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Paulo Portas elogia rei de Marrocos e diz que questão do Sahara está ultrapassada

Paulo Portas esteve num fórum promovido pelo rei de Marrocos em território do Sahara Ocidental ocupado. Na sua intervenção, o ex-líder do CDS disse que "não devemos envolver-nos em questões sensíveis, mas algo superadas pelo tempo - por exemplo o Sahara Ocidental”, omitindo a violação dos direitos humanos no Sahara Ocidental e a sua ocupação ilegal por Marrocos, condenada pela ONU. Por Né Eme
Paulo Portas no Crans Montana Fórum, realizado em território do Sahara Ocidental, onde omitiu que aquele território está ocupado ilegalmente por Marrocos e “esqueceu” a brutal violação dos direitos humanos, por parte das autoridades marroquinas

O Crans Montana Fórum, S.A.M. com o seu executivo sediado na Suíça, é uma sociedade anónima monegasca. Este ano, tal como no ano passado, realizou mais um dos seus eventos (muito semelhante ao Fórum Económico Mundial) em Dajhla (17 a 22 de março de 2016), sob o auspício do monarca marroquino Mohamed VI. Paulo Portas marcou presença neste “dúbio” evento com um discurso no mínimo grotesco.

Contudo nada disto seria digno de consideração, não fosse o facto de Dajhla ser uma cidade do Sahara Ocidental, ocupado ilegalmente por Marrocos deste 1975. Ocupado pela força, em flagrante violação do Direito Internacional e dos Direitos Humanos.

O Sahara Ocidental é um território pendente de descolonização (Espanha), ocupado a ferro e fogo, por um ocupante (Marrocos) a quem nem as Nações Unidas nem nenhum país do mundo reconhecem qualquer tipo de soberania sobre aquele território. Marrocos despreza as resoluções das Nações Unidas, a MINURSO* e os pedidos da União Africana que sem sucesso não se poupam a esforços para que seja realizado um referendo de autodeterminação dos Saharauis por forma a terminar esta longa (40 anos) e dolorosa espera.

Marrocos, sem escrúpulos, prefere o status quo, agravando a vida de todos os que vivem quer nos territórios ocupados do Sahara Ocidental, quer nos acampamentos de Tindouf, na Argélia onde se refugiaram e vivem em precárias condições.

É (a meu ver) mais uma infrutífera tentativa de Mohamed VI para legitimar uma ocupação que em tudo viola os direitos humanos dos Saharauis. Em momento algum o Crans Montana Fórum pediu opinião ao Presidente da Republica Árabe Saharaui Democrática, Sr. Mohamed Abdelaziz para a realização deste evento em terras Saharauis.

Se no ano passado ficámos com dúvidas este ano temos certezas.

Paulo Portas: “Mohamed VI foi e é um reformador previdente e até visionário”

Paulo Portas esteve mesmo neste Fórum que com pouca cobertura mediática, tentou passar despercebido, ou ter uma mais ampla difusão. O que na realidade não é de estranhar, face aos contras que superavam de longe os prós.

Segundo o “Diário de Notícias” (20 de março de 2016), Paulo Portas disse que "em Marrocos existe um modelo político singular: o Rei é ao mesmo tempo Comandante dos Crentes”, considerou o país “o bom exemplo da democracia” e afirmou: “Mohamed VI foi e é um reformador previdente e até visionário”.

É quase impensável acreditar que o ex-líder do CDS desconheça a realidade dos marroquinos, para quem a democracia não passa do “jugo” forte da mão de Mohamed VI. Que Marrocos é um dos países mais ricos do Mundo, mas que o poder está todo nas mãos do monarca enquanto a maior parte da sua população continua a viver na miséria.

Marrocos é um país envolto na aparência de um sistema económico normal, bancos, empresas, setor privado, mas onde o rei é o principal banqueiro, o principal segurador, o principal exportador e agricultor, controlando da mesma forma os setores agro-alimentar e a sua distribuição.

Uma parte da sua riqueza é gerada através da exploração e “saque” dos recursos naturais do Sahara Ocidental, tais como os fosfatos e a pesca.

Obviamente que por motivos bem diferentes, mas numa coisa tenho que concordar com o Sr. Paulo Portas: “Marrocos devia constituir uma prioridade europeia".

Sem dúvida. A Europa e em geral a comunidade internacional devem sim mobilizar-se para apoiar mais e mais os Saharauis. Divulgar a sua causa e a sua luta, mostrar os atropelos e barbáries acometidas contra eles, diariamente, e caminhar, lado a lado, para a sua tão merecida autodeterminação. Devemos sim, pressionar as Nações Unidas para fazerem cumprir os seus propósitos, pilares dignos e firmes contra a opressão dos povos, promovendo a paz e segurança, desenvolvimento e direitos humanos.

Se Paulo Portas tivesse comparecido neste Fórum, para discursar contra a opressão de Marrocos sobre o Sahara Ocidental, sobre a violação dos princípios da declaração da Carta das Nações Unidas.

Ao invés de ter falado muito ao de leve na questão do Sahara Ocidental, Paulo Portas afirmou: "não devemos envolver-nos em questões sensíveis, mas algo superadas pelo tempo - por exemplo o Sahara Ocidental - devemos antes promover, tanto quanto possível, o diálogo entre Rabat e Argel”. A Frente Polisario nem é sequer mencionada...

Porque eu tenho a certeza que a questão do Sahara Ocidental não é “algo” que se supere com o tempo, mas sim com atitudes assertivas. Com o tempo, Sr. Paulo Portas, irão certamente sarar as feridas dos Saharauis que ao longo destes 40 anos perderam familiares, vítimas de desaparecimentos forçados e dos que pereceram diante da mão do opressor marroquino.

Com o tempo irão seguramente sarar as feridas dos detidos por julgamentos arbitrários, dos que vivem nos acampamentos e de muitos deles que lá nasceram e não conheceram outra vida senão aquela. Dos que vivem diariamente no exílio e de todos os que aos dias de hoje sofrem as piores atrocidades nos territórios ocupados do Sahara Ocidental!

Artigo de Né Eme para esquerda.net


* MINURSO (Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental) criada em 1991

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