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“Pandemia não pode voltar a enviar para o armário a luta LGBT”

A deputada e ativista Fabíola Cardoso falou com o Esquerda.net sobre a 1ª Marcha do Orgulho LGBT em Portugal e realçou o extraordinário poder transformador destas iniciativas, “não só a nível político, como a nível social e individual''. Por Mariana Carneiro.
Fabíola Cardoso, ativista e deputada do Bloco de Esquerda, com máscara e cartaz da 1ª Marcha do Orgulho LGBT. Foto Esquerda.net.

Num ano em que, em Lisboa, não foi possível levar para a rua “esta Marcha de luta, de coragem, de reivindicação, que tão importante foi há 22 anos para nos trazer hoje aqui”, Fabíola Cardoso alerta que “a covid-19 não pode contaminar a democracia, não pode contaminar a liberdade, não pode destruir e voltar a enviar para o armário a luta e a bandeira LGBT”. 

“Temos de ser capazes de nos reinventar”, frisou.

E é “neste momento complicado em que a dificuldade no acesso às ruas, no acesso à visibilidade social, limita a nossa capacidade de intervenção política”, que a ativista considera ser “muito importante darmos a maior força possível às marchas e valorizar a sua realização''.

Qual é a importância de resgatar a memória da 1ª Marcha do Orgulho LGBT em Portugal?

A ideia é que haja um registo histórico das circunstâncias em que surgiu a primeira Marcha em Portugal, do seu contexto histórico. E, em particular, do papel e da preponderância das lésbicas nesse processo. A História tende a erodir facilmente a participação das mulheres, e em Portugal isso também acontece.

Há uma analogia, de alguma maneira preocupante, entre alguns condicionantes que levaram ao aparecimento da Marcha e alguns fenómenos que estão a acontecer na atualidade, apesar de já terem passado 22 anos. Os objetivos que levaram à concretização da 1ª Marcha ainda não estão verdadeiramente atingidos.

Em particular, neste momento complicado em que a dificuldade no acesso às ruas, no acesso à visibilidade social, limita a nossa capacidade de intervenção política, acho que é muito importante darmos a maior força possível às marchas e valorizar a sua realização.

É quase um tributo, não só a todo o passado que nos fez chegar até aqui, como também à organização da Marcha de Lisboa deste ano, que não pôde realizar-se por razões sanitárias, e a todos e todas e todxs os grandes corajosos que, tenho a certeza, conseguirão, ainda assim, fazer marchas noutros locais deste país que tanto precisa delas, seja no Porto, em Viseu, seja um pouco por todo o lado.

A história que eu vou contar, a história da Marcha de Lisboa, é a minha versão. E é muito importante que outras vozes, com outros pontos de vista, de outros lugares de fala, se juntem a este relato.

Não pretendo dar uma visão global, pretendo dar a minha visão pessoal, enquanto ativista, enquanto pessoa diretamente envolvida neste processo histórico. Mas, sendo a minha versão da história, não é a minha história. É uma história coletiva que começa talvez em 1990, quando duas mulheres, a Ana e a Mena, se atreveram a dar uma pedrada no charco da estagnação absoluta que era Portugal em relação às questões lésbicas, e avançar com uma primeira publicação, que se chamava Organa.

Essa revista deu origem, num processo complexo, sobre o qual também era interessante falar um dia, a uma outra publicação, que se chamava Lilás, em 1993. Pessoas como a Mónica, Alexandra, Adelaide, Duda, Luísa, Susana… foram essenciais. Foi através da Lilás que as pessoas que, em 1996, criaram o Clube Safo, se conheceram. Aqui começa a nossa história. A história começa quando estas quatro mulheres (eu, a Ana, a Paula e a Sancha), se juntaram e, em Aveiro, perante a inexistência de atividade lésbica específica – ainda hoje o Clube Safo é a única associação exclusivamente lésbica em Portugal –, e perante a inexistência de atividade organizada fora dos grandes centros urbanos, decidiram fazer qualquer coisa.

Diz assim o editorial da Zona Livre nº 1, publicado em 1996:

“O projeto Clube Safo começou a desenvolver-se num café de Aveiro, na tarde fria de janeiro de 1996. A discussão girava em torno da falta de uma consciência lésbica em Portugal. Do quanto somos obrigadas a viver isoladas. Falávamos da necessidade de mudar, queríamos fazer coisas. Queríamos juntar as lésbicas ou, pelo menos, criar condições para que elas próprias, nós próprias, tivessem a possibilidade de escolher entre a solidão ou uma vida social sem disfarces. Nasceu o Clube Safo, uma vontade de contribuir para uma identidade lésbica positiva”.

