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Passe sanitário: táticas e estratégias em terreno hostil

Em França, sucedem-se as manifestações contra as restrições impostas pela versão Macron do certificado Covid. A esquerda está dividida sobre a questão. Romain Descottes mapeia essas divergências e pensa a estratégia anti-capitalista em tempos de crise.
Manifestações contra o passe sanitário, França. Foto de La République des Pyrénées/Contretemps.
Manifestações contra o passe sanitário, França. Foto de La République des Pyrénées/Contretemps.

O movimento contra o passe sanitário divide fortemente as correntes progressistas e de esquerda em França, particularmente no que diz respeito ao posicionamento a adotar face à importante mobilização estival que se manifesta na rua desde o discurso presidencial do passado dia 13 de julho.

Na continuidade dos debates sobre a gestão sanitária desde há mais de um ano, em particular em relação aos confinamentos, as clivagens são muitas vezes transversais, trans-organizacionais. Estamos face a uma situação complexa na qual os reflexos ideológicos e políticos habituais, que delimitam as fronteiras do campo social que aqui qualificaremos como progressista, parecem parcialmente inoperantes. Alguns dirão que se trata de uma crise de direção, mas sem querer ir necessariamente tão longe, os últimos acontecimentos somam definitivamente mais confusão ao período de grandes convulsões que se vive atualmente tanto em França como noutros países.

Táticas discordantes

Esquematizando, uma parte da militância e das organizações defende a necessidade de participar de uma forma ou de outra no movimento em curso, em particular junto de quem exprime um profundo descontentamento face à política violenta que caracteriza Macron. Esta intervenção procura geralmente infletir as motivações dos manifestantes no sentido de uma crítica mais ampla da deriva autoritária e liberticida que ultrapassa a defesa abstrata da “liberdade”; recentrar as palavras de ordem nas questões sociais e opor-se frontalmente aos perigos que constituem as disposições introduzidas pelo passe sanitário no campo do trabalho; e sobretudo não deixar o espaço aberto à extrema-direita ou a qualquer campo conspiracionista que surfam perigosamente a onda atual.

Defendendo, com razão, que a composição das manifestações é muito heterogénea, o pressuposto tático é assim secundarizar a necessidade de se posicionar face à obrigação da vacinação, considerada contra-produtiva, privilegiando uma presença pública centrada no passe sanitário/passe de despedimento. Este tem sido o caso da França Insubmissa (FI), do Partido Operário Independente (POI), da Luta Operária (LO), do Novo Partido Anticapitalista (NPA) em menor dimensão, de estruturas sindicais profissionais e locais, mas também de diversas tendências autonomistas e antifascistas. Estes últimos distinguem-se pela vontade de intervir fisicamente para afastar a presença dos neo-fascistas nas manifestações.

Contudo, face à ausência de consenso nas suas fileiras, a sua participação efetiva tem sido feita com meias tintas. É deixada à apreciação dos órgãos locais em função dos contextos (FI e NPA), centra-se na divulgação de propaganda nos coletivos de trabalho sem formalizar uma participação nas manifestações (LO, sindicatos de empresa), assume a forma de um bloco solidário/anticapitalista no seio ou paralelamente às poucas forças militantes presentes (militantes de organizações da esquerda política, alguns sindicatos, nomeadamente dos Solidaires e da CGT, grupos de coletes amarelos, autónomos e antifascistas). Há também apelos a greves nos setores mais afetados sem que se possa constatar de momento uma taxa de participação significativa destes trabalhadores.

Uma outra parte do campo progressista considera, pelo contrário, que o movimento contra o passe sanitário não abre perspetivas reivindicativas claras, frutuosas ou até que este é infrequentável. Têm esta posição o Partido Comunista Francês, o Ensemble!, a União Comunista Libertária e a maior parte das direções sindicais, expressando-o em termos mais ou menos claros. Entre os principais argumentos que apresentam contra este movimento, sublinhemos: a necessidade de defender firmemente, em primeiro lugar, a vacinação como medida de interesse geral e a fortiriori das camadas mais precárias da população, vítimas principais da Covid; o carácter fundamentalmente individualista e anti-ciência das temáticas do movimento, bem como o controlo por parte das redes reacionárias (extrema-direita, neo-fascistas, conspiracionistas e anti-vacinas); e o perigo de se ficar fechado numa mobilização minoritária, oferecendo a vitória a Macron, ao passo que outras questões mais importantes se colocarão no futuro.

