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Para os fabricantes de armas, a guerra na Ucrânia é muito lucrativa

Nem sequer 1% do material militar da Nato vai ser utilizado para ajudar a Ucrânia. Mas a invasão russa foi uma excelente notícia para os fabricantes de armamento. Por Gilbert Achcar.
F-35A Lightning II 34th FS 14-5096 HL. Foto de Duncan Monk/Flickr
F-35A Lightning II 34th FS 14-5096 HL. Foto de Duncan Monk/Flickr

Hoje assistimos a um paradoxo impressionante. Os meios de comunicação social ocidentais ecoam todos os tipos de especialistas militares e fontes de inteligência que enfatizam até que ponto o poderio militar russo foi sobrestimado antes da invasão; o quanto se mostrou mais fraco do que o esperado a todos os níveis, incluindo nas suas capacidades logísticas e desenvolvimento de armamento sofisticado; e quanto dano o ataque criminoso de Vladimir Putin à Ucrânia trouxe à própria Rússia, à sua economia e ao seu potencial militar. E, no entanto, vários governos da Nato aproveitaram a oportunidade desta guerra, que obviamente está a enfraquecer a Rússia, para se envolver num frenesim de aumento dos gastos militares.

Por todo o lado, o complexo industrial militar esfrega as mãos de alegria. O alto escalão dos exércitos da Nato está novamente a recorrer ao velho truque de sobrestimar as ameaças, como costumava fazer em relação à União Soviética durante a Guerra Fria, para defender o rearmamento. Tal termo é totalmente inadequado, dado que os exércitos da Nato nunca foram desarmados em primeiro lugar; em vez disso, estavam constantemente super-armados durante a Guerra Fria e, desde então, mantiveram níveis excessivos de armas. Além disso, quaisquer entregas de armas defensivas feitas ao povo ucraniano são apenas uma pequena parte dos gastos militares em curso – nem mesmo o 1% de todos os gastos da Nato que o presidente da Ucrânia tem pedido.

Não contente com os gigantescos gastos militares atuais dos Estados Unidos, que totalizaram 782 mil milhões de dólares no ano passado – acima dos 778 mil milhões gastos em 2020, o que representou, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, 39% dos gastos militares globais, mais de três vezes a da China (252 mil milhões) e mais de doze vezes a da Rússia (61,7 mil milhões) – Joe Biden agora está a solicitar 813 mil milhões para o próximo ano fiscal (773 para o Pentágono e mais 40 para programas relacionados com a defesa no FBI, Departamento de Energia e outras agências). De acordo com o subsecretário de Defesa, Michael J. McCord: “Este orçamento foi finalizado antes da invasão da Ucrânia por Putin. Portanto, não há nada neste orçamento que tenha sido alterado especificamente porque era tarde demais para alterá-lo, se quiséssemos, para refletir as especificidades da invasão.”

A Alemanha também aproveitou a oportunidade da guerra para se livrar dos últimos resquícios de sua auto-limitação militar pós-1945. Isto mais uma vez chegou com um chanceler social-democrata (SPD), Olaf Scholz, seguindo o precedente da participação alemã no bombardeamento da Sérvia sob Gerhard Schröder, também do SPD, que mais tarde reconverteu a sua posição em vantagens altamente remuneradas na indústria russa de gás. Berlim decidiu por um grande e imediato aumento de 100 mil milhões de euros nos seus gastos militares e um aumento permanente massivo para mais de 2% do PIB, contra 1% em 2005 e 1,4% em 2020. A Grã-Bretanha no ano passado tornou-se o segundo e o terceiro maior gastador militar da Nato e do mundo, respetivamente.

Sem surpresa, este renovado frenesim de gastos militares traduz-se em dias felizes para os interesses industriais envolvidos na produção de meios de destruição. Uma reportagem recente do jornal francês Le Monde deu uma visão instrutiva do impacto financeiro de tudo isso: depois de citar Armin Papperger, chefe da Rheinmetall, um dos principais fabricantes de armas da Alemanha, que se queixou em janeiro da relutância dos fundos de investimento em trabalhar com a sua empresa, o jornal informou que a atmosfera mudou completamente. Acrescenta que o Commerzbank, um dos maiores bancos alemães, anunciou a sua decisão de transferir parte do seu investimento para a indústria de armas.