Esta associação começou a fazer encontros, e a questão da visibilidade era essencial.

A Zona Livre nº 4 traz na sua capa a primeira fotografia de lésbicas portuguesas. Quem quis ficar na fotografia optou por ficar de frente, de lado ou de costas. Foi muito importante este sinal de que existiam efetivamente lésbicas e estavam a organizar-se.

Qual era a periodicidade da Zona Livre?

A Zona Livre tinha uma periodicidade bimensal. Num mês existia um encontro e no mês seguinte era publicada a Zona Livre. Por exemplo, esta Zona Livre nº 4, de março de 1998, tinha o relato do encontro realizado em Aveiro, e incluía já o convite para o encontro seguinte, neste caso, no 1º de Maio, um acampamento na Nazaré.

Fazíamos encontros de debate, de reflexão, espalhados um pouco por todo o país: Porto, Lisboa, Aveiro, Nazaré… A Zona Livre era um instrumento de comunicação que integrava um conjunto de textos, de traduções, de contributos. A publicação foi crescendo à medida que a própria atividade do Clube também foi crescendo. 

A necessidade de um encontro mais social era muito grande. Organizámos algumas festas, entre as quais festas de passagem de ano ou de Carnaval. Gosto particularmente da capa da Zona Livre nº 8, de novembro de 1998, que traz a imagem de uma mulher negra, brasileira, que animou um evento com a sua música. Ela fez aquilo que uma mulher portuguesa provavelmente ainda não tinha coragem para fazer, aceitar ser capa da Zona Livre, expor-se daquela maneira. 

Começámos a realizar mais atividades, a tentar divulgar a nossa existência, nomeadamente junto de outras associações LGBT: atividades de caráter mais lúdico, mais recreativo, fossem elas passeios ou acampamentos, onde participavam mulheres vindas de todo o país;  promoção de abaixo assinados em conjunto com outras associações e partilha de informação relativamente às uniões de facto; círculos de leitura; etc.. 

Havia, de facto, um conjunto muito diversificado de atividades culturais, recreativas, de auto-ajuda, de empoderamento, que eram essenciais para constituir não só uma identidade pessoal como também uma identidade coletiva que ainda não existia. 

Durante todo esse processo, houve uma boa recetividade por parte das associações e da comunidade LGBT, bem como da população em geral?

Não houve uma grande divulgação. Nunca quisemos fazer uma divulgação muito mainstream. Para já, não estávamos ligadas a qualquer tipo de movimento, partido, associação ou instituição. Não tínhamos essa experiência. E a maior parte das mulheres contactava-nos porque se sentia segura. Se eu dissesse a palavra “lésbica” na rua, as pessoas olhavam para mim de lado. E falo de quem participava dos encontros. 

Por parte das outras associações e coletivos, a recetividade não foi muito boa. Havia uma perspetiva um pouco elitista e académica entre os coletivos mais instituídos, formados por outro tipo de pessoas, com outra perspetiva social e económica. Olhavam para as atividades do Clube Safo com uma certa sobranceria, com um certo snobismo. Muitas dessas associações têm e fazem atualmente as atividades que nós fazíamos há mais de 20 anos atrás. Mas demorou a perceber que não é possível fazer política sem uma base social. E, se essa base social não existe, primeiro é preciso criá-la. De outra maneira, estamos a trabalhar para um grupo de privilegiados, e foi isso que o Clube Safo tentou evitar. 

O facto de ser um grupo de mulheres também não deve ter ajudado…

Apesar de terem sempre existido mulheres em todos os movimentos, as figuras de proa, aquelas que davam a cara e, por isso, tinham maior visibilidade social, eram, à data, inevitavelmente homens. 

Em Portugal, o movimento surge muito masculinizado, associado à questão da SIDA. Nós éramos um bocadinho outsiders em relação a essas formas de organização e apoios mais institucionais, mais partidários. Estávamos a fazer, verdadeiramente, um trabalho comunitário de base. 

Foto da Ilga Portugal, publicada em http://portugalpride.org

Como era feito esse trabalho?

Os nossos encontros tinham uma estrutura muito interessante. Normalmente, eram marcados num lugar público. Muitas vezes, colocávamos em cima da mesa uma laranja, que era o nosso código, para que quem chegasse nos pudesse identificar e tivesse a liberdade de se juntar, ou não, ao grupo. 

Os locais dos encontros não eram divulgados publicamente, por razões de segurança. Normalmente, a seguir a esse encontro existia um almoço, que funcionava como momento de aproximação e estabelecimento de alguma empatia e proximidade entre as pessoas que participavam.