A principal iniciativa neste sentido materializa-se numa petição que junta amplamente a esquerda radical, favorável à vacinação mas que apela a uma gestão sanitária alternativa à calamitosa atual, como base para um consenso alargado. Ações judiciais, nomeadamente o recurso para o Conselho Constitucional, e uma política sindical de informação aos trabalhadores fazem também parte das iniciativas de oposição ao passe sanitário. Contudo, as tomadas de posição são discretas: também aqui se evita remexer muito num tema que divide internamente. Se a necessidade de fazer campanha por outra política de saúde – e uma alternativa política global – e pela rejeição de uma lógica de sanções (despedimentos, suspensões, reforço da arbitrariedade patronal) parecem fazer quase toda a gente estar de acordo, uma linha comum coerente e percetível é impossibilitada pelos diferendos sobre a vacinação obrigatória e pela análise sobre se a mobilização atual é ou não um ponto de apoio na construção de uma relação de forças. Os pontos de acordo continuam, porém, a delimitar um espaço político progressista face, por exemplo, ao Partido Socialista – explicitamente favorável à vacinação obrigatória mas que não considera a luta contra o liberalismo e o autoritarismo uma prioridade.

Evidentemente, estas hesitações não são o simples reflexo de um quadro ideológico ou de uma prática política comum que nos faltam. São também, e antes de mais, o produto de um corpo social profundamente desorientado, precarizado e cujas redes de socialização e de solidariedade foram afetadas por uma crise inédita e pela resposta criminosa, infantilizante, autoritária, neoliberal, da classe dominante e dos seus apaniguados.

Deste ponto de vista, os apelos à mobilização contra a vacinação obrigatória e a violação do direito ao trabalho que daí resulta (entre outras reivindicações de longa data) das duas federações do setor da Saúde, CGT e Sud, e de secções da Força Operária – numa profissão que apesar disso já está submetida a vacinação obrigatória para outras doenças – devem-nos interpelar sobre o estado de espírito que pode inspirar esta insuportável política do bastão contra quem trabalha sem parar para o bem comum desde há mais de um ano.

A situação não pode, em caso algum, ser considerada satisfatória. Apesar da ineficácia, das mentiras e das mortes associadas à sua gestão sanitária, Macron montou uma operação para encobrir os rastos que foi visivelmente bem sucedida. Para a esquerda, não ter iniciativa quando personagens como Philippot [NT: Ex-vice presidente da Frente Nacional, foi eurodeputado e saiu da FN para liderar o pequeno partido Patriotas], ocupam o palco é pelo menos particularmente inquietante. Sem pretender resolver considerações táticas que são interdependentes tanto do desenvolvimento futuro do movimento atual quanto das condições reais da implementação do tristemente oficial passe sanitário, existem questões estratégicas que ultrapassam o quadro estrito deste acontecimento. Parecem-me ser específicas da sequência política mais vasta que estamos a viver.

Perspetivas estratégicas sobre a hegemonia do capital

O momento que atravessamos inscreve-se numa forte aceleração das crises e catástrofes engendradas pelo modo de produção capitalista, que as gera e exacerba ao mesmo tempo, e das quais a pandemia de Covid-19 é apenas uma das facetas. E se a degradação generalizada das condições de vida que a acompanha suscita um pouco por todo o mundo um aumento de mobilizações, é a hegemonia do capital que continua a dominar. Por outras palavras, na ausência de uma alternativa credível e global tal como pudemos conhecer no século passado, as respostas dadas são principalmente, e quase unilateralmente, por iniciativa das classes dominantes que dispõem de uma série de alavancas de poder para reafirmar a sua legitimidade de forma a assegurar a reprodução da ordem social existente. Qualquer movimento real que procure contestar o estado de coisas, ainda que seja sob uma forma negativa, será confrontado necessariamente com a permanência e proeminência do funcionamento capitalista e assim exposto ao vasto arco de contradições daqui decorrentes.