Na França, após uma tendência crescente de desinvestimento financeiro na indústria de armas sob pressão dos cidadãos por responsabilidade ética – especialmente à luz da terrível contribuição das vendas de armas ocidentais para a destruição do Iémen pelo reino saudita – Guillaume Muesser, diretor de defesa e assuntos económicos da Associação Francesa das Indústrias Aeroespaciais, disse ao Le Monde que “a invasão da Ucrânia é um divisor de águas. Isso mostra que a guerra ainda está na agenda, às nossas portas, e que a indústria de defesa é muito útil”.

Não é difícil imaginar a atual euforia que prevalece entre os fabricantes de máquinas mortíferas nos Estados Unidos, como a Lockheed Martin, a maior produtora de armas do mundo. A Alemanha decidiu comprar os seus jatos F-35, cuja capacidade de transportar armas nucleares foi explicitamente mencionada como um argumento fundamental para optar por eles, embora a Alemanha não tenha armas nucleares próprias. O custo unitário destes aviões é de cerca de 80 milhões de dólares. O preço das ações da Lockheed Martin atingiu o pico de 469 dólares a 7 de março, após o anúncio alemão, acima dos 327 de 2 de novembro – um aumento de 43,4% em apenas quatro meses.

A mudança no clima global desde o final do ano passado é impressionante. Em dezembro passado, um apelo assinado por mais de cinquenta vencedores do Prémio Nobel pedia a adoção do que eles chamavam de “uma proposta simples para a humanidade”:

“Os governos de todos os estados membros da ONU deviam negociar uma redução conjunta dos seus gastos militares em 2% a cada ano durante cinco anos. A justificação para a proposta é simples:

1. As nações adversárias reduzem os gastos militares, de modo que a segurança de cada país é aumentada, enquanto a dissuasão e o equilíbrio são preservados.

2. O acordo contribui para reduzir a animosidade, diminuindo assim o risco de guerra.

3. Vastos recursos – um “dividendo da paz” de até 1 trilião de dólares até 2030 – seriam disponibilizados. Propomos que metade dos recursos libertados por este acordo sejam alocados a um fundo global, sob supervisão da ONU, para enfrentar os graves problemas comuns da humanidade: pandemias, mudanças climáticas e pobreza extrema.”

Talvez tal proposta possa ser considerada ingénua ou utópica. No entanto, está realmente inscrito no Estatuto da ONU entre as funções da Assembleia Geral:

“A Assembleia Geral pode considerar os princípios gerais de cooperação na manutenção da paz e segurança internacionais, incluindo os princípios que regem o desarmamento e a regulamentação dos armamentos, e pode fazer recomendações sobre esses princípios aos Membros ou ao Conselho de Segurança ou a ambos.”

A invasão russa da Ucrânia deve ser um alerta para o movimento global anti-guerra, cujos principais setores negligenciaram estes objetivos pacifistas para se concentrar exclusivamente na oposição política aos governos ocidentais. A atual apreensão oportunista da guerra como pretexto para um grande aumento no belicismo e nos gastos militares reverte fundamentalmente as lições que devem ser extraídas da tragédia em curso.

Longe de justificar tais atitudes, a invasão russa da Ucrânia mostrou o alto risco das posturas militaristas. E nenhum aumento nos gastos militares mudará o equilíbrio básico de forças com a Rússia, país que possui mais ogivas nucleares do que os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França juntos, e cujo presidente não hesitou em brandir a ameaça de recorrer à sua força nuclear.

O movimento anti-guerra deve apoiar o apelo dos vencedores do Prémio Nobel e lançar uma campanha global coordenada exigindo que a Assembleia Geral das Nações Unidas coloque as propostas do apelo na sua agenda. Fica agora mais claro do que nunca que não pode haver progressos sérios na guerra contra as alterações climáticas em particular, da qual depende o futuro da humanidade, sem uma redução maciça e reconversão das despesas militares, que são em si uma importante fonte de poluição, morte e miséria.


Traduzido por Cauê Seignemartin Ameni para a Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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