Foi assim com o encontro do dia 19 de fevereiro de 2000, divulgado na Zona Livre nº 15. A iniciativa tinha como tema “Visibilidade/Invisibilidade em Portugal” e realizou-se na sede da Opus Gay, hoje Opus Diversidades. Recorríamos a espaços emprestados ou ao próprio restaurante onde fazíamos o almoço. Era a forma que encontrávamos para contornar a inexistência de uma sede física e as nossas dificuldades económicas.

Depois do almoço num restaurante chinês, reuniu-se um grupo de vinte e poucas mulheres na sede da Opus. Foi no âmbito desse encontro que uma das mulheres presentes, a Mica, afirmou que uma das questões que contribuíam para a invisibilidade das lésbicas no nosso país era a inexistência de uma marcha, que já se realizava em muitos outros países. Em Portugal, tínhamos o Arraial Pride, uma iniciativa muito bem sucedida organizada pela Ilga Portugal, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, integrada nas comemorações dos santos populares. O Arraial era realizado à noite, com caráter recreativo, e altamente masculinizado. 

No encontro na Opus surgiu então aquela mulher a dizer que faltava uma marcha à luz do dia, que fosse claramente um evento político e tirasse do armário da invisibilidade as nossas reivindicações políticas. Foi um momento em que foi dito aquilo que todas nós sabíamos e que, de repente, foi explícito.

Na sequência desse encontro, o Clube Safo apresentou esta ideia às outras associações LGBT portuguesas. O editorial da Zona Livre nº 16, de março de 2000, diz o seguinte:

“No último encontro do Clube Safo, em Lisboa, surgiu a ideia de uma grande marcha em plena luz do dia, em que todos e todas aqueles que queiram participar possam ir com uma máscara que simbolize as condições a que somos obrigados e obrigadas a viver quotidianamente”. 

A máscara da invisibilidade, a máscara do silenciamento, a máscara que disfarçava as nossas identidades, seria utilizada na Marcha como um símbolo da situação de opressão, de insegurança, de confinamento a que a comunidade LGBT e, em particular, a que as lésbicas em Portugal estavam sujeitas no ano de 2000.

Houve essa vontade, de ocupar o espaço público, por parte de todos os outros movimentos?

Foi um desafio que não colheu o entusiasmo generalizado logo à partida. A questão das máscaras, por exemplo, foi um dos dos aspetos que mais obstáculos levantou. Houve várias associações a colocarem reticências à sua utilização. Mas conseguimos levar a nossa avante e envolver e motivar as outras organizações para que se realizasse uma marcha. Aliás, o processo foi tão bem acolhido que, em vez de uma marcha, na prática, se realizou uma semana inteira de atividades. De sábado, 24 de junho, a sábado, dia 1 de julho, dia em que se realizou, em Lisboa, a 1ª Marcha do Orgulho LGBT, existiram inúmeras iniciativas, que incluíram teatro, exposições, debates, cinema… Todo um conjunto de atividades que envolveram as várias associações que faziam parte da organização da Marcha.

Quais foram as organizações que deram o “pontapé de saída” para a realização da Marcha?

O Clube Safo, o GTH (Grupo de Trabalho Homossexual do PSR, um dos partidos que deu origem ao Bloco de Esquerda), a Opus Gay, que hoje é o Opus Diversidades, a Ilga Portugal e o grupo Lilás que, entretanto, se desfez.

Conferência de imprensa nas escadarias da Assembleia da República. Foto por Ana Marques Prata, Clube Safo.

Há um momento que, para mim, é particularmente importante. No dia 28 de Junho de 2000, Dia Mundial do Orgulho LGBT, pelas 11h da manhã, as associações LGBT convocaram uma conferência de imprensa nas escadarias da Assembleia da República. Tive o prazer de estar presente, juntamente com dirigentes das outras associações, nomeadamente o António Serzedelo, da Opus Gay, o José Manuel Fernandes, da Ilga Portugal, e talvez a pessoa mais importante para a concretização não só desta primeira marcha, mas de todas as marchas que se realizaram até agora: o Sérgio Vitorino que, na altura, estava no GTH, e que hoje pertence às Panteras Rosa. 

Conferência de imprensa nas escadarias da Assembleia da República. Foto por Ana Marques Prata, Clube Safo.

Qual foi o conteúdo dessa conferência de imprensa?

Essa conferência de imprensa apresentou o manifesto reivindicativo. A ideia era a de que esta não era a luta de uma minoria, não era uma luta de gueto, era uma luta de toda a sociedade.