As respostas do atual governo, que são as respostas de um Estado imperialista, um dos centros do capitalismo contemporâneo, que dispõe de uma burguesia solidamente enraizada nas suas instituições nacionais, estão plenamente inseridas nesta dinâmica global. O passe sanitário é uma das suas emanações e as mobilizações que se lhe opõem situam-se no coração das suas contradições. Tentarei aqui discutir alguns aspetos delas, nomeadamente os que dividem o campo progressista:

1) A resposta da vacinação é uma serpente marinha que fez a sua primeira aparição logo nos primeiros meses da pandemia. É um caminho privilegiado para o capital, que a apresentou envergando o seu traje de formidável produtor de inovação – invisibilizando no processo o trabalho de milhares de trabalhadores, engenheiros e cientistas que estiveram na sua origem –, desviando a atenção das medidas de reorganização social indispensáveis à supressão viral e fazendo com que a acumulação de lucros corresse livremente. Será o triunfalismo desta vitória suficiente para invalidar uma tecnologia que já não precisa ser comprovada, uma vez que contribuiu para a redução da mortalidade durante mais de um século? Certamente que não. Para além da necessidade de lembrar que o uso capitalista da vacina é ineficaz (produção e distribuição restritas, acesso enredado nas desigualdades estruturais do capitalismo), as imperiosas medidas de reorganização social para a luta contra o vírus são propícias à apresentação dos nossos argumentos.

E não partimos do zero. Desde março de 2020, em vários países, coletivos de trabalhadores asseguraram uma reorganização auto-gerida das suas atividades. A requisição de locais e a contratação de pessoal para atender às necessidades próprias da luta contra o vírus, a imposição de protocolos sanitários ou encerramentos de estabelecimentos, pela greve se necessário, são fruto dos hábitos do movimento operário de se encarregar de questões de saúde e segurança; o renascimento de fábricas de máscaras em modo de cooperativas ou as empresas recuperadas que em poucas semanas mudaram a sua produção não são fantasias, os apelos sindicais para reorientar a produção das suas empresas para as necessidades sociais têm sido uma realidade marginal mas significativa – incluindo uma greve na Sanofi na qual uma das reivindicações era a disponibilização de linhas de produção de vacinas. Estes exemplos não exaustivos lembram que as sementes de uma estratégia sanitária em benefício da maioria estão já presentes nas práticas políticas atuais e não são uma quimera que fixa objetivos reivindicativos inatingíveis no corrente estado de relações de força.

Mas isto pressupõe procurar constantemente ultrapassar o fosso que existe entre o capital e os seus representantes que usarão os seus plenos poderes sobre a implementação da tecnologia para dar a ilusão de que são os seus detentores únicos e para impor medidas neoliberais e autoritárias como uma ajuda natural e lógica. A nossa incapacidade coletiva de construir uma coerência à volta destas práticas não é alheia à explosão heterogénea na senda dos anúncios de Macron, incluindo uma vertente reacionária consequente e bem enquadrada, que reagiu a perceções sociais reais mas que não encontraram uma dinâmica política capaz de canalizar positivamente a sua energia. Macron tem aplicado habilmente pressão na ferida das nossas fraquezas, ao mesmo tempo que se erigia como o baluarte contra as correntes tecnofóbicas reacionárias, e isto não será diferente no futuro. As catástrofes climáticas e as respostas urgentes que lhes devem ser dadas não se podem encerrar num binarismo de postura. As medidas de atenuação imediata face às catástrofes como as da Covid-19, absolutamente indispensáveis apesar de todas as suas insuficiências, não podem ser abandonadas politicamente aos dominantes. Não apenas isso nos exporia ao risco de reforçarem a sua hegemonia aos olhos de muitos, devido à temporalidade curta na qual se inscrevem estas medidas, mas também poderia legitimar uma das fortes tendências deste período, a da intervenção tecnológica (autoritária e tecnocrática) em todos os sentidos para regular os grandes equilíbrios do clima com a finalidade de manter um modo de produção mortal.

