não é claro quanto tempo durará. Mas também reflete, talvez até mais, os receios dos investidores de que o ataque de sábado inaugure uma nova era de instabilidade no Médio Oriente. Uma era onde, para além dos atores estatais habituais, como a Arábia Saudita ou o Irão, se juntam agora guerrilhas com acesso a novos meios armados capazes de fazer grandes estragos, como terá sido o caso dos rebeldes Huthis do Iémen, que reivindicaram os ataques de sábado.

Do Iémen até ao local dos ataques distam cerca de mil quilómetros, que os drones terão conseguido atravessar sem ser intercetados no espaço aéreo saudita, mesmo dispondo os sauditas do sistema norte-americano de defesa antimissil Patriot. Meios com este alcance e capacidade até há pouco só estavam nas mãos dos exércitos mais apetrechados. Os EUA aliás continuam a acusar o Irão como o verdadeiro responsável pelos ataques de sábado, desvalorizando a reivindicação dos Huthis e os desmentidos iranianos. Mas a questão de fundo mantém-se: os drones e outros meios sofisticados de ataque estão a democratizar-se, a chegar às mãos de guerrilhas e outros grupos armados não-estatais, o que pode tornar os conflitos armados por todo o mundo mais disruptivos.

Os rebeldes Huthis avisaram de novo esta segunda-feira que mais ataques virão se a intervenção saudita na guerra civil do Iémen não acabar. Segundo a Agência Lusa, Yahiya Saree, porta-voz dos rebeldes, afirmou na televisão Al-Massirah que "temos um longo braço que pode atingir qualquer local a qualquer momento", e aconselhou Riade a "rever os seus cálculos e pôr termo à sua agressão e bloqueio contra o Iémen". Aconselhou ainda os cidadãos e empresas estrangeiros as evitar instalações petrolíferas sauditas, pois estas continuam "na linha de fogo".

Numa tentativa de acalmar os mercados, os EUA e a Rússia enfatizaram que há no mundo reservas suficientes para colmatar o corte de produção saudita até que este seja ultrapassado. De manhã, Donald Trump afirmou que autorizou o recurso às reservas de petróleo americanas, "caso seja necessário" para estabilizar os mercados energéticos, e afirmou que os EUA estão "carregados e prontos" para defender o espaço aéreo saudita e responder a quaisquer ataques.

Entretanto, em Portugal o regulador nacional também interveio. A Entidade Nacional para o Sector Energético (ENSE), em comunicado desta segunda-feira, informou que Portugal "dispõe de reservas estratégicas que podem ser mobilizadas", mais concretamente "538,1 mil toneladas de crude em reservas físicas e 373,5 mil toneladas em tickets que representam direitos de opção sobre crude armazenado em Portugal e noutros países da UE". Estas reservas "estão à disposição da ENSE para mobilização imediata, caso se entenda necessário". A ENSE não prevê que venha a haver ruturas do lado da oferta, dada as garantias norte-americanas e um aumento provável a curto prazo da produção dos países da OPEP, para compensar a baixa saudita. No entanto, os combustíveis em Portugal deverão ficar mais caros dentro de semanas, avisa a ENSE: "poderá registar-se no curto prazo uma subida das cotações grossistas que terão efeito nos preços dos combustíveis nas próximas semanas".

Já durante a tarde, o secretário-geral da Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas (Apetro), António Comprido, afirmou à Agência Lusa que "não vai haver nenhuma tragédia em termos de subida do preço dos combustíveis", que a acontecer será "na ordem daquilo a que estamos habituados no dia a dia nas subidas e descidas semanais". Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros português condenou esta tarde em comunicado o ataque de sábado, e apelou à contenção de todas as partes e a um diálogo que leve à redução da tensão.

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