O manifesto diz: “Estamos em toda a parte. A vizinha, o político, o carteiro, o taxista, a colega de trabalho, o imigrante, o motorista de autocarro, o professor, a médica, a pessoa desconhecida que passa por nós, qualquer um pode ser lésbica, gay, bissexual ou transgénero. A homossexualidade atravessa todos os setores sociais e profissionais, não escolhe sexo, classe, credo, nem forma de estar na vida. E não se reconhece pela aparência e nem pelos gestos que o senso comum lhe atribui. Apesar disso, o amor entre pessoas do mesmo sexo continua a ser reprimido e ridicularizado”.

Quais eram as principais reivindicações?

A faixa da frente da Marcha aludia ao reconhecimento das uniões de facto: “Uniões de facto já!”. É claro que as principais reivindicações incluíam também a inclusão na Constituição da República da discriminação com base na orientação sexual e identidade de género, o que só foi conseguido quatro anos mais tarde, em 2004.

Queríamos um país multicultural e solidário, a legalização dos migrantes, leis de asilo mais solidárias. Queríamos direitos sociais no trabalho e na saúde, o fim da precariedade laboral. Marchámos contra a violência sobre as mulheres e pelo direito a decidir sobre o seu próprio corpo, pela visibilidade das pessoas LGBT nos Censos 2001.

Algumas destas reivindicações foram, entretanto, conseguidas. Mas ainda ficou muito por conquistar, questões estruturais que têm a ver com o fim do machismo, do preconceito e discriminação social, da precariedade laboral…

Este é um manifesto que não envergonha ninguém e que, ainda hoje, mantém muitos aspetos de atualidade. 

E que demonstra já uma preocupação pela interseccionalidade das lutas…

Sim, aquilo a que chamamos hoje interseccionalidade das lutas já estava aqui muito presente. E a ideia de que esta não era uma luta de gueto, não era uma questão de reivindicação meramente identitária. Era, de facto, uma perspetiva de transformação social, de evolução da própria sociedade.

Isso também é visível nas associações que depois subscrevem este manifesto. Diz assim o editorial da Zona Livre nº 18, de julho de 2000:

“Pela primeira vez, as associações LGBT coordenaram esforços e fizeram das suas diferenças vantagens. Foi também a primeira vez em Portugal que outras associações não governamentais se juntaram à luta pelos nossos direitos. Subscreveram o manifesto comum: União Geral dos Trabalhadores - UGT, Rede Antirracista, SOS Racismo, Associação Olho Vivo, União de Mulheres Alternativa e Resposta - UMAR, Movimento Democrático de Mulheres - MDM, Grupo de Mulheres do PSR, Associação Portuguesa a Mulher e o Desporto, Associação Abraço, Associação para o Planeamento da Família”.

Havia aqui, de facto, uma consciência, que eu penso que é já bastante alargada, daquilo que é o movimento LGBT moderno em Portugal.

Como decorreu a Marcha em si?

Foram momentos muito emocionantes, em que vencemos o medo dominante na sociedade portuguesa. E foi para simbolizar esse medo que a organização da Marcha fez mais de 200 máscaras para distribuir àquelas e àquelas que quisessem marchar, que quisessem juntar-se a este momento de visibilidade, de reivindicação e de celebração, não só da nossa existência, mas da nossa própria vivência, mas que quisessem fazê-lo de cara tapada. 

As máscaras simbolizavam não a vergonha que nos queriam impor, não o medo que não deixávamos que nos dominasse e que nos mantivesse em casa, mas os motivos que nos levaram à rua. Foi isso que foi dito aos jornalistas: “Eu não tenho vergonha, não tenho medo, tenho bons motivos. Tenho uma sociedade que me discrimina, que me persegue, que não me reconhece. Assumir a minha orientação sexual, a minha identidade de género vulnerabiliza-me socialmente, familiarmente, em termos laborais, em termos de acesso à habitação e à saúde. E essa é a razão de ser destas máscaras, nas quais pretendemos recriar o símbolo do arco-íris rosa que o infame regime nazi usou nos campos de concentração para assinalar os homens gays. Queremos fazer deste símbolo de opressão, de morte, um símbolo da nossa luta, da nossa resistência, da nossa vontade de contribuir para um Portugal melhor ”. 