2) A noção de liberdade faz parte dos elementos estruturantes da mobilização atual contra o passe sanitário, ainda que possa ser invocada de maneira muito diferente pelos participantes. Se o uso dela pelos neofascistas e liberais, e mais genericamente a retórica de salvar a economia, foi amplamente comentado, estes debates não pouparam as correntes da esquerda francesa. Desde logo durante a sucessão de episódios de confinamento e de recolher obrigatório, estas restrições coletivas foram contestadas não apenas na forma mas também no seu fundo. Deve-se fechar as escolas, não é isso uma privação da liberdade de crescimento, de socialização, de aprendizagem das crianças? A manutenção dos espaços abertos, pelo contrário, não constituirá uma privação da liberdade dos mais vulneráveis, condenados ao isolamento por uma duração indeterminada? Inversamente, não será a liberdade de sobrevivência que é recusada aos mais oprimidos de entre nós durante o período de confinamento? Não será melhor um confinamento restrito e curto mais do que um recolher obrigatório leve e interminável que apenas atinge aqueles que são obrigados a obedecer-lhe? E a vacinação deverá ser feita através de medidas de obrigatoriedade ou é necessário dar um tempo para uma escolha esclarecida e consentida que talvez nunca chegue?

Mais uma vez, não tivemos controle sobre este calendário de restrições, decidido na cimeira do presidencialismo num Conselho de Defesa e anunciado no horário nobre às 20 horas. Na ausência de uma política comum, nenhum consenso real emergiu, exceto o de abandonar a busca por uma perspetiva que combinasse as liberdades coletivas e individuais. Isto reenvia-nos às determinantes mais amplas do período, as catástrofes e as suas consequências ocorrerão sob o signo da privação e as suas condicionantes serão, na ausência de um equilíbrio progressista de poder, essencialmente fixadas pelos dominantes. Isto obriga-nos a colocar o termo “coerção” no nosso horizonte e na nossa linguagem coletiva, e a incorporar-lhe um conteúdo comum, capaz de opor uma perspetiva inteligível e praticável em condições que não escolhemos. Correndo o risco de deixar os liberais e os neofascistas a responder às necessidades de ordenação da sociedade, num falacioso frente-a-frente.

3) Os desacordos entre militantes progressistas foram muitas vezes sobre a composição social das manifestações e as convicções políticas subjacentes. Para uns, trata-se de um movimento dominado por uma pequena-burguesia, com tons de fascismo, lançada à rua para defender um individualismo oposto aos princípios da solidariedade e a rejeição das vacinas; outros veem aí uma composição mais popular exasperada pela política autoritária de Macron e pronta a lutar contra as sanções ao trabalho. Paradoxalmente, as sondagens parecem dar razão a estas duas interpretações, mostrando o carácter interclassista dos apoios às mobilizações e que cobrem polos radicalmente opostos do espetro político. Assim, das pessoas questionadas (sondagem Ifop de 27 de julho e Elabe de quatro de agosto), 35 a 40% defendem o movimento contra o passe sanitário, uma larga maioria delas “não tendo a intenção de se vacinar” (79% contra 17% nos vacinados); entre estes apoios, os operários e os empregados estão sobre-representados (cerca de 45%), bem como os eleitores da União Nacional e da França Insubmissa (quase 50%, ou mesmo mais), dando crédito à ideia de uma hostilidade às vacinas e de uma rejeição popular do passe em bases politicamente variadas. No entanto, outras categorias da população mostraram-se ainda mais abertamente opostas ao passe sanitário, algo muito menos comentado nos jornais. Trata-se dos artesãos-comerciantes (50%-54%) e dos dirigentes de empresas (61%). Se a extensão das possibilidades de sanções pelo patronato e o reforço da relação de subordinação constituem um risco em si e devem ser combatidos sem condições prévias, lembremos que o objetivo desta lei não é o aumento direto da taxa de lucro. A lógica do despedimento obedece a prerrogativas discricionárias dos empregadores – que dispõem já de uma vasta gama de possibilidades – e não ao caráter aleatório da oposição à vacina entre os seus assalariados. Além disso, o encadeamento de crises e catástrofes não deixará os pequenos e médios empresários, e a pequena burguesia em geral, ilesa.

