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Paris – O coração da Europa em tempos de crise

Estas crónicas, do dia-a-dia em Paris na última semana de Abril e na primeira do mês de Maio, não pretendem revelar a profundidade da situação política, de crise, vivida em França. Simples diário de viagem, em cada uma das crónicas procuro ver, para além da fachada dos monumentos. Por Liberato Fernandes.
Saint Denis possui uma das basílicas góticas mais antigas da Europa
Saint Denis possui uma das basílicas góticas mais antigas da Europa

27 de Abril de 2016. A meia manhã chegamos ao aeroporto de Orly, na capital da França, um dos estados dominantes da Europa. Pátria dos direitos humanos, proclamados há mais de 220 anos, é também, nos tempos que correm, o estado onde é mais evidente a incapacidade para o sistema capitalista assegurar a realização da Humanidade. A França é um estado em guerra, e tem sido essa a sua situação constante ao longo dos séculos. Para as potências centrais da Europa os tratados de paz nunca passaram de tratados para acordar tréguas, mas, todas as guerras do século XX, fizeram-se em nome da liberdade, em geral, ou de direitos nacionais não respeitados. De paz, liberdade, igualdade e fraternidade, só se falava nos intervalos entre disputas imperiais.

Depois da tragédia que foi toda a primeira metade do Século XX, com trinta e um anos de guerra mundial contínua1, os princípios gerais contidos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foram universalmente adotados como fazendo parte do direito das nações, mas, na prática, continua proclamação, ignorada na vida diária dos estados, nas suas relações com os seus cidadãos e com os outros povos. Como observei, e procuro relatar, é assim na França atual.

Estas crónicas, do dia-a-dia em Paris na última semana de Abril e, na primeira do mês de Maio, não pretendem revelar a profundidade da situação política, de crise, vivida em França e, da sua ligação à crise geral que atravessa o mundo. Simples diário de viagem, em cada uma das crónicas procuro ver, para além da fachada dos monumentos, o que eles representam no trabalho dos seres humanos realizado em condições de servidão, e de como tem sido longo e violento o despertar da humanidade.

O aeroporto de Orly é semelhante aos aeroportos que servem as grandes cidades: grupos apressados que chegam, cruzando-se com grupos apressados que partem. Os sinais de guerra não se veem. Não há medo entre a multidão apressada, ninguém discute, nem ninguém corre. Os sinais da guerra anunciada pelo presidente francês após os atentados de Novembro passado, estão visíveis no aumento das fardas dos polícias e, no número das fardas dos seguranças privados, profissão que cresceu imenso nos aeroportos após o 11 de Setembro de 2001, data simbólica, e oficial, duma nova modalidade de guerra: o terrorismo.

No aeroporto de Paris a guerra oficialmente anunciada manifesta-se no aumento das fardas: a curtos intervalos, às fardas dos seguranças e dos polícias, somam-se as fardas das patrulhas militares de arma em riste, em posição de fogo. A anormalidade expressa-se na estranha visão que consiste ver os centros comerciais, que são os aeroportos atuais, transformarem-se em locais de ronda militar quotidiana. Há uma outra situação mais pressentida do que sentida: a vídeo-vigilância que acompanha a multidão nas escadas rolantes e corredores e que, adivinha-se, acompanha o movimento e os semblantes de cada passageiro que transpõe cada porta automática. Orly hoje (e os aeroportos em geral) reproduzem o arrepiante mundo orwelliano2 onde os seres humanos são absolutamente controlados por estados burocráticos-policiais. Se Orwel, ficcionava a partir do que conhecia da URSS-estalinista, essa realidade foi ultrapassada na Europa, nos EUA, e na generalidade dos estados referenciados como democráticos e, de direito. A tragédia, é ser aceite com naturalidade!...

A França multicultural, colorida

O nosso destino é Saint Denis, cidade integrada na área metropolitana de Paris e, tornada mais conhecida por nela se situar o Estádio de France e ter sido um dos locais dos atentados. Saint Denis situa-se no extremo oposto do aeroporto e teremos de viajar de autocarro até Denfert Rochereau, localidade de ligação ao metro. Ainda teremos de fazer mudança em Montparnasse, local de ligação à linha que serve Saint Denis. Entre Denfert e Saint Denis percorrem-se dezenas de quilómetros. Viajamos no metro pelo que não há monumentos nem paisagens a ver. A paisagem humana é uma paisagem colorida: gente de todas as origens e de todas as cores. Na mudança em ouvem-se as músicas de rua. Na carruagem, um homem canta, parece-nos, em italiano, mas não é, canta “romani”, uma língua cigana-romena. O metro é, maioritariamente composto por pessoas originárias de países que, há pouco mais de meio século, faziam parte do imenso império colonial francês: Argélia, Tunísia, Mali, Senegal, Guiné Conacri ou, do Médio Oriente (Palestina, Turquia). Parte da população europeia de Saint Denis é de origem ibérica (portuguesa e espanhola), significativamente, tanto a população originária das ex-colónias francesas como a ibérica corresponde ao mesmo tempo histórico: aos anos sessenta e setenta do passado século e que corresponde ao fim do império francês, do império colonial (e de ditadura) portuguesa, e ao fim da ditadura fascista, em Espanha.

Almoçamos naquele que será o nosso alojamento durante duas semanas. Demo-nos conta que a cidade tem vida própria, não se limitando a um subúrbio de capital. Possuindo uma das basílicas góticas mais antigas da Europa é no entanto uma cidade que cresceu muito durante o século XIX, como fazendo parte do núcleo central da indústria francesa, tendo forte tradição de luta operária e de resistência contra a ocupação nazi.

Artigo de Liberato Fernandes, publicado em Diário dos Açores, a 7 de junho de 2016


1 É hoje um dado adquirido de que a 2ª guerra mundial constitui a continuidade da 1ª. Esta, inicia-se com o assassinato do Imperador da Áustria e, a 2ª, de facto termina com a rendição do Japão após o lançamento das bombas nucleares sobre Hiroxima e Nagasaki, em Agosto de 1945.

2 George Orwel, pseudónimo literário de Eric Blair, escritor inglês nascido na Índia, falecido em 1950

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