Não distribuímos muitas máscaras, apenas umas 20 ou 30. E, mesmo as pessoas que iniciaram a Marcha mascaradas, na sua grande maioria, chegaram ao fim com a cara descoberta, porque descobriram nessa Marcha a força coletiva. Descobriram a capacidade, a coragem de, em conjunto, dar a cara por algo que era maior do que as suas vidas: a vontade de mudanças sociais profundas que permitissem a visibilidade e uma vivência realmente digna para todas as pessoas. 

Fabíola Cardoso e Sérgio Vitorino no início da Marcha, no Príncipe Real. Foto por Ana Marques Prata, Clube Safo.

Foi um momento muito bonito. A Marcha reuniu-se no Jardim do Príncipe Real, com umas dezenas de pessoas, e foi engrossando, ganhando dimensão, ganhando alegria. Chegou à Praça do Município, onde falaram representantes das associações e onde já estavam preparadas as barraquinhas do Arraial. Foi um momento extremamente poderoso, importante não só para o movimento LGBT como para Portugal como um todo. 

Fabíola Cardoso, à esquerda na foto. Foto Ilga.

Por isso, é de facto muito triste quando, em 2021, não podemos levar para a rua esta Marcha de luta, de coragem, de reivindicação, que tão importante foi há 22 anos para nos trazer hoje aqui. É com essa responsabilidade que queremos passar a noção da importância do seu extraordinário poder transformador não só a nível político como a nível social e individual. 

Eu, e todas as outras pessoas, em particular todas as mulheres que contribuíram para o aparecimento e para a concretização desta Marcha, mudámos, crescemos. Somos hoje fruto deste processo. E é também por isso que é preciso continuar a fazer marchas em Portugal. 

Continuamos a crescer numa sociedade muito fechada, muito homofóbica, e que precisa, de facto, destas mudanças. E precisa que cada um e cada uma de nós faça primeiro um processo individual, depois coletivo/social e, finalmente, político. Estes três níveis não são uma pirâmide, são um sistema que se influencia mutuamente e que permite aquele que é o grande objetivo: mudar esta estrutura. 

A realização de uma marcha em contexto pandémico tem, inclusive, uma importância reforçada. Sabemos que as pessoas LGBTI+ - como constava do manifesto da Marcha de Lisboa - são afetadas pelas consequências da pandemia de forma mais gravosa, e que as medidas implementadas muitas vezes não respondem às suas necessidades e problemáticas.

A pandemia evidenciou aquilo que já sabíamos: todas as discriminações, todas as interligações entre as discriminações, entre a pobreza, o racismo, a falta de condições de habitabilidade… E evidenciou também que o silenciamento ainda é apetecível para muita gente, em Portugal e noutros países. Evidenciou ainda o quanto temos de continuar a alargar este campo, caso contrário corremos o risco de essas forças que pretendem que o ódio se abata entre nós ganharem espaço.

Não sabemos quanto tempo irá durar a pandemia. A covid-19 não pode contaminar a democracia, não pode contaminar a liberdade, não pode destruir e voltar a enviar para o armário a luta e a bandeira LGBT. Temos de ser capazes de nos reinventar permanentemente e de fazer deste momento de dificuldade mais uma oportunidade para, como há 22 anos, dar um salto e contribuir para mudar verdadeiramente as coisas.

1.ª Marcha do Orgulho, a 28 de Junho de 2000. Foto Ilga.

Há quem queira capitalizar a pandemia no sentido do retrocesso de direitos fundamentais.

O medo tem servido alguns interesses que se opõem muito frontalmente a tudo o que tem a ver com manifestações, reivindicação, liberdades políticas… Há quem queira aproveitar este momento pandémico para dispensar algumas preocupações democráticas, como o direito à greve, o direito à manifestação e o próprio Estado de Direito. Isso é o que está a acontecer em países a leste que pertencem à própria União Europeia. À conta destas situações pandémicas, está a ser aprovada legislação que é completamente anti-Estado de Direito, anti-liberdade, anti-direitos humanos.

Fabíola Cardoso a falar no início do Arraial. Foto por Ana Marques Prata, Clube Safo.

Há aqui um momento histórico muito relevante, cheio de contradições, em que, por um lado, há uma visibilidade social deste assunto como talvez nunca tenha existido e, por outro lado, temos o avanço de movimentos fortemente conservadores, populistas, assumidamente anti-LGBT.

Saber de onde vimos, conhecer os processos que levaram à origem das várias Marchas, é uma poderosa ferramenta, de que não podemos abdicar para continuarmos esta luta, que tem sido uma das mais profundamente transformadoras da sociedade portuguesa nos últimos anos, e cujo potencial ainda está longe de estar esgotado.

Que floresçam Marchas do Orgulho LGBT+ por todo o país! Bem precisamos delas.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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