É preciso recordar aqui a especificidade do grande capital, cujas modalidades de acumulação do lucro não respondem às mesmas determinantes dos peixes mais pequenos. O aumento fenomenal do nível das maiores riquezas desde o início da pandemia, em plena recessão global e paragem de atividade em numerosos setores, é prova suficiente disto. A presença cada vez mais visível da pequena-burguesia no terreno da contestação lembra-nos antes de mais do perigo que puderam constituir algumas dinâmicas interclassistas na história, mas a sua simples presença ou apoio não invalidam de facto o movimento, exemplos históricos contrários também existem.

Sendo a esquerda incapaz de partilhar claramente uma caracterização do movimento, as referências aos coletes amarelos serviram de medida. Alguns veem aí um clara continuidade, outros opõem uma diferença de conteúdo e de forma. Parece-me essencial precisar alguns elementos sobre isto. A presença relativa de coletes amarelos nos cortejos e o apoio forte entre os que “se sentem coletes amarelos” (69%) não é suficiente para traçar um paralelo entre os dois movimentos. Pelo contrário, as formas tomadas pela contestação divergem fortemente. Os coletes amarelos, em particular no primeiro mês da sua mobilização, praticaram uma ocupação massiva do espaço público, a semana inteira nas rotundas, criando ou recriando espaços de solidariedade, de entre-ajuda, de trocas, exigindo uma intervenção direta na vida política, ou mesmo nas suas fases mais avançadas, envolveram-se no controlo de estruturas económicas e políticas locais. A surpreendente e entusiástica combatividade que constituía o nervo destas manifestações derivava desta força material. Parece-me que não há nada disto na mobilização atual, nem nas perspetivas que são traçadas (as concentrações selvagens poderiam ser um passo nesse sentido mas à partida envolvem apenas um público já ligado a esta prática social), estando limitadas às marchas de sábado, transbordando apenas à margem de uma relação de sedução com o aparelho repressivo e não realmente preocupada com a presença na sua vanguarda de correntes de extrema-direita e negacionistas da pandemia.

A prática política dos coletes amarelos estava direcionada para uma transformação social do seu ambiente de vida para além de si próprios, foi envolvida muito rapidamente numa relação conflituante com o poder e o seu aparelho repressivo que tentou, violentamente e no menor período de tempo possível, limitar as suas possibilidades de expansão.

São aliás as mesmas razões que fazem com que a prática da greve continue a ocupar um espaço tão singular e fundamental para muitas correntes do movimento operário e da esquerda radical. Face a uma contestação social que inclui setores cada vez mais amplos e variados da população e com interesses contraditórios, parece-me importante ir além das palavras de ordem e dar uma atenção particular às modalidades de ação e às práticas políticas, tanto para avaliar as suas potencialidades subversivas quanto para manter uma relação com a emancipação coletiva e individual em movimento e virada para a sua própria superação.

4) A reivindicação de levantamento das patentes das vacinas, apesar de granjear um consenso alargado nas fileiras progressistas, também tem sido mobilizada por necessidades retóricas contraditórias. Ora se usa para demonstrar a fraqueza do argumentário pró-vacinação: estamos a vacinar apenas nos países ricos e isto revelar-se-á com o tempo inútil; militemos pelo levantamento das patentes em vez de nos fecharmos no debate sobre a vacinação obrigatória em França. Ora se usa para apoiar a prioridade à vacinação: as mobilizações dos nossos camaradas no Sul Global pelo levantamento das patentes e pelo acesso às vacinas testemunham o inconsciente burguês e colonial das manifestações francesas; não podemos militar pelo levantamento das patentes se não somos claros sobre a utilidade da vacinação na luta pandémica. Do meu ponto de vista, todas estas posições têm uma parte de verdade, é próprio de uma tecnologia fundamentalmente útil mas mal utilizada e instrumentalizada levar a este tipo de polarização.

Mas falta o mais importante; a sequência política que vivemos mantém e reforça a distância política, segundo a nossa posição nas relações sociais de classe, de género e de raça, se nos encontramos num país periférico ou central do capitalismo, uma zona mais ou menos exposta às alterações climáticas. As dinâmicas da situação em Guadalupe e Martinica – sub-vacinadas e vítimas das políticas neocoloniais do Estado francês – e da metrópole não podem ser analisadas da mesma forma. Face à agitação em curso e por vir, os nossos interesses podem, e vão, divergir e convergir. Todos temos necessidade de proteção do vírus mas num caso é a necessidade de uma autonomia industrial de vacinação que prevalece, noutro é a de uma igualdade de tratamento face a um acesso desigual, noutros esta mesma necessidade liga-se com urgências alimentares mais fortes.

Estas distâncias que os dominantes não deixam de utilizar com outros fins políticos não apagam contudo os interesses que nos ligam a um devir político comum. O levantamento das patentes faz parte dele, é uma condição sine qua non, ainda que não suficiente, para uma luta global e igualitária contra este vírus e mais amplamente para a construção de uma alternativa política global. Existem elementos neste sentido: a iniciativa cidadã lançada pela esquerda e uma parte do movimento social europeu, o apelo sindical para o levantamento das patentes que juntou as principais centrais sindicais progressistas do globo, o manifesto para uma socialização do aparelho farmacêutico apoiado por numerosos atores próximos da alterglobalização, ou ainda a campanha levada a cabo pelas grandes ONG humanitárias para uma vacinação para todos.

A sua fraqueza é proveniente da invisibilidade no debate público, da ausência de mobilização física de envergadura que as acompanhe, da sua dispersão política. É sobre isto que é preciso agir, uma vez que esta reivindicação é uma base para outras lutas, produtora de uma consciência comum. Colocá-la ao serviço de desacordos políticos pontuais e de polémicas, cuja eficácia pode ser colocada em causa, não melhora em nada a relação de forças necessária para a imposição desta reivindicação, nem por outro lado a urgência de um internacionalismo efetivo.

5) Por fim, um outro aspeto particularmente divisório nos nossos debates, diz respeito à utilidade (ou não) de uma intervenção no interior da mobilização atual. Julgar a eficácia de uma intervenção coletiva numa conjuntura em que sopram intensamente ventos contrários é com efeito como caminhar no fio da navalha e as informações contraditórias tiradas dos relatórios que por aí circulam só pioram as coisas. Parece-me interessante evocar algumas discussões entre as intensas trocas que pude ler. Primeiro, as palavras de ordem internas a uma mobilização têm uma autonomia própria que é o motor da sua dinâmica política. As pessoas presentes sabem porque estão lá e têm as suas próprias redes de socialização de informações, a sua experiência de vida particular, que moldam as suas convicções políticas fora destas manifestações. Esta constatação não se opõe à interpretação que insiste na diversidade dos manifestantes mas também não autoriza a considerar as facetas reacionárias como elementos que poderíamos simplesmente corrigir do exterior, ou aplanar esta diversidade numa “massa” em movimento que tivesse como objetivo prioritário a destituição de Macron.

A questão não é dizer que a ação coletiva para influenciar estas palavras de ordem é inútil, mas sim que é relativa, ou secundária O exemplo dos coletes amarelos é frequentemente utilizado, particularmente em relação ao papel "decisivo" dos ativistas na evolução das palavras de ordem e na exclusão da extrema-direita, mas parece-me que esta é uma forma muito vanguardista e falsa de reescrever o filme. Os coletes amarelos não ficaram à espera que ninguém para se orientar para reivindicações sociais e políticas cada vez mais radicais ou para eliminar componentes fascistas das suas fileiras. Isto teve muito mais a ver com as formas de organização e das lutas que adotaram e da sua vontade de responder positivamente à estigmatização mediática que se abatia sobre eles, excluindo de facto os elementos com conceções mais reacionárias. Claro que aqui ou ali o papel das organizações e militantes progressistas foi certamente muito útil para apoiar esta evolução, trazer um corpus reivindicativo mais robusto, tornar visíveis palavras de ordem ou até afastar fisicamente os fachos organizados. Mas não constituíram o centro de gravidade deste deslocamento.

O que me leva a um segundo ponto, frequentemente evocado, de que haveria de um lado os que fazem e sujam as mãos e os outros, passivos e inúteis. Cada um compreenderá as implicações do que resulta deste binarismo de geometria variável, mas precisemos. Não existe simplesmente a mobilização que forma uma totalidade e tudo o que lhe é exterior que desapareceria, nomeadamente porque a imensa maioria da população não sai às ruas no sábado. Isto não quer dizer que as pessoas não tenham pontos de vista e perceções que mudam sobre o que está a acontecer, na verdade o contrário é muitas vezes verdade. Muitos deles não compreendem o movimento atual, e estão convencidos dos benefícios da vacina e da sua dimensão solidária real. Quando nos posicionamos a favor ou contra, estamos a agir sobre a sociedade no seu conjunto e não apenas sobre os ativos nessa altura que não são necessariamente os que estarão ativos amanhã. Conseguir influenciar o curso de um acontecimento não pode ser separado de uma análise global das possibilidades da situação, do nível da relação de forças que está em vias de agir, do impacto presente e mais a longo prazo de uma intervenção, etc.

Pagamos pela ausência de ferramentas coletivas, a começar por espaços de discussão que conduzissem a tomadas de decisão comuns e se traduzissem em ações coordenadas à escala mais ampla possível. Isto teve um nome na história: as organizações políticas de massas. Com a sua ausência atual, precisamos encontrar meios de o conseguir, inventando novas vias organizacionais se delas tivermos necessidade.

Concluindo, queria clarificar a minha posição sobre as considerações táticas mais imediatas, não sendo evidentemente exterior a estes debates divisórios. Penso que é fundamental posicionar-se sobre uma orientação pró-vacinação firme, principalmente porque a vacina salva vidas, tanto mais face a uma vacinação que priorizou as classes e os territórios mais ricos. Pagaremos o preço político de qualquer hesitação sobre este ponto, que diz respeito em primeiro lugar às classes trabalhadoras que são as mais expostas aos contactos sociais, entre os quais os famosos trabalhos de “primeira linha”, para além de perder a pouca coerência da nossa orientação sanitária construída desde há um ano.

Quanto à intervenção na mobilização, e sem lançar pedras aos camaradas que aí investem, até porque sem a sua ação as discussões e a avaliação do movimento teriam sido muito mais obscuras, creio que é ilusório no estado atual pensar em ter um impacto interno significativo. Estou de acordo com a ideia de que é preciso construir uma mobilização paralelamente, com as nossas próprias palavras de ordem, a saber: uma política sanitária alternativa exigente, em vez do inútil passe sanitário com a sua lógica punitiva, fim das patentes e uma campanha de vacinação junto dos estabelecimentos escolares, empresas e bairros mais afastados dos circuitos de vacinação. E, sobretudo, encontrar a forma mais eficaz de associar-lhe a luta contra a reforma do subsídio de desemprego e das pensões, pelo aumento do salário mínimo e dos baixos salários e pela partilha do tempo de trabalho. O mais pertinente para o alcançar seria provavelmente avançar com uma data, relativamente próxima mas que nos deixasse tempo para a preparar nas empresas, nos bairros, nas escolas e universidades (sim, sim, isto demora tempo às equipas sindicais e ainda mais em período de férias). Esta distinguir-se-á dos sábados pelo seu apelo à greve, durante a semana, uma modalidade incompatível com a presença de Philippot e seus pares. Nestas bases, parece-me que seríamos bem mais numerosos aqueles que aceitariam intervir desde já no movimento atual para aí distribuir um panfleto comum apelando a esta jornada de luta e apresentando claramente as nossas próprias palavras de ordem.


Romain Descottes é sindicalista na CGT, responsável pela Fédération des Sociétés d’Etude.

Texto publicado na revista Contretemps. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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